Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após lançamento do Programa Aprendiz Banco do Brasil

Luiz Inácio Lula da Silva.
Luiz Inácio Lula da Silva.

Centro Cultural Banco do Brasil, 27 de outubro de 2009.

Jornalista: E o IPI, Presidente, o que foi decidido?

Presidente: Olha, eu acho que eu tenho muito o que comemorar, ao completar 64 anos de vida, e acho que o Brasil tem que comemorar pelos bons momentos que está vivendo. Acho que a vida foi muito generosa comigo. Eu sou um cidadão que não tenho por que reclamar, porque acho que chegar onde eu cheguei já foi um milagre da natureza e, portanto, alcançar a Presidência da República foi dois milagres para um ser humano só, coisa que não é habitual.

Então, eu estou satisfeito, espero completar 75, 95 e, se Deus quiser, eu estou nos pés do Oscar Niemeyer, da dona Canô. Eu estou ali, querendo ultrapassar os cem, não sei se a natureza vai permitir. Marisa diz que ia fazer 105, então vai ser uma disputa, quem vai viver mais. Mas, de qualquer forma, é um dia gratificante. Agora…

Jornalista: Presidente, em relação ao IPI, o senhor já decidiu? Ia acabar… por poucos dias…

Presidente: Não, querida, deixa eu lhe falar uma coisa: nós tomamos as decisões no momento em que a situação exigia que a gente tomasse uma decisão. Isso, o Guido tem procuração minha. Na hora em que ele entender que deva acabar, ele acaba; na hora em que ele entender que deva continuar, continua. O que eu acho que é importante é que a economia está indo bem e nós não precisamos fazer nada, absolutamente nada fora da normalidade, porque as coisas estão indo bem.

Jornalista: Presidente, o segredo da sua vitalidade…

Jornalista: Mas é que os juros do cheque especial…

Jornalista: Vamos mudar um pouco o assunto, desculpa. Sessenta e quatro anos, o senhor tem uma agenda que dá inveja a todo mundo, dá baile na gente, que tem que seguir o senhor. Qual é a sua receita?

Presidente: Olha, eu penso que eu sempre fui assim, ou seja, eu, quando estou em atividade, eu não me canso. Eu sou capaz de fazer dez agendas por dia, eu sou capaz de fazer discurso às seis horas da manhã e fazer discurso à meia-noite. Agora, se parar, aí dá canseira.

Jornalista: Não pode parar?

Presidente: Dá canseira. A minha equipe também, que anda comigo, o pessoal cansa mais do que eu, porque eu sou um cidadão movido a motivações, ou seja, se tiver alguma coisa para falar, se tiver gente na rua, se tiver… eu quero falar, e aí eu não me canso. Se eu estiver cansado, eu descanso, se eu tiver dormindo, eu acordo. Minha vida é assim. Mas era assim também no movimento sindical, foi assim no PT, é assim no governo, e eu espero que seja assim para o resto da vida, porque eu não me vejo paralisado, ou seja, não me vejo sem atividade política.

Jornalista: O senhor pensa em voltar para o governo?

Presidente: Eu estou no governo.

Jornalista: Voltar depois?

Presidente: Ah, não, aí, querida, só…

Jornalista: Presidente, o juro ao consumidor caiu, pela primeira vez, desde 94, julho de 94, ou seja, o primeiro…

Jornalista: Mas o cheque especial aumentou.

Jornalista: Agora, o cheque subiu. Queria que o senhor comentasse, o senhor finalmente…

Jornalista: O senhor conversou com o Meirelles sobre isso?

