Um tribunal no Peru determinou neste sábado (14/11/2009) a prisão de dois militares chilenos acusados de participação em um caso de espionagem que envolve o suborno de um agente da Força Aérea do Peru (FAP) para a obtenção de informações sigilosas. A decisão judicial ocorre em meio a um ambiente diplomático sensível entre Lima e Santiago e produz efeitos imediatos na agenda internacional do governo peruano, inclusive durante a cúpula da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec), realizada em Cingapura.
De acordo com informações divulgadas pelas autoridades peruanas, os militares chilenos são acusados de pagar a um agente da FAP para repassar dados estratégicos ao Chile. O militar peruano Victor Ariza Mendoza foi preso na sexta-feira, formalmente acusado de espionagem.
Um alto funcionário da Força Aérea do Peru declarou que os dados supostamente repassados “não comprometem a segurança nacional”, sem detalhar a natureza exata das informações. Ainda assim, a Justiça considerou haver indícios suficientes para avançar com as medidas cautelares.
Segundo a rádio Programas del Peru, Mendoza teria recebido entre US$ 5 mil e US$ 8 mil por mês pelos serviços de espionagem. Já o jornal El Comercio informou que o militar trabalhou na embaixada peruana no Chile em 2002, dado que passou a integrar o conjunto de elementos analisados no processo.
Repercussão política e impacto na agenda internacional
O presidente do Peru, Alan García, anunciou que anteciparia em um dia sua saída da cúpula da Apec, em Cingapura, para acompanhar de perto os desdobramentos do caso. García também informou o cancelamento de uma conversa bilateral prevista com a então presidente do Chile, Michelle Bachelet, durante o encontro multilateral.
A imprensa peruana noticiou ainda que Lima convocou seu embaixador no Chile para consultas, sinalizando a elevação do nível de atenção diplomática. As decisões reforçam o entendimento de que o episódio extrapolou a esfera judicial e assumiu dimensão política e diplomática.
Resposta cautelosa do governo chileno
Em Cingapura, o ministro das Relações Exteriores do Chile, Mariano Fernández, evitou comentar o caso. Em declaração reproduzida pelo correspondente da BBC Mundo, o chanceler afirmou que o governo chileno não se manifestaria enquanto não houvesse comunicação oficial, classificando o tema como “delicado”.
A posição chilena buscou preservar canais diplomáticos em um momento de alta exposição internacional, evitando respostas que pudessem agravar o impasse antes da consolidação dos fatos.
Desavenças históricas e pano de fundo regional
As relações entre Peru e Chile são marcadas por altos e baixos desde o final do século XIX, quando a Guerra do Pacífico resultou na perda de territórios peruanos para o Chile. Esse histórico segue influenciando a percepção pública e institucional em ambos os países.
As tensões haviam se intensificado semanas antes do caso de espionagem, após o Chile realizar um exercício militar em uma região de fronteira disputada. Paralelamente, persistiam divergências quanto às fronteiras marítimas, questão que levou o Peru a acionar o Tribunal Internacional de Justiça de Haia no ano anterior, buscando uma solução jurídica definitiva.









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