Editor da Economist, Michael Reid analisa a América Latina

Michael Reid: "Vinte cinco anos atrás, a violência relacionada com o crime organizado era muito mais localizada nos países andinos. Ao longo desses últimos vinte e cinco anos, o comércio de drogas se espalhou por toda a região, de Tijuana ao Rio de Janeiro.".
Michael Reid: “Vinte cinco anos atrás, a violência relacionada com o crime organizado era muito mais localizada nos países andinos. Ao longo desses últimos vinte e cinco anos, o comércio de drogas se espalhou por toda a região, de Tijuana ao Rio de Janeiro.”.

“Nenhuma notícia é boa notícia”, escrevia dois anos atrás no livro ‘O Continente Esquecido – A Batalha pela Alma Latino-americana’, o jornalista e editor para as Américas da revista britânica Economist, Michael Reid. Recentemente, Reid coordenou o time de correspondentes na região para a publicação de reportagem de capa sobre a guerra do tráfico de drogas. Estaria a situação pior na América Latina dos dias de hoje? “Acho que está perto de ser uma preocupação”, disse.

Mas o crime organizado não é o único problema em potencial enfrentado pela América Latina, na opinião do editor da Economist. “O que temos visto na Venezuela — a maneira como alguns líderes da oposição foram ilegalmente detidos — e o movimento em direção à abolição dos limites de mandatos presidenciais, feito por Hugo Chávez e desejado por Álvaro Uribe, são grandes baques na qualidade da democracia.” (Leia post do Centro Knight sobre outra reportagem da Economist que discute o problemático relacionamento dos Kirchners com a mídia argentina.)

Reid foi correspondente no Brasil, México e Peru por 25 anos, com passagens pela BBC e Guardian antes de integrar a equipe da Economist. O Centro Knight conversou com Reid sobre América Latina, democracia e jornalismo.

O desafio na Economist, explicou, “é prover uma análise rigorosa numa linguagem que os não-acadêmicos possam entender.” Na tentativa de evitar vícios da imprensa britânica que “raramente vai além dos estereótipos” da América Latina, a agenda de notícias da revista passa pelos temas da estabilidade econômica, democracia, meio ambiente e segurança pública. “Obviamente, uma vez que (Hugo) Chávez vê como parte de seu trabalho fornecer notícias, é frequentemente muito difícil ignorá-lo.”

Confira a entrevista com Michael Reid

Knight Center (KC): Você escreveu no seu livro que “Nenhuma notícia é boa notícia”, com relação ao “abandono” da América Latina pelo resto do mundo. Recentemente, a Economist dedicou matéria de capa sobre a guerra do tráfico de drogas no México. Estão as coisas piorando na América Latina?

Michael Reid (MR): Eu acho que está perto de ser uma preocupação. Vinte cinco anos atrás, a violência relacionada com o crime organizado era muito mais localizada nos países andinos. Ao longo desses últimos vinte e cinco anos, o comércio de drogas se espalhou por toda a região, de Tijuana ao Rio de Janeiro. A situação é particularmente séria no México. O crime organizado no México era muito menor e menos poderoso, o que expõe uma certa fraqueza do Estado mexicano. A outra e maior nuvem no horizonte é obviamente a recessão mundial. Claramente, este e o próximo ano serão difíceis para a região.

KC: Qual é o critério da Economist para escolher as histórias que serão publicadas todas as semanas? Vocês têm a preocupação de fugir dos estereótipos e clichês?

MR: Na Economist, tentamos encontrar um equilíbrio entre importantes e novas histórias a cada semana. Tentamos dar aos leitores de outras partes do mundo um aperitivo da região. Mas o tema central na última década tem sido o esforço para alcançar estabilidade econômica e crescimento, o que é uma história contínua, e o esforço paralelo de fazer a democracia funcionar efetivamente, num contexto de profunda desigualdade e pobreza. Junto a isso, eu diria os temas da segurança pública e do crime organizado, além dos problemas relacionados ao meio ambiente. Obviamente, uma vez que (Hugo) Chávez vê como parte de seu trabalho fornecer notícias, é frequentemente muito difícil ignorá-lo.

KC: Você acha que a mídia britânica utiliza diferentes critérios para a seleção de notícias na América Latina daqueles empregados pela imprensa dos Estados Unidos?

MR: Eu acho que a mídia britânica, com algumas exceções, como o Financial Times e a Economist, tem menos conhecimento e interesse na América Latina do que a imprensa dos Estados Unidos. A cobertura é limitada e mostra um foco quase obsessivo em Cuba e Che Guevara. A mídia britânica raramente vai além dos estereótipos da desigualdade e da pobreza na cobertura que faz da região.

KC: O estilo da Economist flerta muito com a academia. Você acha que o futuro do bom jornalismo está na especialização de seus profissionais?

MR: Eu acho que é um caminho. Comparado a muitos outros jornalistas, nós provavelmente passamos mais tempo conversando com acadêmicos e lendo o que eles escrevem. Uma coisa que tentamos fazer é prover uma análise rigorosa numa linguagem que os não-acadêmicos possam entender. Mas eu acho que outras formas de jornalismo podem ter sucesso. Nós temos um tipo de método combinado a um compromisso de cobrir o mundo como um todo. Há um mercado para isso e nós temos sido capazes de crescer como publicação, enquanto outras publicações têm tido problemas.

KC: A América Latina passou por mudanças drásticas desde 1970, quando quase todos os países eram ditaduras. Hoje, com a exceção de Cuba, cada país desenvolveu o seu sistema democrático. Como você avalia a democracia na América Latina atualmente?

MR: Obviamente, (os governos democráticos) variam em qualidade e eficácia. O importante é que os governos democráticos têm se saído muito bem na região, apesar de algumas dificuldades em termos de fracos partidos políticos, apesar da extrema desigualdade social e apesar de uma relativa ineficiência da lei. Mas em alguns países a democracia está claramente ameaçada. O que temos visto na Venezuela — a maneira como alguns líderes da oposição foram ilegalmente detidos — e o movimento em direção à abolição dos limites de mandatos presidenciais, feito por Hugo Chávez e desejado por Álvaro Uribe, são grandes baques na qualidade da democracia. Eu realmente acho que é uma ameaça à democracia se você tem presidentes ficando no poder por um período muito longo.

KC: Como os governos da América Latina têm lidado, por exemplo, com os direitos de liberdade de expressão e de acesso à informação?

MR: Na maioria dos países você tem atualmente um considerável nível de liberdade de imprensa e liberdade de informação, que funciona com muitas variações, mas pode ser considerado um grande avanço comparado ao passado da região. Eu acho que existem preocupações em alguns países, particularmente relacionadas à propriedade de canais de televisão, concentrada nas mãos de governos ou em mãos ligadas a governos ou em mãos de políticos locais. Esse é o caso do Brasil, por exemplo, de algumas partes do Brasil. A outra ameaça é, claro, a ameaça à dignidade física, a ameaça à segurança de jornalistas pelo crime organizado.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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