O preço do gás natural matéria-prima | Por Luis Eduardo Duque Dutra

O preço do gás natural matéria-prima, a sobrevivência da química brasileira e os desafios de uma política de competitividade para a indústria nacional 

A indústria química tem uma importante dimensão econômica no Brasil, sendo a quarta maior participação no PIB industrial (10,08%) e com um faturamento líquido estimado em U$130,2 bilhões, ocupando a oitava posição mundial em vendas. Porém, se encontra limitada por impostos, câmbio desfavorável, lapsos logísticos e penalizada por custos em energia e matéria-prima cada vez mais altos. Por estas, entre outras razões, a indústria química não conseguiu acompanhar o crescimento nos últimos vinte anos e vem perdendo importantes fatias do mercado para o importado. Este desempenho compromete um setor estratégico da indústria brasileira e, se não for revertido a tempo, fará da expansão da oferta de óleo e gás prevista para a próxima década, uma oportunidade perdida, ou mais um ciclo extrativo sem conseqüências duradouras.

A despeito da importância estratégica e do tamanho das vendas, o recente desempenho das contas externas da indústria química é preocupante. O déficit na balança comercial de produtos químicos cresceu de forma explosiva, saindo de US$ 1,5 bilhão em 1991 para US$ 20,7 bilhões em 2010. Em maio de 2011, o Brasil importou US$ 3,6 bilhões em produtos químicos, valor recorde para o ano. De janeiro a maio de 2011, o crescimento do déficit foi 28,4% superior ao do mesmo período de 2010. Nos últimos doze meses, de junho de 2010 a maio de 2011, o déficit é de US$ 22,7 bilhões. A situação da indústria química fragiliza ainda mais as nossas contas externas, onde as commodities, com menor valor agregado, já representam 71% do valor total exportado pelo Brasil no acumulado de janeiro a maio deste ano.

O cenário mundial é de mudanças radicais: deslocamento em direção à Ásia, com a instalação de fábricas gigantescas no Oriente Médio apoiadas no acesso ao gás natural farto e barato, e a recuperação (surpreendente) da petroquímica norteamericana, apoiada também na abundância de gás natural não convencional a preço baixo.

Frente a estes competidores, a situação da indústria química brasileira poderá ser ainda mais crítica na próxima década. Fora os juros e outros limitadores internos, o pequeno excedente gerado pela química brasileira é comprometido fortemente pela fatura com a compra de matéria-prima e energia. À exceção do próprio setor energético, o maior consumidor de gás natural é o setor químico. Em 2009, da média de 44,4 milhões de m³/dia ofertado ao mercado nacional, 9,6 milhões de m³/dia foram destinados à indústria química, sendo 6,9 milhões de m³/dia como combustível e 2,7 milhões de m³/dia como matéria-prima.

A recessão mundial, a valorização do real e o preço demasiadamente elevado no Brasil tornam o gás natural muito caro e mais um fator de desvantagem na competição internacional. O paradoxo é que o governo já reconheceu a dificuldade ao prever na lei 11.909/2009 – que alterou a lei 9.487/1997 – que seriam estabelecidas diretrizes para a regulamentação do uso do gás natural matéria-prima, buscando a sua utilização eficiente e compatível com a realidade dos mercados interno e externo. Portanto, uma regulamentação para beneficiar a indústria nacional. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), contudo, ainda não deliberou sobre a matéria. Enquanto isto, difícil será sustentar a viabilidade econômica do negócio químico. O preço do gás natural, no Brasil, é mais do dobro do verificado nos EEUU; um preço semelhante ao pago pelo gás natural liquefeito (GNL) comprado no mercado spot.

Na petroquímica, como em qualquer outro setor industrial, as reestruturações industriais e as liquidações de ativos acontecem, primeiro, com aqueles empreendimentos mais antigos e sem escala. Comparado com Bahia Blanca, Riopol, Triunfo e Paulínia, ou ainda com o futuro Comperj, o Polo de Camaçari é o capital mais antigo, com menor escala e escopo. Além desta desvantagem, é consumidor do Gás Nacional (como todo o Nordeste), que tem um preço cerca de 35% mais caro do que o Gás Boliviano. Por mais impensável que possa ser, é bom lembrar que dez anos bastaram (de 1975 a 1985) para acabar com a indústria de extração do carvão, na Inglaterra, França e Alemanha.

A importância estratégica do gás natural na formação do custo da indústria química decorre de um uso energético e de um uso como matéria-prima. Em quase todas as indústrias, o gás natural é mais um combustível a ser queimado. Na química, entre as muitas queimadas, algumas moléculas de gás natural são transformadas. Assim, elas ganham muito mais valor, são vendidas muito mais caro e para fins muito mais nobres. No Brasil, a transformação do gás natural responde por apenas 5 % de todo o consumo, o que demonstra, em primeiro lugar, a pouca atenção concedida à gestão do uso de um recurso natural não renovável. Segundo, que a definição de uma precificação diferenciada para o gás matéria-prima não implicará num impacto desestruturante no mercado nacional de gás natural.

Por ser, ao mesmo tempo, pouco importante no consumo total e ter papel estratégico na agregação de valor, o preço diferenciado do gás natural matéria-prima é um instrumento preciso de política industrial. Na verdade, o acesso ao gás natural matéria-prima a um preço dentro da realidade competitiva do mercado internacional é uma afirmação necessária para a química brasileira e para o parque produtivo nacional. Neste esforço, o governo (nas suas respectivas esferas) deveria reduzir os tributos e, através de seus mecanismos regulatórios, definir o preço da molécula e margens a serem praticadas para este segmento.

As armadilhas da financeirização internacional e o desafio de construir um novo projeto de desenvolvimento nacional exigem iniciativas que superem os falsos dilemas dos paradoxos ortodoxos. Definir uma política de competitividade ao parque produtivo brasileiro é um bom começo, e a implantação de uma precificação diferenciada para o Gás Natural matéria-prima é uma boa iniciativa.

Davidson Magalhães é diretor presidente da Companhia de Gás da Bahia – Bahiagás, mestre em Economia e professor da Uneb.

*Luis Eduardo Duque Dutra é professor da UFRJ e doutor em Economia pela Universidade de Paris.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading