O resultado da eleição presidencial no Brasil não deverá afetar a relação comercial do país com a China, que deverá ser mais de cooperação do que de competição, afirmam analistas brasileiros e chineses ouvidos pela BBC Brasil.
De acordo com analistas, os laços comerciais e políticos entre o gigante do Oriente e o Brasil continuarão se fortalecendo, independentemente de quem seja eleito para o Palácio do Planalto.
Para Rodrigo Maciel, consultor da empresa Strategus, baseada em Pequim, “uma ruptura da política atual não acontecerá de forma alguma”.
Já o presidente do Conselho Empresarial Brasil-China, o embaixador e ex-ministro Sérgio Amaral, “o fortalecimento da parceria entre Brasil e China é o caminho natural”.
Interdependência
O intercâmbio comercial entre os dois países praticamente quadruplicou de 2004 a 2009, saltando de US$ 9,15 bilhões para US$ 36,1 bilhões ao ano. Esse avanço elevou o país asiático à posição de principal parceiro comercial do Brasil.
Os investimentos chineses em território brasileiro também estão em alta, com a entrada de pelo menos US$10 bilhões neste ano.
De acordo com o professor brasilianista Jiang Shixue, que leciona na Academia Chinesa de Ciências Sociais (Cass, na sigla em inglês), ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não consiga fazer seu sucessor, o novo governo do Brasil muito dificilmente retrocederá em “todos os avanços conquistados na política externa nos últimos oito anos”.
Livre entrada
A controvérsia quanto ao futuro da relação entre os dois países é gerada pela natureza dos investimentos chineses – que se destina, em grande parte, a garantir o acesso do país a recursos naturais brasileiros.
Acordos como a compra das minas de ferro da Itaminas pela mineradora chinesa ECE, por US$ 1,2 bilhão, inquietam parte do empresariado brasileiro, que se queixa da falta de reciprocidade.
As leis chinesas, afirmam, não permitem que empresas brasileiras fechem acordos significativos para explorar matéria-prima em território chinês.
Os chineses são seletivos com o capital que entra lá. Eles não aceitam todo tipo de investimento. Passada a eleição, seria de se pensar se o mesmo deveria acontecer aqui.
Outros negócios, como a participação de 40% da petrolífera Sinochem no campo de Peregrino, localizado na Bacia de Campos, e o projeto de US$ 300 milhões da Chongqing Grain Group para a plantação de soja de exportação no Nordeste brasileiro, acabam corroborando junto a muitos essa percepção negativa.
Em declarações recentes à imprensa, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Steinbruch, questionou a livre entrada do capital chinês no Brasil.
“A China comprar reservas de minério no Brasil, sendo ela o principal cliente do país, precisa ser considerado de forma diferente. A China é uma força no mundo. A partir do momento que ela tenha o domínio sobre a matéria-prima, sendo a maior consumidora de minério, ela pode tirar os outros do jogo”, disse Steinbruch ao jornal O Estado de S. Paulo.
“Os chineses são seletivos com o capital que entra lá. Eles não aceitam todo tipo de investimento. Passada a eleição, seria de se pensar se o mesmo deveria acontecer aqui”, avaliou Sérgio Amaral.
Briga
Os analistas ouvidos pela BBC, no entanto, concordam que ainda é cedo para se prever se o futuro governo do Brasil alimentaria um confronto entre Brasil e China.
“Duvido que algum futuro presidente venha a comprar essa briga dessa forma. Não dá pra simplesmente para se proibir a entrada de investimento chinês”, apostou o consultor Rodrigo Maciel.
“Teria que se proibir o investimento estrangeiro por setor, mas será que o Brasil tem capital suficiente para tocar sozinho os grandes investimentos que estão em curso na área de mineração?”, questionou.
Segundo o brasilianista Jiang, a relação de comércio e investimento entre o Brasil e a China é na sua essência “igualmente proveitosa para ambos os lados”, o que justifica uma postura conciliatória por parte dos candidatos.
Os candidatos a presidente são “inteligentes o suficiente para entender a importância da China e não fariam nada que pudesse colocar em risco esse volume de comércio e investimento”, diz Maciel.
“O fato é que a Ásia continuará sendo o motor de crescimento da economia mundial”, analisa Zhou. “E isso não poderá ser negado por nenhum dos candidatos.”










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