Os corpos das vítimas do massacre ocorrido hoje (07/04/2011), na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, começaram a chegar ao Instituto Médico Legal (IML), no centro, no início da tarde. O clima era de desespero entre os parentes das crianças após o reconhecimento dos corpos.
A vendedora ambulante Neusa Candelária da Cruz Ferreira, 63 anos, avó de Karine Chagas de Oliveira, 14 anos, estava inconsolável. A menina era criada por ela como filha e estudava na escola desde pequena. Em tom desesperador, ela disse que “queria a neta de volta, que a menina havia saído de casa e, agora, está dentro de um saco preto”.
Com um sonho de ser da Marinha, Géssica Guedes Pereira, 15 anos, se dedicava aos estudos e fazia curso preparatório para entrar na Força. A adolescente, que estava no 8º ano, teve seu sonho interrompido hoje. A mãe dela, Sueli Guedes, e o pai reconheceram o corpo.
A aluna Mariana Rocha de Souza, 12 anos, foi reconhecida por Nádia Ribeiro, sua madrinha. Já Milena dos Santos Nascimento, 14 anos, foi identificada pelo pai, Waldir do Nascimento. Bianca Rocha Tavares, 13 anos, não resistiu à operação para a retirada de balas no braço, no Instituto de Traumatologia e Ortopedia, no centro, e morreu à tarde.
Os pais de Ana Carolina Pacheco saíram esperançosos e aliviados do IML. A menina não está entre os mortos. Até o início da noite, o enterro dos adolescentes da escola de Realengo não havia sido marcado e ainda há espera para a liberação dos corpos.
Polícia Civil divulga nova lista parcial com nomes de adolescentes mortos no massacre do Realengo
A Polícia Civil divulgou, há pouco, nova lista parcial com os nomes de nove dos 11 adolescentes mortos no massacre de hoje (7) de manhã na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona norte da cidade. São nove meninas e um menino. Dois corpos ainda aguardam identificação no Instituto Médico Legal (IML).
O atirador, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, ex-aluno da escola, matou-se após ser baleado por um policial militar.
Segundo as primeiras informações da perícia técnica, a maioria das vítimas foi atingida com tiros na cabeça e no pescoço.
Os mortos cujos nomes foram divugados são: Karine Chagas de Oliveira, 14 anos; Rafael Pereira da Silva, 14 anos; Milena dos Santos Nascimento, 14 anos; Mariana Rocha de Souza, 12 anos: Larissa dos Santos Atanázio; Bianca Rocha Tavares, 13 anos; Luiza Paula da Silveira, 14 anos; Laryssa Silva Martins, 13 anos; e Géssica Guedes Pereira.
“Dá medo voltar à escola”, diz sobrevivente do massacre em Realengo
Ainda não eram 9h da manhã quando o Hospital Estadual Albert Schweitzer, em Realengo, zona oeste do Rio, começou a receber as primeiras vítimas do massacre ocorrido na
Escola Municipal Tasso da Silveira. Pouco antes, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, entrou na colégio e passou a atirar em crianças que estavam em aula. Munido de dois revólveres e carregadores automáticos com muita munição, ela matou 11 alunos, feriu pelo menos 13 e se suicidou.
Em seguida, parentes e amigos das vítimas se aglomeram na porta do hospital em busca de informações. De acordo com o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, cinco crianças foram transferidas para os hospitais Pedro Ernesto, em Vila Isabel, Geral da PM, no Estácio, Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, e para o Instituto de Traumatologia, no centro do Rio.
“Não esperava experimentar que vi aqui. Ver toda a equipe do Albert Schweitzer chorando nos corredores. É uma situação que a gente não está acostumado. É uma violência tão grande, totalmente desnecessária”, disse o secretário.
Côrtes destacou ainda a solidariedade das pessoas que em momentos como o de hoje procuram ajudar. “A comoção é muito grande e, ao mesmo tempo há solidariedade. Recebemos médicoss do Albert Schweitzer que não estavam de plantão, enfermeiros que apareceram aqui para contribuir, que estão no centro cirúrgico, que estão ajudando e dando suporte para o atendimento as crianças.”
