A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, apresentou as projeções em uma coletiva de imprensa em Genebra, na Suíça. De acordo com a atualização global do clima sazonal divulgada pela organização, as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical podem ficar 3,8°C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, caso se confirme o cenário previsto.
A agência também advertiu que eventos extremos já registrados em diferentes partes do mundo podem se intensificar e atingir novas áreas à medida que o El Niño evoluir. Entre os riscos estão ondas de calor, estiagens prolongadas, chuvas intensas e inundações, com impactos sobre a agricultura, a infraestrutura e as populações em situação de vulnerabilidade.
ONU alerta para agravamento da fome e crises humanitárias
O subsecretário-geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, participou da coletiva ao lado de Celeste Saulo e destacou a possibilidade de consequências humanitárias em larga escala. Segundo ele, o fenômeno poderá agravar problemas relacionados à disponibilidade de alimentos, à segurança hídrica e às condições de vida de comunidades expostas a eventos climáticos extremos.
Fletcher alertou que 50 milhões de pessoas podem enfrentar um agravamento da fome em decorrência dos impactos associados ao El Niño. A projeção ocorre em um cenário internacional marcado por conflitos armados, deslocamentos populacionais, elevação dos custos de combustíveis, fertilizantes e alimentos, além de reduções no financiamento da assistência humanitária.
O representante da ONU também advertiu que os efeitos econômicos poderão ultrapassar as regiões diretamente atingidas por secas, inundações ou calor extremo. Segundo sua avaliação, as perturbações na produção agrícola, no abastecimento e nos preços podem provocar novos deslocamentos populacionais, ampliar a pressão sobre os sistemas de assistência e contribuir para tensões sociais.
Preparação antecipada pode reduzir os impactos
Apesar dos riscos projetados, a OMM e as Nações Unidas ressaltam que medidas preventivas podem reduzir os danos humanos e materiais. Celeste Saulo afirmou que condições climáticas extremas não resultam necessariamente em emergências humanitárias, desde que governos e organizações disponham de informações confiáveis e adotem medidas de preparação.
A secretária-geral destacou que os avanços tecnológicos e a melhoria dos sistemas de previsão meteorológica oferecem instrumentos para antecipar riscos. O planejamento pode incluir o fortalecimento dos sistemas de alerta, a preparação de abrigos, a proteção de fontes de água, a organização de estoques de alimentos e o direcionamento de recursos para comunidades expostas.
Segundo a dirigente, a janela de preparação permanece aberta em diversas regiões. A prioridade é transformar as previsões sazonais em ações concretas, permitindo que autoridades públicas e organizações humanitárias planejem operações antes que os eventos extremos provoquem perdas humanas, interrupções no abastecimento ou deslocamentos em larga escala.
OCHA libera mais de US$ 50 milhões para 11 países
Como parte das medidas de resposta, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) liberou mais de US$ 50 milhões do Fundo Central de Resposta a Emergências para apoiar 11 países considerados particularmente expostos aos riscos climáticos.
Entre os países mencionados estão Chade, El Salvador, Etiópia, Somália e Sudão do Sul. Os recursos destinam-se a apoiar ações humanitárias em áreas vulneráveis, diante da possibilidade de agravamento de secas, inundações e problemas de segurança alimentar.
A iniciativa integra os esforços internacionais para ampliar a capacidade de resposta em regiões onde a população já enfrenta conflitos, pobreza ou dificuldades de acesso a serviços essenciais. A disponibilidade de financiamento antecipado pode ajudar organizações humanitárias a organizar operações, embora a dimensão dos resultados dependa das necessidades locais e da evolução das condições climáticas.
África Oriental pode enfrentar chuvas intensas e inundações
Na África Oriental, as projeções indicam maior probabilidade de condições mais úmidas do que o habitual em partes da região durante a estação chuvosa de outubro a dezembro de 2026. O cenário aumenta a preocupação com precipitações intensas, enchentes e possíveis danos a moradias, estradas e áreas agrícolas.
A ocorrência de chuvas acima da média pode favorecer a disponibilidade de água em determinadas localidades, mas também elevar os riscos de inundações e deslizamentos, dependendo das características geográficas e das condições do solo. A capacidade de drenagem, a infraestrutura e os sistemas de alerta são fatores relevantes para determinar a dimensão dos impactos.
Na África Austral, por outro lado, aumenta a possibilidade de condições mais secas a partir de novembro, período que normalmente marca o início da estação chuvosa. A redução das precipitações pode comprometer a produção agrícola, limitar o acesso à água e prejudicar os meios de subsistência de comunidades que dependem da agricultura e da pecuária.
Sudeste Asiático enfrenta riscos de calor, seca e incêndios
No Sudeste Asiático, as previsões apontam para condições mais quentes e déficits de precipitação em determinadas áreas. A combinação pode aumentar a exposição da população ao calor extremo, elevar a demanda por água e pressionar a produção agrícola, especialmente em regiões dependentes de chuvas sazonais.
A diminuição da umidade também pode elevar o risco de incêndios florestais e episódios de fumaça, com possíveis efeitos sobre a qualidade do ar e a saúde pública. A intensidade desses impactos dependerá da distribuição das chuvas, das temperaturas registradas e das condições ambientais locais.
As autoridades da região deverão acompanhar a evolução das previsões e adotar medidas para reduzir os riscos à população e às atividades econômicas. O planejamento hídrico, a prevenção de incêndios e a proteção de grupos vulneráveis ao calor estão entre as áreas que podem exigir atenção adicional durante o período de maior influência do fenômeno.
Américas podem registrar chuvas intensas e aumento do risco de seca
Nas Américas, as projeções indicam maior probabilidade de precipitações acima do normal no noroeste dos Estados Unidos, no sudoeste da América do Sul, em partes da América do Norte e no norte do Caribe. Essas condições podem elevar o risco de chuvas intensas e inundações em áreas específicas.
Em contrapartida, a previsão aponta aumento do risco de seca em partes da América Central, do sul do Caribe e da Amazônia. A distribuição desigual das chuvas pode afetar o abastecimento de água, a produção agrícola, os ecossistemas e as atividades econômicas que dependem das condições climáticas.
No caso amazônico, a possibilidade de redução das precipitações exige acompanhamento das condições hidrológicas e ambientais. A intensidade dos efeitos dependerá da localização e da duração dos déficits de chuva, além das condições observadas antes e durante o período de influência do El Niño.
O que é o El Niño e por que o fenômeno preocupa
O El Niño é uma fase do fenômeno climático conhecido como El Niño–Oscilação Sul, caracterizada pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e influencia os padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do mundo.
Seus efeitos não são uniformes. Enquanto algumas regiões podem enfrentar chuvas acima da média, outras podem registrar estiagens, temperaturas elevadas ou mudanças na duração das estações chuvosas. A intensidade e a distribuição dos impactos dependem da evolução do fenômeno e da interação com outros fatores climáticos.
As projeções divulgadas pela OMM reforçam a importância do monitoramento meteorológico e da preparação antecipada. A possibilidade de temperaturas oceânicas muito acima da média e de impactos sobre milhões de pessoas coloca a segurança alimentar, a gestão dos recursos hídricos e a resposta humanitária entre as prioridades internacionais para o final de 2026 e o início de 2027.
O cenário ainda depende da evolução das condições do Pacífico tropical e das atualizações das previsões sazonais. Para a OMM e a ONU, a antecipação dos riscos e a mobilização de recursos podem reduzir a exposição das comunidades vulneráveis e limitar as consequências de eventos climáticos extremos.
*Com informações da ONU News.








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