Seymour Hersh: Em Busca da Verdade; Documentário da Netflix aborda biografia, grandes denúncias e o papel do jornalismo investigativo

A Netflix estreia o documentário Seymour Hersh: Em Busca da Verdade (Cover-Up), dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, que revisita mais de cinco décadas de jornalismo investigativo conduzido por Seymour Hersh. A produção articula documentos primários, imagens de arquivo e anotações pessoais do repórter para examinar desde sua formação profissional até investigações históricas sobre o massacre de My Lai, as torturas em Abu Ghraib, a ingerência dos Estados Unidos no Chile de Salvador Allende e a atuação de Henry Kissinger na política externa norte-americana, discutindo o papel do jornalismo independente na responsabilização do poder estatal.

Um método orientado pelo confronto com o poder

O documentário evidencia que a credibilidade de Hersh foi construída não pelo acesso confortável ao poder, mas pela disposição permanente de confrontá-lo. Seu método envolvia entrevistas individuais com fontes de alto escalão, cruzamento sistemático de informações e resistência às pressões políticas e editoriais.

Esse padrão o colocou repetidamente em choque com governos, forças armadas e agências de inteligência, mas também sustentou a consistência de seu trabalho ao longo de décadas. O filme demonstra que suas reportagens não foram episódios isolados, mas parte de uma trajetória coerente de investigação do Estado e de seus mecanismos de ocultação.

Do Vietnã ao Iraque: crimes de guerra e impunidade

O ponto de inflexão da carreira de Hersh ocorreu em 1969, com a revelação do massacre de My Lai, no Vietnã, que resultou na morte de centenas de civis. A reportagem lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de 1970 e expôs a dimensão dos crimes de guerra cometidos por forças norte-americanas.

Décadas depois, Hersh voltou ao centro do debate público ao denunciar as torturas e abusos cometidos por militares dos EUA contra prisioneiros na prisão de Abu Ghraib, durante a ocupação do Iraque. Em ambos os casos, o documentário mostra como houve tentativas iniciais de desacreditar o jornalista, seguidas pela confirmação factual das denúncias.

O filme sustenta que esses episódios revelam um padrão institucional de acobertamento e ausência de responsabilização efetiva dentro do aparato militar e de inteligência norte-americano.

Chile e Salvador Allende: ingerência e desestabilização

Um dos eixos centrais do documentário é a investigação de Hersh sobre a atuação dos Estados Unidos no Chile, durante o governo do presidente Salvador Allende. A partir de documentos e fontes internas, o jornalista demonstrou como a administração norte-americana promoveu uma política deliberada de desestabilização econômica e política de um governo democraticamente eleito.

Segundo as reportagens, essa estratégia envolveu pressão financeira, financiamento indireto da oposição e estímulo a setores militares contrários ao governo, criando as condições que culminaram no golpe de 11 de setembro de 1973 e na instalação da ditadura de Augusto Pinochet.

O documentário insere o caso chileno como exemplo emblemático da política externa dos EUA durante a Guerra Fria, marcada por intervenções encobertas e decisões tomadas à margem do controle democrático.

Henry Kissinger e a concentração de poder decisório

A atuação do então conselheiro de Segurança Nacional e secretário de Estado Henry Kissinger ocupa lugar central nessa análise. Hersh foi um dos principais jornalistas a documentar a concentração extraordinária de poder nas mãos de Kissinger durante os governos Nixon e Ford.

No livro The Price of Power: Kissinger in the Nixon White House, amplamente abordado no documentário, Hersh detalha como decisões estratégicas envolvendo o Chile, o Vietnã e outras operações foram conduzidas com mínima supervisão institucional. O filme sustenta que o caso chileno simboliza a subordinação de princípios democráticos à lógica geopolítica, sem responsabilização posterior dos formuladores dessas políticas.

Direção, linguagem e rigor documental

Dirigido pela vencedora do Oscar Laura Poitras e pelo vencedor do Emmy Mark Obenhaus, Cover-Up adota uma linguagem sóbria, ancorada em arquivos, documentos e no próprio relato de Hersh. A opção por evitar recursos sensacionalistas reforça a credibilidade da obra e seu valor pedagógico, sobretudo para estudantes e jovens jornalistas.

O documentário estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2025 e circulou por festivais como Telluride, Toronto, Nova York e Londres, consolidando reconhecimento crítico antes de sua chegada ao streaming.

Poder e memória histórica

Ao consolidar biografia e grandes investigações, Seymour Hersh: Em Busca da Verdade demonstra que o jornalismo investigativo é resultado de formação, método e persistência, e não de episódios ocasionais. O filme expõe a assimetria estrutural entre jornalistas e centros de poder, evidenciando que, enquanto repórteres enfrentam riscos pessoais e profissionais, formuladores de políticas raramente respondem por decisões com impactos globais duradouros.

Em um contexto contemporâneo de desinformação e pressão sobre a imprensa, o documentário reafirma o jornalismo investigativo como instrumento essencial de memória histórica, controle democrático e responsabilidade pública.

Formação e biografia: a construção de um repórter investigativo

Nascido em Chicago, em 8 de abril de 1937, Seymour Myron Hersh é filho de imigrantes judeus do Leste Europeu, falantes de iídiche, que mantinham uma pequena lavanderia na cidade. Formado em História pela Universidade de Chicago, teve uma trajetória inicial marcada por instabilidade profissional, passando por empregos fora do jornalismo antes de ingressar definitivamente na área.

Sua carreira jornalística começou em 1959, como repórter policial no rigoroso City News Bureau de Chicago, conhecido por seu padrão extremo de checagem. Posteriormente, atuou como correspondente da United Press International e da Associated Press, cobrindo temas nacionais e de segurança em Washington.

Nesse período, Hersh aproximou-se do jornalista independente I. F. Stone, cuja crítica ao macartismo e recusa a versões oficiais influenciaram decisivamente seu estilo. A partir daí, Hersh consolidou um método baseado em fontes diretas, documentos primários e investigação além dos briefings do Pentágono — prática que se tornaria sua marca registrada.

Após romper com a Associated Press por divergências editoriais relacionadas a denúncias sensíveis, Hersh passou a atuar de forma independente, publicando em veículos como The New York Times, The New Republic e London Review of Books, além de livros que se tornaram referências do jornalismo político investigativo.

Os cineastas Mark Obenhaus e Laura Poitras.
Os cineastas Mark Obenhaus e Laura Poitras.
Cartaz do documentário Seymour Hersh Em Busca da Verdade (Cover-UP).
Cartaz do documentário Seymour Hersh Em Busca da Verdade (Cover-UP).

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