Na quinta-feira (07/10/2010), o escritor Mario Vargas Llosa foi anunciado como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2010, sendo o primeiro autor sul-americano a receber a honraria desde Gabriel García Márquez, em 1982. Parte significativa da inspiração para o romance “A Guerra do Fim do Mundo” veio do município de Canudos, localizado no sertão da Bahia.
O autor peruano passou meses em Canudos, pesquisando documentos históricos e colhendo depoimentos de moradores locais. A obra retrata os eventos da Guerra de Canudos (1896–1897), destacando a figura de Antônio Conselheiro e a resistência popular frente ao avanço da recém-instaurada República no Brasil. O livro mescla personagens reais e fictícios, resgatando a memória de um dos episódios mais trágicos e simbólicos da história nacional.
Comentário crítico: o épico brasileiro recriado por Vargas Llosa
“A Guerra do Fim do Mundo” é, indiscutivelmente, uma das obras mais ambiciosas e representativas de Mario Vargas Llosa, reconhecida como o seu tour de force literário. O romance marca o encontro entre o olhar estrangeiro e a complexidade do sertão nordestino, reconstruindo com rigor e sensibilidade o drama da Guerra de Canudos, conflito que figura entre os mais sangrentos da história brasileira.
Inspirado pela leitura de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, o autor se lançou em uma profunda investigação, que incluiu pesquisas em arquivos históricos no Rio de Janeiro e em Salvador, além de viagens pelo interior da Bahia e de Sergipe. Essa imersão permitiu-lhe reconstituir não apenas os fatos, mas também os sentimentos e contradições que permeavam os sertanejos e suas crenças.
“Peregrinei por todas as vilas onde, segundo a lenda, o Conselheiro pregou”, relata Vargas Llosa, “e nelas ouvi os moradores discutindo ardorosamente sobre Canudos, como se os canhões ainda trovejassem no reduto rebelde e o Apocalipse pudesse acontecer a qualquer momento naqueles desertos salpicados de árvores sem folhas, cheias de espinhos.”
A figura de Antônio Conselheiro, retratada com profundidade quase mística, é central na narrativa. Apresentado como um líder messiânico, de túnica roxa e olhos que flamejavam com um fogo perpétuo, o Conselheiro de Vargas Llosa é simultaneamente símbolo de fé, loucura e resistência – um homem que conduziu multidões rumo ao sacrifício em nome de uma utopia espiritual.
O livro não apenas reconstrói os eventos com precisão histórica, mas também oferece uma leitura crítica das tensões sociais, religiosas e políticas do Brasil do final do século XIX, abordando temas como o choque entre tradição e modernidade, fanatismo e racionalidade, miséria e poder.
Canudos: território histórico e turístico
Situado a 410 quilômetros de Salvador, o município de Canudos possui cerca de 14 mil habitantes e se tornou, ao longo das décadas, um destino de interesse histórico e cultural. Os principais pontos turísticos incluem:
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Campos de batalha da Guerra de Canudos, preservados como áreas de visitação;
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Roteiro das Milícias Republicanas, com trilhas que percorrem serras, vales e formações da caatinga;
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Parque Estadual de Canudos (PEC), com 18 km² de extensão, destinado à preservação de sítios bélicos e ambientais.
O Parque Estadual de Canudos é uma referência para pesquisadores, historiadores e ecoturistas, contendo pontos de alto valor simbólico como:
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Vale da Degola: onde jagunços eram executados;
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Vale da Morte: área de sepultamento de combatentes;
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Alto do Maio (ou do Mário): local da morte do coronel Antônio Moreira César, comandante da terceira expedição militar republicana;
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Pedra do Conselheiro e Fazenda Velha, entre outros marcos históricos.
Romaria de Canudos e economia solidária
Entre sexta-feira (08/10/2010) e domingo (10/10/2010), ocorreu a 23ª edição da Romaria de Canudos, que reuniu fiéis, pesquisadores e turistas em torno da memória dos mártires da guerra. O evento, com o tema “Canudos, um exemplo de economia solidária”, propôs uma reflexão sobre os valores históricos e sociais da comunidade, associando fé, memória e desenvolvimento regional.
A romaria também atua como instrumento de promoção de iniciativas sustentáveis, como:
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Agricultura irrigada e de sequeiro;
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Pesca e piscicultura;
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Educação voltada à convivência com o semiárido;
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Valorização das manifestações culturais locais.
