
Parlamentares, até mesmo os declaradamente aliados, governadores e representantes de entidades civis reagiram de forma dura ao pronunciamento da noite de terça-feira (24/03/2020) em rede nacional do presidente Jair Bolsonaro, no qual ele voltou a minimizar a pandemia de coronavírus, e cobraram que o presidente tenha responsabilidade ao lidar com a crise gerada pelo Covid-19, doença causada pelo vírus.
A reação veio, por exemplo, dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), além do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de governadores —diretamente criticados pelo presidente em sua fala— e pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.
Ficou por conta de Alcolumbre a resposta institucional mais dura à fala de Bolsonaro. O presidente do Senado disse que o país precisa neste momento “de uma liderança séria e responsável” e considerou grave a posição externada por Bolsonaro no pronunciamento.
“Consideramos grave a posição externada pelo presidente da República hoje, em cadeia nacional, de ataque às medidas de contenção ao Covid-19. Posição que está na contramão das ações adotadas em outros países e sugeridas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS)”, disse.
“Reafirmamos e insistimos: não é momento de ataque à imprensa e a outros gestores públicos. É momento de união, de serenidade e equilíbrio. A nação espera do líder do Executivo, mais do que nunca, transparência, seriedade e responsabilidade.”
Maia adotou tom mais ameno ao classificar de “equivocada a fala de Bolsonaro, ao mesmo tempo que, em uma rede social, republicou a nota de Alcolumbre e o elogiou pelo posicionamento.
“Desde o início desta crise venho pedindo sensatez, equilíbrio e união. O pronunciamento do presidente foi equivocado ao atacar a imprensa, os governadores e especialistas em saúde pública”, disse.
“Cabe aos brasileiros seguir as normas determinadas pela OMS e pelo Ministério da Saúde em respeito aos idosos e a todos que estão em grupo de risco.”
No pronunciamento em cadeia nacional, Bolsonaro voltou a se referir à Covid-19 como uma “gripezinha” e criticou governadores e prefeitos que têm adotado medidas de restrição da circulação para conter a disseminação do vírus.
De acordo com a OMS, existem mais de 375 mil casos de Covid-19 em 195 países e a doença já matou mais de 16 mil pessoas globalmente. No Brasil, segundo balanço do Ministério da Saúde na terça-feira, são 2.201 casos, com 46 mortes.
Em publicação no Twitter após o pronunciamento de Bolsonaro, Gilmar Mendes afirmou que a pandemia “exige solidariedade e responsabilidade” e pediu às pessoas que permaneçam em casa para tentar conter a epidemia.
“A experiência internacional e as orientações da OMS na luta contra o vírus devem ser rigorosamente seguidas por nós. As agruras da crise, por mais árduas que sejam, não sustentam o luxo da insensatez. #FiqueEmCasa”, disse.
Aliado declarado de Bolsonaro, o senador Major Olimpio (PSL-SP) reconheceu que se elegeu graças à onda pró-Bolsonaro na eleição de 2018, mas afirmou que “aliado não é alienado” e classificou a fala do presidente como “um desastre”.
O presidente da OAB, por sua vez, foi mais longe e disse que a fala de Bolsonaro “será reconhecido como um dos pronunciamentos políticos mais desonestos da história”.
O discurso de Bolsonaro também foi criticado por governadores como os do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC); do Piauí, Wellington Dias (PT); do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB).
Nesta quarta-feira, Bolsonaro terá uma videoconferência com os governadores da Região Sudeste depois de já se reunir, da mesma forma, nesta semana com governadores das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul.
Nota de Repúdio da UPB
A União dos Municípios da Bahia (UPB) assistiu com grande preocupação o pronunciamento do Presidente Jair Bolsonaro na noite desta terça-feira (24). Após esforços concentrados em ações locais de conscientização da população para manter o distanciamento social, fechar escolas, rodoviárias e estabelecimentos comerciais, os prefeitos foram descredibilizados em rede nacional pelo presidente da República, em um ato contraditório das orientações dadas pelo seu próprio governo, através do Ministério da Saúde.
Aos prefeitos baianos, o pronunciamento do presidente passou a sensação de que o Brasil está desgovernado, sem uma liderança coerente e responsável, que respalde as decisões dos gestores locais nesse momento de crise. Deixa a certeza de que, ao seguir seus delírios de que trata-se de uma “gripezinha”, serão as lideranças municipais criminalizadas pelas mortes diante da total falta de estrutura para atender casos graves como veem sendo registrados em diversos países.
A União dos Municípios da Bahia (UPB) orienta que os prefeitos sigam tendo responsabilidade com seus munícipes, garantindo o direito fundamental à vida, implementando as medidas necessárias já orientadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Governo do Estado da Bahia na contenção do vírus que deixa um rastro de morte por onde passa.
Eures Ribeiro, presidente da UPB e prefeito de Bom Jesus da Lapa
Nota da Bancada Partido Verde na Câmara dos Deputados
Os deputados federais da Bancada do Partido Verde repudiam veementemente das declarações do Presidente da República, Jair Bolsonaro, que em seu terceiro pronunciamento em rádio e televisão sobre a crise do novo coronavírus, criticou o fechamento de escolas e do comércio, atacou governadores e culpou a imprensa pelo que considera um clima de histeria instalado no país.
Para o Partido Verde, a saúde e a vida vêm sempre em primeiro lugar e defende, em consonância com a LOAS, “a supremacia do atendimento às necessidades sociais sobre as exigências da rentabilidade econômica”.
O pronunciamento do presidente foi na contramão de tudo o que cientistas e governantes do mundo todo – das mais variadas posições ideológicas – vêm adotando para combater o avanço do COVID-19. Afrontou, inclusive, a própria realidade apresentada diariamente pelo seu Ministro da Saúde: é necessário lembrar que estamos na fase inicial da pandemia no Brasil e já são mais de 2.200 casos confirmados de coronavírus no Brasil e 48 mortes.
A bancada do Partido Verde no Congresso Nacional continuará cobrando do Governo Federal um plano efetivo de políticas públicas para salvar vidas e, nesse período emergencial, garantir recursos para aliviar o sofrimento dos brasileiros que passarão por dificuldades econômicas oriundas desta crise.
Reconhecemos que a economia não vai se recuperar rapidamente, mas nesse momento precisamos fortalecer o SUS, através da execução de um fundo que disponha dos recursos e da agilidade necessários ao combate às consequências do coronavírus.
Reforçamos nossa convicção de que remover as medidas sanitárias agora é uma sentença de morte para milhares de brasileiros. Salientamos nosso apoio as medidas emergências, tomadas por governadores e prefeitos, já que proporcionarão a redução da velocidade da contaminação, o que permitirá aos estados e municípios se prepararem para um quadro de saturação do sistema de saúde.
Medidas de relaxamento do isolamento social, quando forem discutidas, devem ser tratadas com a maior prudência possível. Não é admissível que se minimizem os efeitos da pandemia. Não é admissível que o Presidente da República dê orientações divergentes e contraditórias. Não é admissível que se aprofundem divisões e se façam cálculos políticos a essa altura dos acontecimentos.
Só passaremos por essa crise unindo as forças que defendem a vida. Esse é o momento de todos nós que acreditamos na política como espaço de construção do bem comum.
Por fim, agradecemos e desejamos um bom trabalho a todos os profissionais de saúde, que estão na linha de frente para ajudar a salvar a vida de milhares de brasileiros.
Liderança da Bancada de Deputados Federais do Partido Verde
*Com informações de Eduardo Simões, Maria Carolina Marcello, Ricardo Brito e Lisandra Paraguassu da Agência Reuers.