O pedreiro Nilson Rocha, 56 anos contou que passou pelo maior susto da vida. A filha dele foi uma das crianças feriadas no ataque. “Felizmente, a minha filha está bem. Fez exames e o médico vai decidir se ela continuará aqui ou se será transferida para outro hospital. Ela estava na sala de aula e o atirador chegou baleando todo mundo.”
Também na porta do hospital, em busca de notícias de uma colega, Pamela Cristina Muniz, 13 anos, aluna do 7º ano da Escola Tasso da Silveira, contou que os professores levaram os estudantes para o auditório, no último andar do prédio, quando ouviram os tiros. “Subi correndo. Só ouvi os tiros. Lá, eles trancaram a porta com cadeiras e com armários. Foi uma gritaria só. Todo mundo em pânico. Dá medo voltar à escola.”
Sobreviventes vão precisar de tempo e apoio psicológico para superar trauma
As crianças que testemunharam hoje (7) o assassinato de colegas por um ex-aluno em uma escola municipal do Rio de Janeiro vão precisar de tempo e ajuda psicológica para retomar o cotidiano. O período de luto e de readaptação pode variar entre as crianças e depende das condições psicológicas e psiquiátricas e dos parentes de cada uma, segundo especialistas.
O psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Antonio Carvalho de Ávila Jacintho, disse que é preciso respeitar o luto para que as crianças e os adultos que presenciaram a tragédia possam tentar assimilar o ocorrido.
“A escola precisa ficar fechada para que esses jovens possam elaborar o que aconteceu. Sempre que passamos por uma tragédia, principalmente as coletivas, isso desperta uma comoção maior, é necessário um tempo para tentar elaborar e, na medida do possível, entender quais as motivações para o fato”.
Após o trauma é possível que as crianças apresentem sintomas de estresse e depressão, de acordo com o médico, mas nem todas reagirão da mesma forma nem é possível prever o tempo que cada uma levará para a retomar a vida normal.
“As respostas de cada criança são muito particulares. Uma criança que tem funcionamento mental mais próximo da normalidade e estrutura familiar mais presente, terá prognóstico de reação melhor diante dessa situação traumática. Uma criança que tenha fragilidade, fobia, algum tipo de transtorno, pode ter maior dificuldade em elaborar esse processo. Mas para ambas é preciso um tempo para elaborar o que aconteceu”, compara o médico.
“As pessoas reagem de maneiras diferentes. Algumas paralisam, algumas são mais sensíveis. Mas pouco a pouco vão voltar ao que a gente chama de normalidade, de cotidiano normal”, acrescenta a professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade São Paulo (USP), Ivonise Fernandes da Mota.
Além do atendimento psicólogo e psiquiátrico paras as crianças, os adultos envolvidos na tragédia também precisarão de suporte para superar o trauma, segundo Jacintho. “A escola também vai precisar de receber algum tipo de ajuda para que possa enfrentar essa situação retomar a normalidade. Os professores, diretores, pessoas no comando vão ter que ter assistência para poderem elaborar, lidar com essa situação”.
O episódio, na avaliação do especialista da Unicamp, deve estimular o debate da sociedade sobre valores, principalmente entre os jovens. “Vivemos uma cultura onde a violência tem sido bastante valorizada, há identificação com figuras muito violentas. Entre os jovens, ser violento é um símbolo de força, de poder, de virilidade, de potência”.
Para Ivonise Mota, a tragédia, por mais traumática que seja, não pode ser esquecida. “Esquecer pode ser um alívio, mas, nessa situação, é necessário que a memória seja preservada e que a gente possa refletir com bastante seriedade. Estamos sujeitos a muitas violências, de várias ordens. Precisamos parar e refletir sobre o que isso significa em um nível mais amplo, de comunidade, de sociedade”.
Com informação da Agência Brasil.








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