Pombo-correio, leve minha carta

Passei o feriado espichado do Dia do Trabalho em Guarapari. Para homenagear devidamente a data, antecipei a comemoração e orgazinei meus compromissos de modo a prolongar a folga. Afinal de contas feriado cair em sábado é uma grande traição a este belíssimo pecado capital que se chama preguiça. Preguiça, no bom sentido, não é vício, mas sim virtude. Preguiça só é vício para os capitalistas, que se vêem privados da mais valia quando os fornecedores de mão de obra resolvem parar. Para os trabalhadores, preguiça é sempre folguedo.

Existe em Guarapari um criador de pombos-correio. Esse columbófilo – que é o nome que se dá ao criador de pombos – cria as aves no quintal de sua casa. Ele se chama Devanir Barbosa e tem 42 anos. Eu já havia tomado conhecimento da existência dessa pessoa, mas só agora resolvi aprofundar esse conhecimento. Devanir vende os pombos que cria. Entretanto, o que o motiva mesmo é a paixão pelo que faz.

À face de tudo que há de poesia nesse episódio, tive a inspiração de comprar um pombo-correio para mandar uma carta.

Perguntará o leitor, com razão, o motivo pelo qual, já que não estamos na Idade Média, quero mandar uma carta através de pombo-correio. Vou explicar.

Aqui em Guarapari, estou sem acesso à internet. Não mando, nem recebo e-mails. O envio de artigos para A Gazeta, através do escritório do amigo Askar Chamoun, é a única exceção ao jejum tecnológico. Mas não gosto muito de incomodar o Askar pois, na sua delicadeza, ele sacrifica o funcionamento normal do escritório para que eu fique bem tranquilo redigindo meu texto para remetê-lo depois. Quanto à remessa de correspondência por via postal, perdi o hábito das cartas, salvo situações obrigatórias.

Mas então, insistirá o leitor curioso: sendo complicado o envio de mensagem pela internet e não gostando da remessa postal, sua escolha é o pombo-correio? Não é este um caminho tortuoso?

Seria sim um caminho tortuoso se o motivo para optar pelo pombo-correio fosse baseado apenas na praticidade. Mas não é.

Nestes dias de descanso, rebuscando velhos recortes de jornal, li uma entrevista concedida pela psicóloga Carla de Souza Campos à Jornalista Cláudia Feliz. (A Gazeta, edição de 2 de fevereiro de 2009). Devo colocar um parênteses na linha do pensamento para dizer que amo recortes de jornal. Eu os tenho classificados por assunto. Guardo-os em pastas que podem ser conduzidas com facilidade para onde eu vá. Ainda aqui os que são escravos do progresso vão inquirir. Além de pretender substituir internet e correio por pombo-correio, o prezado articulista ainda coleciona recortes? Isso não é aprisionamento a hábitos do passado? Não é muito mais fácil pesquisar na internet recorrendo ao Google, por exemplo?

Talvez seja, talvez não seja. Acompanhem a narrativa e decidam.

Carla de Souza Campos trabalha na Unis (Unidade de Integração Socioeducativa), instituição que abriga adolescentes infratores já sentenciados pela Justiça. A internação na Unis é compulsória, logo é uma prisão.

A psicóloga declara na entrevista que o que mais acontece é a criminalização da pobreza. Disse textualmente: “Faltam políticas públicas para atendimento desses adolescentes na periferia. Sem acesso mais fácil à escola, à profissionalização, o tráfico assume o controle. Porque no tráfico nunca faltam vagas, oportunidades.”

Conta então a psicóloga Carla de Souza Campos que certo dia um dos adolescentes, porte físico de uma criança, pediu-lhe lápis de cor e papel para desenhar.

E daí é que me veio a inspiração de pedir a ajuda de um pombo-correio. Acho que só um pombo-correio tem sensibilidade para conduzir minha mensagem porque ela brota da alma.

Pombo-correio que os poetas amam, pombo-correio que Devanir Barbosa cria com carinho, venha até minha casa e leve uma carta de parabéns à psicóloga Carla de Souza Campos, pelo seu discernimento e coragem de falar a verdade.

Leve também este meu artigo ao jornal A Gazeta e entregue o texto diretamente ao Jornalista Rubens Gomes.

E se o seu bico puder conter peso superior ao de duas cartas, leve também papel para desenhar e lápis de cor e entregue a esse menino que devia estar na escola, e não da Unis.

Assim, pombo-correio, você cumpre sua missão de espargir poesia neste mundo insípido.

*João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha, autor do livro Filosofia do Direito (Editora GZ, Rio de Janeiro). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner do INSV 20260303.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading