As 95 Teses de Martinho Lutero, redigidas em 1517 pelo monge agostiniano e professor de teologia da Universidade de Wittenberg, na Alemanha, constituem um dos documentos mais influentes da história religiosa e política do Ocidente. O texto, intitulado em latim Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum (“Disputa para esclarecer o poder e a eficácia das indulgências”), apresentou uma série de proposições acadêmicas que questionavam a prática da venda de indulgências pela Igreja Católica. A publicação das teses desencadeou um intenso debate teológico e institucional que resultaria no início da Reforma Protestante, movimento que provocou um profundo cisma religioso e remodelou o cenário político, cultural e religioso da Europa.
Contexto histórico da controvérsia religiosa
No início do século XVI, a Igreja Católica enfrentava um período de tensões internas e transformações estruturais. Entre as práticas mais controversas da época estava o sistema de indulgências, que consistia na remissão das penas temporais impostas pelos pecados.
Historicamente, as indulgências tinham origem em práticas penitenciais da Igreja medieval. Desde o século VII, eram utilizadas como forma de reduzir ou substituir punições espirituais impostas aos fiéis após a confissão. Com o passar do tempo, essas práticas passaram a assumir também uma dimensão econômica, sendo associadas a contribuições financeiras destinadas à Igreja.
No século XVI, o mecanismo ganhou maior escala quando o papa Júlio II instituiu a Indulgência do Jubileu, destinada a financiar a construção da nova Basílica de São Pedro, em Roma. A arrecadação envolveu uma complexa rede de interesses religiosos e financeiros que incluía autoridades eclesiásticas e casas bancárias europeias.
Entre os principais envolvidos estava Alberto de Brandemburgo, arcebispo de Magdeburgo e Mainz. Para obter autorização papal para acumular cargos eclesiásticos, Alberto contraiu empréstimos com a poderosa família de banqueiros Fugger. Parte significativa da arrecadação das indulgências era destinada ao pagamento dessas dívidas, o que ampliou as críticas à prática.
A contestação de Martinho Lutero
Foi nesse contexto que Martinho Lutero (1483–1546), monge agostiniano e professor de teologia, iniciou sua crítica à prática das indulgências. Lutero defendia que o perdão divino não poderia ser obtido por meio de transações financeiras e que a salvação cristã dependia de arrependimento genuíno e transformação espiritual interior.
Nas teses, Lutero argumentou que a mensagem central do cristianismo exigia um arrependimento contínuo e autêntico, não apenas a realização de rituais externos ou a aquisição de certificados de indulgência.
Entre os principais pontos defendidos pelo teólogo estavam:
- O arrependimento verdadeiro deve ser interior e permanente, não apenas formal ou sacramental.
- O papa não possui autoridade para perdoar pecados, podendo apenas declarar o perdão concedido por Deus.
- A venda de indulgências poderia induzir os fiéis a falsas expectativas de salvação.
- Obras de caridade, como ajudar os pobres, deveriam ter prioridade sobre a compra de indulgências.
- O verdadeiro tesouro da Igreja não é financeiro, mas o Evangelho e a graça divina.
Lutero também criticou duramente os pregadores que promoviam indulgências utilizando slogans populares, como a frase atribuída ao dominicano Johann Tetzel, segundo a qual “assim que a moeda soa no cofre, a alma salta do purgatório”.
Difusão das teses e repercussão imediata
De acordo com a tradição protestante, Lutero teria afixado as teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, como convite a um debate acadêmico.
O texto foi originalmente redigido em latim, idioma utilizado nos debates universitários da época. Contudo, a rápida tradução para o alemão e sua disseminação por meio da imprensa recém-difundida permitiram que as ideias de Lutero se espalhassem rapidamente.
Em poucas semanas, as teses circularam por diversas regiões da Alemanha e, em menos de um mês, Lutero tornou-se uma figura amplamente conhecida no cenário intelectual europeu.
A reação da Igreja foi rápida. O arcebispo de Magdeburgo denunciou o conteúdo a Roma, e autoridades eclesiásticas passaram a exigir que Lutero se retratasse. O teólogo, no entanto, manteve suas posições e ampliou seus argumentos em textos posteriores.
Escalada do conflito religioso
O debate inicialmente acadêmico rapidamente se transformou em uma crise institucional de grandes proporções. Diversos teólogos passaram a confrontar Lutero, entre eles Johann Eck, que protagonizou debates teológicos com o reformador.
Em 1518, Lutero foi convocado a prestar esclarecimentos diante do cardeal Tomás de Vio, conhecido como Cajetano, durante a Dieta de Augsburgo. O encontro não resultou em reconciliação e ampliou o impasse entre o teólogo e as autoridades papais.
Nos anos seguintes, a controvérsia intensificou-se com a publicação de diversos panfletos e tratados. Em 1520, o papa Leão X emitiu a bula Exsurge Domine, que condenava várias proposições defendidas por Lutero.
Em resposta, o reformador queimou publicamente o documento papal em Wittenberg, gesto que simbolizou a ruptura definitiva com Roma.
Impacto histórico e religioso da Reforma
O confronto iniciado pelas 95 Teses desencadeou um processo que, em poucos anos, ultrapassou o campo teológico e assumiu dimensão política e social.
Diversos príncipes alemães passaram a apoiar Lutero, tanto por convicções religiosas quanto por interesses políticos relacionados à autonomia frente à autoridade papal e imperial.
O movimento reformista levou à formação de novas tradições cristãs, como o luteranismo, e posteriormente inspirou outras correntes protestantes, incluindo o calvinismo e o anglicanismo.
Além das mudanças religiosas, a Reforma Protestante provocou transformações profundas na cultura europeia, incentivando:
- a tradução da Bíblia para línguas nacionais;
- o fortalecimento da educação religiosa e da alfabetização;
- novas concepções sobre autoridade religiosa e organização eclesiástica.
Esses processos contribuíram para redefinir as relações entre religião, política e sociedade na Europa moderna.
Estrutura e conteúdo das 95 Teses
As teses foram formuladas como proposições acadêmicas destinadas ao debate, prática comum nas universidades medievais e renascentistas.
O texto apresenta argumentos teológicos organizados em forma de afirmações curtas que abordam temas como:
- o significado do arrependimento cristão;
- a autoridade papal;
- a natureza das indulgências;
- o papel da caridade e das obras cristãs.
Em diversas passagens, Lutero sustenta que a confiança excessiva nas indulgências poderia desviar os fiéis da mensagem central do Evangelho, incentivando práticas religiosas superficiais.
Outro ponto central do documento é a defesa de que o verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho da graça de Deus, e não os recursos financeiros associados às indulgências.
A importância histórica das 95 Teses
O episódio de 1517 representa um ponto de inflexão na história do cristianismo ocidental. Embora o texto de Lutero tenha surgido inicialmente como um debate acadêmico sobre uma prática específica da Igreja, sua repercussão revelou tensões acumuladas ao longo de décadas dentro do sistema religioso europeu.
O questionamento da autoridade eclesiástica, combinado com o surgimento da imprensa e com as disputas políticas entre principados alemães e Roma, transformou uma disputa teológica em um movimento de ampla transformação religiosa.
Desdobramentos políticos e institucionais
A Reforma Protestante alterou profundamente o equilíbrio de poder na Europa. A fragmentação religiosa contribuiu para o surgimento de novos Estados confessionais e para conflitos que marcaram a política europeia durante os séculos seguintes, incluindo guerras religiosas e disputas territoriais.
Além disso, o debate sobre indulgências abriu caminho para discussões mais amplas sobre autoridade religiosa, interpretação bíblica e liberdade de consciência, temas que continuariam a influenciar o pensamento político e religioso da modernidade.
As 95 Teses de Martinho Lutero não foram organizadas pelo autor em capítulos temáticos formais. Contudo, quando analisadas sob o ponto de vista histórico-teológico e acadêmico, é possível agrupá-las em grandes categorias conceituais, de acordo com os temas centrais abordados. Essa organização ajuda a compreender a lógica do documento e o alcance das críticas feitas por Lutero ao sistema das indulgências.
A seguir, apresenta-se uma classificação temática amplamente utilizada em estudos históricos e teológicos.
Categorias Temáticas das 95 Teses de Martinho Lutero
1. Natureza do arrependimento cristão
Teses: 1–4
Essas proposições estabelecem o ponto de partida teológico do documento. Lutero afirma que o arrependimento verdadeiro não se limita ao sacramento da penitência administrado pela Igreja, mas constitui uma atitude espiritual permanente do cristão.
Ideias centrais:
- O arrependimento deve marcar toda a vida do fiel.