Presidente: Olha, eu penso que quem vai cuidar do cheque especial são os detentores do cheque especial. Eu, a primeira vez que eu ganhei um cheque especial, eu achei que eu era “gente fina”. É verdade! Eu achei que estava sendo tratado com uma certa deferência, porque me deram um cheque especial. No primeiro mês em que eu não pude pagar o que eu comprei, na data correta, eu percebi que eu não era cliente preferencial coisa nenhuma, ou seja, eu estava sendo ali, quase assaltado, pela quantidade de juro que se pagava. Agora, veja, quem tem cartão de crédito é um setor médio da sociedade que precisa aprender que a gente só vai moralizar o cartão de crédito no dia em que a gente for mais exigente conosco mesmo na utilização do cartão de crédito.

Jornalista: Mas os juros são razoáveis?

Presidente: Não, não, não. Não são. Os juros do cartão de crédito são muito altos, muito altos.

Jornalista: Do cheque especial também.

Presidente: O cheque especial também.

Jornalista: Presidente, por que o gerente do Banco do Brasil atende tão mal? Eu fui bancário em duas agências (incompreensível). Atende mal demais (incompreensível).

Presidente: Mas aí, me dê a queixa aí, que eu levo para eles aí, porque…

Jornalista: Além de tudo… Vários bancos: Samambaia, Recanto, em todo o Brasil. (incompreensível) Banco Central.

Presidente: Me dê os nomes dos gerentes aí, por favor, da agência, para a gente poder cuidar.

Jornalista: Samambaia…

Jornalista: O Presidente do Supremo disse ontem que – sobre a questão do MST – que o governo não tem que fazer repasses a entidades que invadem e tudo mais. O que o senhor acha disso?

Presidente: Não acho anda. Eu não acho absolutamente nada. Veja, as pessoas que… as entidades que pedem dinheiro a algum órgão do governo, essas entidades têm que apresentar documentação, têm que apresentar proposta, passam por um crivo, e aí têm direito ou não têm direito.

Jornalista: Isso justifica que esses recursos estão sendo usados para alimentar essa situação?

Presidente: Eu não sei se estão sendo usados para alimentar, porque um ato de barbárie não precisa de dinheiro, precisa apenas de falta de bom-senso.

Jornalista: Presidente, o senhor conversou com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre o juro do próximo ano? Ele teria feito alguma projeção?

Jornalista: Ontem, ele esteve com o senhor lá…

Presidente: Meus queridos, vejam, mas eu nem terminei de comemorar 2009, vocês já querem que eu pense em juros para 2010. Eu, agora, estou pensando apenas o seguinte: até dia 31 de dezembro, a economia brasileira vai muito bem, sabe, já está certo que o Brasil já saiu da crise, que estamos com a economia se consolidando, o crescimento para o próximo ano será um crescimento, eu diria, muito bom…

Jornalista: De quanto?

Presidente: Não vou chutar números. Não vou chutar números porque eu não quero nem acertar, nem errar. Eu quero que isso seja…

Jornalista: Ministro Mantega fala em cinco.

Presidente: Não, tem gente que fala em cinco, tem gente que fala em quatro e meio, gente que fala em cinco e meio. Eu prefiro trabalhar para que seja o máximo possível.

Mas eu só posso garantir que vocês vão ter um bom Natal. O final do ano de vocês vai ser melhor e infinitamente melhor que o ano passado. E vocês, podem se preparar, que vocês vão viver um 2010 muito melhor. Não existe nada que a gente olhe à distância, que possa causar qualquer problema ao crescimento econômico de 2010.

Jornalista: Presidente, o melhor presente para o senhor seria fazer o seu sucessor?

Presidente: Vamos deixar para fazer essa pergunta no ano que vem. Agora? Não, não…

Jornalista: Aí, já acabou a eleição.

Presidente: Veja, o maior presente que um cidadão que completa 64 anos de vida… o maior presente que ele quer é agradecer a Deus por ele ter chegado inteiro aos 64 anos de idade. A família vivendo em harmonia, as coisas estão indo bem. E obviamente que a eleição da continuidade do programa que nós estamos exercendo é, obviamente, um presente que eu vou pedir no meu aniversário de 2010.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Gente, olha, feliz aniversário.

Jornalista: Obrigada, Presidente.


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