Turismo impulsionado por reconhecimento literário
O reconhecimento internacional obtido com o Nobel de Vargas Llosa motivou a retomada de projetos voltados ao turismo histórico e cultural na região. De acordo com o secretário de Cultura de Canudos, José Raimundo Teixeira, a premiação contribui para o fortalecimento da imagem do município como destino de interesse mundial:
“Depois do anúncio do prêmio, a tendência é que as pessoas criem um interesse em conhecer o lugar onde aconteceu a guerra contada no livro. Isso valoriza o lugar”, afirmou.
Obras literárias de destaque sobre Canudos
Além de “A Guerra do Fim do Mundo”, de Mario Vargas Llosa, diversas obras literárias e ensaísticas se dedicaram ao estudo da Guerra de Canudos, abordando o episódio sob múltiplas perspectivas — histórica, literária, sociológica e filosófica. Destaca-se, entre elas, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha (1902), considerada obra fundamental da literatura brasileira e marco da análise sociológica e geopolítica do conflito ocorrido entre 1896 e 1897 no sertão baiano.
Além das produções acadêmicas, textos históricos e narrativas populares preservadas por meio da tradição oral também integram o acervo cultural da região, contribuindo para a construção da memória coletiva sobre o episódio.
A seguir, uma seleção comentada de obras essenciais:
Obras clássicas e essenciais
1. Os Sertões – Euclides da Cunha (1902)
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Gênero: Ensaio/reportagem literária
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Relevância: Obra inaugural sobre Canudos e o sertão nordestino. Divide-se em três partes — “A Terra”, “O Homem” e “A Luta” — combinando geografia, antropologia e narrativa bélica.
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Impacto: Estabeleceu a imagem trágica e heroica de Canudos, contrapondo o sertanejo à ordem republicana e urbana.
2. A Guerra do Fim do Mundo – Mario Vargas Llosa (1981)
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Gênero: Romance histórico
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Relevância: Releitura ficcional da Guerra de Canudos, inspirada na obra de Euclides da Cunha.
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Destaque: Amplia a compreensão da tragédia com múltiplas vozes narrativas e uma perspectiva internacional sobre o Brasil do século XIX.
Obras literárias e ensaísticas complementares
3. Canudos – José Calasans (várias edições)
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Gênero: Ensaio histórico
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Relevância: Produção extensa do historiador baiano, marcada por rigor acadêmico e revisão crítica dos mitos perpetuados por Euclides da Cunha.
4. Antonio Conselheiro – O Beato de Canudos – Frederico Pernambucano de Mello (2014)
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Gênero: Biografia histórica
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Relevância: Estudo minucioso e documental sobre a vida de Antônio Conselheiro, com base em fontes primárias e análise crítica das representações tradicionais.
5. Canudos: A Guerra e o Canudo – Leonardo Dantas Silva (2002)
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Gênero: Ensaio histórico
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Relevância: Aborda os desdobramentos políticos e sociais do conflito, com ênfase na repressão do Estado à religiosidade popular e à organização comunitária sertaneja.
Enfoques sociológicos e filosóficos
6. A Revolta dos Beatos – Rui Facó (1958)
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Gênero: Ensaio marxista
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Relevância: Interpreta Canudos como expressão de resistência camponesa frente ao poder oligárquico e militar, sob uma ótica classista e crítica do Estado burguês.
7. Canudos e o Mito da Nação – Maria Isaura Pereira de Queiroz (1957)
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Gênero: Sociologia histórica
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Relevância: Analisa Canudos como movimento messiânico de resistência à modernização excludente, destacando suas raízes culturais e simbólicas.
Fontes primárias e documentos históricos
8. Cartas de Euclides da Cunha (diversas edições)
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Importância: Correspondência pessoal do autor durante e após sua cobertura do conflito, oferecendo perspectivas sobre sua atuação como repórter e intérprete da realidade sertaneja.
9. Relatórios Militares sobre a Guerra de Canudos
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Organização: Publicações organizadas por instituições como o Exército Brasileiro e Arquivos Históricos Nacionais.
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Relevância: Fontes oficiais que documentam a visão do Estado, a estratégia militar e a repressão à comunidade de Canudos.










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