Formação de Bandos?

O que há em comum, com relação aos crimes do dia a dia, quando o noticiário policial, na cidade de Fortaleza, refere-se à ação de grupos, como bandos? Do ângulo da herança colonial portuguesa tais bandos foram descritos como “facções políticas envolvidas com a administração pública”, seja através da Câmara, seja através de ofícios régios. Os membros do bando possuem ou estabelecem laços de parentesco entre si e compartilham também de interesses econômicos e políticos muitos próximos. Daí a referência de João Fragoso no ensaio “A nobreza vive em bandos”. Mas ele se referia à “oligarquização” das Câmaras lusas sob o prisma da formação de bandos.

Entre nós dois pesos e duas medidas: a) ou concordamos com as imagens veiculadas na cidade do Rio de Janeiro, no passado recente, quando a pragmática da notícia da TV Globo atribuiu-a à ação de grupos com a formação de bandos na praia de Copacabana, onde se vive com um dos menores espaços urbanos habitado por km², a palavra “arrastão”, em que houve de fato, saque de bens de banhistas que freqüentavam a praia, mas não com tal amplificação de imagens, ou, b) concordamos com o noticiário local de que, tal tipo de ação criminosa (furto), refere-se à ação de bandos, marcando a especificidade regional. Mas não devemos perder de vista que a formação de bandos, “refere-se a laços de parentesco entre si, mas compartilham também interesses econômicos e políticos bastante próximos”.

Não é, pois espantoso, portanto, o lugar de análise ocupado pela historiografia inglesa com a distinção entre “moderno” e “primitivo” ou “arcaico”, quando Eric J. Hobsbawm refere-se a “Primitive Rebels” (1959), “Bandits” (1969) e “Capitain Swing” (1969), para ficarmos nesses exemplos. Se for certo que o historiador não está equivocado quando se refere ao que ele nomeou como “Era dos Extremos”, também não queremos perder de vista à formação de “grupelhos”, que têm “roubado a cena” política fora dos grupos tradicionais separatistas, dos grupos de guerrilha marxista ou da questão religiosa e de divisão territorial entre árabes e palestinos que mais recentemente têm ocupado a mídia globalizada com questões relativas à formação de um “Estado nacional” vazio de sentido político. Se for verdade que todo Estado é corrupto e todo dinheiro é sujo por definição, qual o sentido desses clãs, povos, tribos, etnias, etc. em termos de manutenção e mesmo constituição de suas identidades sociais para a formação do Estado como unidade nacional?

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo, Cientista Político. Dr. em Comunicação pela ECA/USP. Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece).


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