A cidade e a crise financeira internacional | Por Newton Oliveira

Tenho acompanhado desde o ano passado o estouro da “bolha imobiliária” que aconteceu nos Estados Unidos, centro do capitalismo do mundo ocidental.

Inicialmente falava-se de um acontecimento econômico-financeiro restrito a produção, venda e financiamento de empreendimentos residenciais. Para isto o governo americano adotou providências para socorrer as duas empresas gigantes do mercado imobiliário. Porém, não era somente isto. Tratava-se de um emaranhado diabólico engendrado pelo mercado financeiro com nomes sugestivos como “subprime”, “derivativos” e tantos outros tão ao gosto do “mercado”.

Pouco tempo depois, o mal foi espalhado por todo o mundo ocidental e asiático com a quebra de bancos de investimentos, baixas generalizadas nas bolsas e perdas bilionárias de investidores. É a tal globalização funcionando “sem dó nem piedade”. A saúde financeira de milhares de empresas ao redor do mundo viram “derreter” o valor de suas ações. E o pânico instalou-se no capitalismo.

Tudo isto está acontecendo nas cidades que é palco principal dos acontecimentos. Para o bem ou para o mal é nas cidades que as organizações financeiras estão instaladas e daí irradiam a ganância cada vez maior do capitalismo que opera sem regulamentação e sem medir as conseqüências para a humanidade.

Os organismos internacionais já alertam que a fome e a miséria vão aumentar a partir de agora. É a terrível máxima de que a pobreza é a que mais sofre com os atos irresponsáveis dos gananciosos.

E os governos dos países ricos estavam dormindo? E as agências internacionais que controlam os riscos onde se encontravam? Na prática, elas só funcionam para ditar regras para os países pobres e “emergentes”. É uma falta completa de credibilidade. E porque temos, no Brasil, de tolerar a opinião maledicente destas agências de risco? O pior é que não podemos ignorá-las. É a opinião delas que orienta os investidores e especuladores internacionais. Mesmo que seja uma opinião tendenciosa.

Mas, como a crise chegou entre nós? Alcançou a economia real? Claro que já houve o desembarque no Brasil. O crédito já está escasso e mais seletivo. Os juros cobrados para operações financeiras de curto e médio prazos já subiram.

O setor exportador já se ressente de dificuldades. As “comodites” apresentam preços menores e as obras de infra-estrutura como portos e hidrelétricas devem ser mais atingidas pela crise.

O Presidente Lula vem afirmando que não permitirá retrocesso nos investimentos para as obras do PAC. E promete uma ação vigorosa para manter o ritmo dos contratos.

O grande problema que se instalou de vez é a crise de confiança entre os agentes financeiros e os tomadores de crédito. Sair ileso desta situação nem pensar. Vamos todos amargar um ritmo menor de investimentos nos próximos anos.

Os prefeitos haverão de rever os seus programas de governo, adaptando os desejos à realidade. Se realmente a atividade econômica reduzir sua dinâmica, todos nós teremos de mudar nossos planos. A cidade vai ter de adaptar-se a nova realidade. Este será o caminho para os próximos anos.


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