Dengo. Um caminho em busca de alternativas para dar outro substantivo ao modo de se relacionar com afeto. “Dengo – Uma Carta para o Amor Preto” também é o nome do espetáculo solo protagonizado pela AfroDrag Barbárie Bundi, que agora conta com uma versão audiovisual híbrida envolvendo poesia, música e performance em Salvador. Barbárie é criação de Thiago Romero, ganhador do Prêmio Braském 2021 de Melhor Espetáculo com “Nau”. É a partir do entendimento que o amor romântico nasce dentro de uma construção simbólica ocidentalizada e elitizada que Dengo começa a se transformar em um grande projeto de pesquisa estética sobre os modos de afeto entre pessoas negras.
Neste trabalho, a afrodrag Barbárie Bundi mergulha em suas memórias ancestrais para que possa encontrar símbolos, narrativas e sujeitos que possam afirmar o dengo em terra. Quase em tom confessional, o diálogo é estabelecido através de uma carta poética que propõe mergulhos em memórias ancestrais, mas também na nossa vida cotidiana. Fazer do sacro e profano uma coisa só, repensar essa dicotomia estabelecida, principalmente, na vida afetiva. Em Dengo, Barbárie vê afeto na troca e isso passa pela noção de saberes, de mercado, de afeto e de justiça. É num complexo sistema afetivo que o corpo negro pode se entender como afirmação da felicidade. Não apenas a partir de um amor romântico, mas da noção de parceria, de família, de comunidade e, principalmente, do autocuidado e da relação consigo. Produzido pela Dan Território de Criação, a obra conta com filmagens na Feira de São Joaquim, e em uma casa clássica do bairro do Barbarlho, ambos os locais na cidade de Salvador.
““Dengo” é a realização de um sonho, de acreditar que as coisas são possíveis. Quando lancei o “Aquátika”, pensei que poderia fazer dele um projeto maior, que não ficasse só no disco, que tivesse outras possibilidades. E fazer um trabalho audiovisual sempre foi meu desejo. Esbarramos, claro, em questões de orçamento, mas conseguimos colocar mais esse afluente dentro dessa correnteza que é pensar que as narrativas pretas também vêm desse lugar de olhar o Atlântico, esse fluxo e refluxo de uma história ancestral”, afirmou Barbárie.
Dentro do projeto de pesquisa, em 2021, Barbárie lançou o EP “Aquátika”, disponível nas principais plataformas, e a websérie “Chamego”, disponível no Youtube. Nesta nova linguagem, o vídeo lança mão de uma narrativa ficcional para traçar um encontro híbrido em busca de caminhos de reconhecimento afetivo do povo negro diaspórico. “É através do Atlântico, de nossas chegadas pelos mares e do pensamento de uma sociedade pré-colonial que ficcionalizamos e pensamos em símbolos de afeto que possam nos conectar com outra ideia de amar.” Ressalta Daniel Arcades, diretor da obra audiovisual.
Dengo traz para a cena as canções do Ep Aquátika, poesias inéditas e questionamentos levantados durante o longo processo de pesquisa tido até então. “Acho que o Dengo materializa em imagens o que o “Aquátika” propõe em sons. É mais um passo dado em muitos desejos que ainda podemos trabalhar. Foi um processo intenso, mas muito prazeroso. De poder rever as canções e pensar nas imagens”, diz a afrodrag.
AfroDrag Barbárie Bundi
A afrodrag Barbárie Bundi tem aparecido na cena local como uma persona transversal em múltiplas linguagens artísticas e no universo do entretenimento.
“Sou uma afrodrag, uma drag queen preta, mas que entende outros atravessamentos. Sou muito interessada no lugar que a multilinguagem proporciona. Me interesso pelas coisas, pelo campo das artes, muito importante e potente para trazer nossas narrativas, estar em cena, cantar e fazer um texto… Sou uma artista que tem se deixado atravessar pelas propostas. Ao mesmo tempo em que lanço um disco penso em fazer um recital poético. Penso sempre em como fazer com que essas histórias possam ir ao encontro do espectador”, conta.
Barbárie pauta sua existência em fundamentos estéticos afro-diaspóricos e numa poética que busca no som a poesia dos cânticos ancestrais e populares de comunidades nativas brasileiras e afro-diaspóricas aliado à cultura pop, elemento tão difundido dentro do universo LGBTQIA+.
Além de “Dengo”, em sua versão audiovisual, Barbárie planeja lançar novas canções e apresentá-las em uma show-performance.
“Nada mais natural que, depois de “Dengo”, também entremos em um processo de ensaio para o show musical de “Aquátika”. Quando estivermos fazendo o show, todas as obras irão migrar. Acho que é isso, minha ideia não era só lançar o disco, era me apresentar como essa artista interessada em múltiplas linguagens estéticas e de experiências”, revela a artista.
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