- Não é apenas um ato externo ligado à confissão sacramental.
- A verdadeira penitência inclui transformação interior e mortificação espiritual.
2. Limites da autoridade do papa no perdão dos pecados
Teses: 5–7
Nesse bloco, Lutero discute o alcance da autoridade papal.
Principais argumentos:
- O papa não pode perdoar pecados diretamente, mas apenas declarar o perdão concedido por Deus.
- O poder papal se restringe às penas impostas pela própria Igreja.
- O perdão verdadeiro depende da relação entre o fiel e Deus.
3. Penitência, purgatório e morte
Teses: 8–19
Lutero discute a aplicação das normas penitenciais e a situação das almas após a morte.
Principais ideias:
- As regras penitenciais da Igreja se aplicam apenas aos vivos.
- Os moribundos já satisfazem suas penas através da própria morte.
- Há incerteza teológica sobre o estado das almas no purgatório.
Esse grupo já introduz uma crítica implícita à ideia de que indulgências possam beneficiar almas após a morte.
4. Crítica direta ao sistema das indulgências
Teses: 20–29
Aqui Lutero questiona diretamente o funcionamento do sistema de indulgências.
Argumentos centrais:
- O perdão concedido pelo papa refere-se apenas às penas impostas pela Igreja, não ao castigo divino.
- As indulgências não libertam almas do purgatório automaticamente.
- A famosa crítica aparece na tese 27:
- a ideia de que uma moeda no cofre libertaria almas do purgatório é uma doutrina humana, não bíblica.
5. Perigos espirituais das indulgências
Teses: 30–40
Lutero passa a enfatizar os efeitos espirituais negativos da prática.
Principais pontos:
- Ninguém pode ter certeza absoluta do próprio arrependimento.
- A indulgência pode criar falsa segurança espiritual.
- O verdadeiro arrependimento valoriza o sofrimento e a penitência, enquanto a indulgência pode incentivar sua rejeição.
6. Indulgências versus obras de caridade
Teses: 41–55
Este bloco compara indulgências com a prática da caridade cristã.
Argumentos principais:
- Ajudar os pobres é superior à compra de indulgências.
- O dinheiro gasto em indulgências deveria ser utilizado para socorrer necessitados.
- A pregação sobre indulgências não deveria superar a pregação do Evangelho.
7. O verdadeiro tesouro da Igreja
Teses: 56–68
Aqui Lutero redefine o conceito de “tesouro da Igreja”.
Ideias centrais:
- O verdadeiro tesouro não é financeiro.
- O tesouro da Igreja é o Evangelho da graça de Deus.
- O sistema de indulgências transforma a fé em instrumento de arrecadação.
8. Responsabilidade dos bispos e teólogos
Teses: 69–80
Lutero discute a responsabilidade das autoridades eclesiásticas.
Principais argumentos:
- Bispos devem vigiar a atuação dos pregadores de indulgências.
- Pregações exageradas sobre indulgências prejudicam a autoridade da Igreja.
- Certas afirmações sobre o poder das indulgências são consideradas blasfemas ou teologicamente perigosas.
9. Questionamentos populares e críticas finais
Teses: 81–95
O último grupo apresenta uma série de perguntas e conclusões críticas.
Principais questionamentos:
- Se o papa pode libertar almas do purgatório, por que não o faz gratuitamente?
- Por que a construção da Basílica de São Pedro depende do dinheiro dos fiéis pobres?
- A fé cristã deve basear-se na cruz e no sofrimento, não em promessas fáceis de salvação.
As últimas teses concluem com uma exortação:
- Os cristãos devem seguir Cristo por meio de provações, e não confiar em falsas seguranças espirituais.
Estrutura Geral das Teses (Visão Sintética)
| Categoria | Teses |
|---|---|
| Natureza do arrependimento | 1–4 |
| Limites da autoridade papal | 5–7 |
| Penitência e purgatório | 8–19 |
| Crítica às indulgências | 20–29 |
| Perigos espirituais das indulgências | 30–40 |
| Indulgências versus caridade | 41–55 |
| Tesouro da Igreja | 56–68 |
| Responsabilidade eclesiástica | 69–80 |
| Questionamentos finais | 81–95 |
Um detalhe curioso, frequentemente negligenciado nas leituras superficiais, é que Lutero inicialmente não pretendia provocar um cisma religioso. O documento foi escrito como uma disputa acadêmica universitária, prática comum nas universidades medievais. O impacto revolucionário ocorreu porque o texto atingiu um sistema religioso, político e financeiro extremamente sensível — e porque surgiu num momento histórico em que a imprensa começava a multiplicar ideias com velocidade inédita. A partir daí, uma discussão teológica local transformou-se em uma das maiores revoluções intelectuais da história europeia.
