Política: Atividade Marginal ou Cidadã | Por Moura Pinho

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A interrogação que ora faço, propositadamente estabelecida nesta ordem – primeiro marginal, depois cidadã – angustia-me e impulsiona-me a tentar compartilhar com aqueles que se dispõem a percorrer este texto.

Relembro a efervescência política dos anos pós golpe de 1964, ativismo estudantil, ala jovem do então MDB (Movimento Democrático Brasileiro), fundação do PT, Reconstrução da UNE, Campanhas da Anistia e Diretas Já, todas embaladas no mais puro sonho de transformação da nossa realidade para a de um País mais justo e democrático.

Contabilizamos, assim, resultados que poderiam dar a sensação de que fomos vitoriosos nos objetivos que perseguimos, pois conseguimos pelo MDB o restabelecimento das liberdades democráticas, fundamos um partido de viés operário que chegou ao poder, a UNE está aí, as eleições são diretas, o País, de certa forma distribui renda.

Porém, esta sensação não prevalece à mais elementar confrontação com a realidade política atual. No plano político, o fisiologismo que contaminou o MDB, depois PMDB, levou-nos a buscar novo destino partidário, contaminou da mesma forma o PT, assim como ao PSDB, que pretendia também ser diferente do partido do qual se originara majoritariamente. A UNE virou um retrato desbotado da entidade que simbolizou os sonhos de toda uma geração, e de romântica escola de lideranças patriotas, nacionalistas, passou a mero aparelho de um partido político que gravita hoje em torno das benesses do Governo, cooptada por práticas tão veementemente condenadas pela antes esquerda, ou pela esquerda antes – A ordem dos fatores não altera o produto. As eleições diretas vieram e com elas a tentativa cinicamente mal di sfarçada de continuísmo no instituto da reeleição, num País de leis frouxas, judiciário manipulado a atrelado. Resulta então na maior parte dos governantes em primeiro mandado fazendo em tempo integral, com recursos públicos, a campanha pela reeleição. E haja farra em publicidade, cargos em troca de cooptação de ex-adversários, corrupção de toda ordem.

A nossa Bahia mesmo serve a ilustrar este quadro. Mostram os números que o governo gastou mais em publicidade do que em saúde ou segurança; este mesmo governo, que aliás ajudamos a eleger, foi precedido de lutas de anos denunciando este tipo de prática, como outras do tipo uso político e desregrado das contratações via REDA, criou o PST – prestador de serviço temporário que virou permanente, sem qualquer direito trabalhista .

O alarde da instalação da CPI da Ebal – Cesta do Povo, sinalizava uma faxina nos costumes políticos. O sinal era falso. Ou como diziam os Poetas Rui Guerra e Chico Buarque: “É QUE HÁ DISTÂNCIA ENTRE INTENÇÃO E GESTO”. A conclusão conseguiu resultados tão fantásticos que os mágicos devem babar de curiosidade por saberem como se conseguiu esconder os principais envolvidos no esquema, e como resultado o governo ainda ampliou sua base de apoio com um deputado fornecedor e um conselheiro articulador. Não se omita, por justiça, a participação de gente do pmdb (nesse caso minúsculo mesmo)– no epílogo da ópera bufa.

Penso , então, para não mais alongar essas reminiscências, que tais práticas findam por reforçar a lamentável percepção sedimentada no conjunto da sociedade de que “os políticos são todos iguais”, “farinha do mesmo saco”, “na oposição são uma coisa, no poder outra”; “estão querendo entrar para comer”, e uma infinidade de frases que envergonham aos que efetivamente sonham com a política como atividade cidadã, reservada aos homens e mulheres de bem, ao contrário do que se verifica hoje, onde com a presença cada vez mais acintosa de malandros comprando mandatos de malandros que, no eventual exercício de mandatos igualmente comprados, locupletam-se na venda do que não lhes pertence – O VOTO POPULAR – alimentando um círculo vicios o das velhas oligarquias, afastando a consciência crítica e constituindo uma representação parlamentar viciada na origem, ilegítima, imoral.

Não é novidade para ninguém que milita na política o mercado que se estabeleceu na compra e venda de apoios, onde já se estabeleceu até uma tabela de preços de prefeito, vereador e supostas lideranças. Em Feira de Santana um episódio chegou a ponto de freqüentar as discussões na Câmara Municipal e na imprensa, onde um vereador teria sido cobrado sobre um investimento que um candidato de uma cidade vizinha teria feito em relação a ele e, não honrado – podíamos usar outro termo em lugar de honrado -, fora obrigado a devolver o dinheiro que havia recebido. Da mesma forma, um apoio anunciado a certo candidato por outro vereador, representante de fé do povo, teria sido trocado por outro candidato e providenciada a devolução do sinal recebido e da cobertura da proposta!!!.

Está nas mãos da sociedade, notadamente nos setores mais conscientes das diversas áreas, que sonham e lutam pela prática cidadã, a solução ou ao menos a disposição para a reação, antes que projetos já noticiados de organizações criminosas, não necessariamente organizadas, venham a dominar a representação política.

Encerro com mais uma indagação: e você, o que tem feito diante de tudo isso?

*Moura Pinho é advogado, professor da UEFS e militante do PMDB


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