Rádio Sisal censura programa do Sindicato de Valente

Há mais de onze anos que a população rural e urbana do município de Valente, todos os domingos, através do programa de rádio “Falando com o trabalhador”, ficava por dentro dos acontecimentos e informações de interesse público. O mesmo programa ainda divulgava os direitos sociais e previdenciários, a agenda de atendimento no INSS, as festas comunitárias, as mensagens de familiares para os aniversariantes, entre outras notícias.

Mas em reunião na manhã desta sexta-feira (16/10/2008), convocada pela direção da Rádio Sisal, Edvaldo de Carvalho e Carlos Barros (Carlão) comunicaram aos diretores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Agricultores Familiares de Valente (Straf), Maria Madalena (Leninha) e Claudionor Aquino, a suspensão do contrato. O argumento apresentado pelos diretores da emissora para a censura política, segundo a direção do Straf Valente, foi que no programa “Falando com o trabalhador” estava sendo veiculadas matérias sobre os governos Lula e Wagner, além de ter informado e comentado o resultado do processo eleitoral nos diversos municípios da Bahia e, em especial, da região: Santa Bárbara, Serrinha e Quixabeira (prefeitos eleitos do PT) e Conceição do Coité e Valente.

O programa, que sempre ia ao ar impreterivelmente às 6h30 da manhã de domingo, era ouvido por aproximadamente 60 municípios que compõem as regiões sisal, vale do jacuípe, piemonte e nordeste do semi-árido baiano.

Através do programa “Falando com o trabalhador” os cidadãos e sindicalistas rurais mantinham-se atualizados sobre as políticas públicas setoriais e muitas das lutas sociais desenvolvidas na região chegaram ao conhecimento da sociedade, a exemplo das mobilizações sociais para implantação do Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), o programa Fome Zero (hoje bolsa família), o acesso ao crédito rural do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

O processo de articulação e mobilização dos trabalhadores rurais para acesso a terra – hoje os assentamentos de Nova Palmares (Coité), Lagoa dos Bois-Rose, Antônio Conselheiro, Maria Preta e Mucambinho (Santa Luz), Nova Esperança, Alto Bonito e Nova Vida (Cansanção), Tabua/Serrinha, Belo Alto e Paraíso (Quijinque) – também pôde contar com o trabalho de comunicação social do “falando com o trabalhador”. Os assentados, além de ouvintes assíduos, participam ativamente enviando mensagens.

A luta pela democratização da comunicação responsável pelo surgimento – na região – das mais de 16 rádios comunitárias e também da Abraço Sisal (Associação de Rádio e TV Comunitárias do Território Sisaleiro) em pleno funcionamento nos dias de hoje, foi mais uma das demandas sociais importantes. Todas essas lutas, sem sombra de dúvida, também contaram com o serviço de comunicação social e utilidade pública desenvolvido pelo programa de rádio do sindicato.

Com a censura política imposta pela direção da emissora, quase 1 milhão de pessoas – acostumadas todo domingo com o programa – deixarão de ouvir a vinheta de abertura que por ironia diz que “A terra dá, a terra come, a terra é que produz e o povo passando fome. No Brasil quando houver a reforma agrária, nunca mais a pobreza passa fome”, quiçá também de informação com a reforma dos meios de comunicação.

Os diretores sindicais mostraram-se bastante indignados com a atitude ditatorial da direção da emissora que praticou o chamado “dois pesos e duas medidas”, porque abriga na rádio o programa “A voz das associações” mantido pela prefeitura de Conceição do Coité que, a exemplo do último domingo (12/10), fez proselitismo político explicitamente. “No momento em que a sociedade brasileira comemora 20 anos de conquista do direito à informação, a Constituição Cidadã que pôs fim à ditadura militar, é desrespeitada por um grupo político ligado ao ex-carlismo baiano que controla a radio desde a sua fundação”, assinalaram os diretores do STRAF Claudionor Aquino e Leninha.

Segundo ainda a diretoria do sindicato, o programa terá continuidade noutra emissora de rádio da região, provavelmente numa rádio comunitária.


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