95 Teses acerca do Poder e Eficácia das Indulgências
Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Ver. Padre Martinho Lutero, o que segues. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem do assunto verbalmente Conoco, poderão fazê-lo por escrito. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!
1. Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: “Arrependei-vos” etc., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.
2. E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.
3. Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de mortificações da carne.
4. Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna.
5. O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.
6. O papa não pode perdoar dívida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.
7. Deus a ninguém perdoa a dívida sem ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário.
8. Canones poenitendiales, que são as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas são impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.
9. Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluindo este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema.
10. Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem os moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório afim de ali serem cumpridas.
11. Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou apenas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo.
12. Outrora canonicae poenae, ou sejam penitência e satisfação por pecados cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidades de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.
13. Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canónico, sendo, portanto, dispensados, com justiça de sua imposição.
14. Piedade ou amor imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor.
15. Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.
17. Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor.
18. Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas razões e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram for a da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.
19. Ainda não parece ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós teremos absoluta certeza disto.
20. Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras “perdão plenário de todas as penas” que todo o tormento é perdoado, mas apenas as penas por ele impostas.
21. Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.
22. Com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.
23. Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos.
24. Assim sendo, a minoria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.
25. Exactamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura de almas tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.
26. O papa faz muito bem em não conceder o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possue ), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.
27. Pregam futilidades humanas quantos alegam que quando a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.
28. Certo é que quando a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro, cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.
29. E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que suceder com Santo Severino e Pascoal.
30. Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muitos menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.
31. Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.
32. Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.
33. Há que acautelar-se muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dádiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.
34. Tanto assim, que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens.
35. Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.
36. Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.
37. Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.
38. Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.
39. É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pezar.
40. O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo; mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso.
41. É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.
42. Deve-se ensinar aos cristãos, não ter pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.
43. Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências.
44. É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências porém, não se torna melhor senão mais segura e livre da pena.
45. Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgências do papa, mas provoca a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.
47. Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada.
48. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa de que de dinheiro.
49. Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em consequências delas, se perde o temor de Deus.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seus, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgência, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro.
52. Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
53. São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.
54. Esperar ser salvo mediante breves de indulgências é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.
55. A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimónia, enquanto o Evangelho, que é essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades.
56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionadas e nem suficientemente conhecidos na Igreja de Cristo.
57. Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a este não distribuem com facilidade, antes os ajuntam.
58. Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.
59. São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.
60. Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo.
61. Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros
64. Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabidamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros.
65. Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.
66. Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores com ao mais sublimes graça decerto assim são considerados porque lhes trazem grandes proventos.
68. Nem por isso semelhante indulgência não deixa de ser a mais íntima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Os bispos e sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência.
70. Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos.
71. Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.
72. Quem se levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.
73. Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.
74. Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.
75. Considerar as indulgências do papa tão poderosa, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (coisa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus, significa ser demente.
76. Bem ao contrário, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular no que diz respeito à culpa que constitui.
77. Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar São Pedro e o papa.
78. Em contrário, dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederem, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho, as virtudes, o dom de curar, etc. , de acordo com o que diz I Coríntios 12.
79. Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfémia.
80. Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento.
81. Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos.
82. Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssimo motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para construção da catedral de São Pedro, livra um sem-número de almas, logo por motivo bastante insignificante?
83. Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou prebendas oferecidos em favor dos mortos, visto ser injusto continuar a rezar pelos já resgatados?
84. Ainda: Que nova piedade de Deus e do papa é esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga?
85. Ainda: Por que os cânones de penitência, que de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgências como se continuassem bem vivos e em vigor?
86. Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é a mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de São Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?
87. Ainda: Que ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste direito à indulgência plenária?
88. Afinal: que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como já o fez cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito.
89. Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes?
90. Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.
91. Se a indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos, nem mesmo teriam surgido.
92. Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há paz.
93. Abençoados seja, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.
94. Admoestem-se os cristãos a que se empenham em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.
95. E assim esperem mais entrar no reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas.












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