Vivemos hoje uma reversão de expectativas? | Por Luiz Flávio Gomes

Luiz Flávio Gomes é Jurista e professor, além de Fundador da Rede de Ensino LFG.
Luiz Flávio Gomes é Jurista e professor, além de Fundador da Rede de Ensino LFG.

A resposta é positiva. A nova classe média (que não é privilégio do Brasil, sim, de todos os países emergentes), depois da lua de mel com seu novo “status” de consumidor (e de devedor também: a conta do crédito um dia tem que ser paga), agora quer mais, mas sabe que, no atual contexto de crises profundas, pouco poderá ser alcançado. A reversão de expectativas é notória (Marcus A. de Melo, Valor Econômico).

Os manifestantes querem qualidade de vida, daí os protestos por justiça social e contra os excessos do capitalismo neoliberal e neoescravagista; querem melhores serviços públicos bem como governantes e políticos honestos, que nunca se dispuseram a enfrentar com determinação e ética as clássicas mazelas decorrentes da nossa formação cultural (corrupção, clientelismo, nepotismo, fisiologismo, patrimonialismo, empreguismo, uso perdulário do dinheiro público etc.).

Em suma, querem o fim do ineficientismo do Estado, do fisiologismo (loteamento do Estado), do mau-caratismo de quem atua em nome do Estado ou que se relaciona com a res publica, do consumismo material (visto como horizonte único do ser humano pelo capitalismo neoliberal) e do desenvolvimentismo arcaico (fundado no excessivo controle estatal bem como na proteção de uma parte do empresariado nacional).

Mas se acham pessimistas em relação ao futuro, daí a reversão de expectativas (que gera insatisfação, que gera insegurança, que gera medo, que gera ansiedade, que gera ira etc.). Quem busca serviço público de primeiro mundo (educação, saúde, justiça rápida etc.) já sabe que não o encontra no Brasil.

Daí a frustração da classe emergente, que se transforma muitas vezes em humilhação, que é a causa da indignação e da sensação de impotência. A nova classe emergente, para além de constituir um forte motor econômico do país, é portadora de novas ideias e quer ter maior protagonismo na construção de uma nova sociedade (mais justa, mais equitativa, menos violenta, em suma, mais qualidade de vida).

Mas as atuais expectativas em relação ao Brasil (e ao mundo) se acham em declínio. Houve uma reversão, que é fonte de muita insatisfação. Tudo isso também explica a rebelião de junho.

*Luiz Flávio Gomes, jurista e coeditor do portal atualidades do direito.

luizflaviogomes@atualidadesdodireito.com.br


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