O marketing que explora sentimentos | Por José Carlos García Fajardo

Desde 1985, a Assembléia das Nações Unidas insta aos países mais ricos que destinem 0,7% do seu PIB aos mais pobres. É uma reivindicação justa para reparar a exploração sistemática das riquezas naturais e humanas do denominado Terceiro Mundo pelos países do Norte.

As autoridades médicas de prestígio internacional em investigação contra o câncer, denunciaram campanhas que incentivam o uso do tabaco. Recordaram que o Ministério da Saúde espanhol gasta por ano aproximadamente dois bilhões de euros com doenças atribuídas ao tabagismo: câncer, coronárias e respiratórias, com mais de 50 mil mortes por ano. Diante disso, promove-se atualmente uma campanha contra as empresas de cigarro, como se durante décadas os impostos sobre esse monopólio não tivessem beneficiado ao Estado que promovia seu consumo indiscriminado.
É comum agora que algumas empresas anunciem a doação de 0,7% dos seus lucros a algumas ONGs. Seria correto tratando-se de produtos saudáveis e que não exigissem a compra de algo em troca. Não parece ético se aproveitar de um estado de ânimo que demorou mais de dez anos para chegar à opinião pública para ajudar aos povos do Sul. “O fim não justifica a mídia”. Em breve anunciarão bebidas alcoólicas, drogas e armas em troca de ajudar uma ONG. Não se pode aceitar dinheiro proveniente de produtos nocivos à saúde, à paz ou à convivência entre os povos. Assistimos à manipulação dos sentimentos com a mensagem de que se não compramos este ou aquele produto seremos responsáveis pela desgraça dos pobres e infelicidade das crianças porque nossa ajuda não lhes alcançará.
Não é ético que as associações comunitárias façam parte dessa confusão. Seria mais válido preocupar-se com as condições de trabalho dos que produzem as matérias-prima nos países pobres dominados por tais empresas. É uma cláusula social de cumprimento obrigatório segundo a OIT. Não é justo se aproveitar do esforço de incontáveis pessoas e instituições que dão o melhor de si lutando por uma sociedade mais justa e solidária. Ao ajudar aos mais pobres deve-se questionar sobre as causas da injustiça, analisar a realidade e elaborar alternativas válidas e sustentáveis. As empresas que desejam ajudar aos pobres não poderiam dedicar o que gastam com campanhas publicitárias para melhorar os estudos sobre os efeitos secundários dos seus produtos?
*Por José Carlos García Fajardo.

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