Este que vos escreve teve a honra e o privilégio de se doutorar pela multicentenária Universidade de Salamanca, no ano de 2007, com tese muito bem orientada pelo grande geógrafo espanhol Prof. Dr. Eugenio Garcia Zarza — mestre e amigo salmantino com o qual tenho enorme gratidão.
Já contei essa história aqui nas páginas deste blog, e para encurtar o relato colocarei ao final da narrativa o link do artigo em narro a minha trajetória acadêmica na Espanha.
Antes de conhecer pessoalmente Salamanca, no ano de 2004, o amigo e colega Prof. Dr. Erivaldo Fagundes assim a descrevia: Salamanca é uma cidade espanhola dentro da Universidade de Salamanca — livre tradução do pensamento do erudito historiador baiano. E continuava Erivaldo: as eleições para a reitoria da universidade são mais importantes do que a eleição para prefeito da cidade.
Sim, é fato. A história, a economia, o crescimento urbano de Salamanca está umbilicalmente ligado à sua universidade, ou melhor, às suas universidades, pois existe uma outra prestigiosa instituição acadêmica confessional.
A Universidade de Salamanca (USAL) fez história e é história: os seus oito séculos de existência a coloca entre as três mais antigas universidades europeias; foi de lá que Cristovão Colombo marchou para Palos e descobriu a América.
Por seus bancos escolares passaram grandes personagens como o místico santo São João da Cruz, o pensador Miguel de Unamuno e Hernan Cortez — o guerreiro que queimou os seus navios e em seguida destruiu a civilização asteca.
O humanista e filósofo Miguel de Unamuno foi reitor da Universidade de Salamanca e figura central de um importante evento da Guerra Civil Espanhola, quando protestou contra a força bruta do fascismo espanhol que bradava: “Abaixo a inteligência e viva a morte!”. Unamuno respondeu corajosamente com a profética frase “vencereis, mas não convencereis” e bradou mais alto: “viva a vida!” — sob a ameaça de fuzis e revolveres.
Período medievo
No período medievo e renascentista, se doutorar pela Universidade de Salamanca era um privilégio dos filhos da nobreza e do alto clero. As defesas de tese ocorriam na Catedral Velha. Como eram doutorandos de posses, comemoravam a aprovação por qualificação máxima “Doutor Cum Laude” (Com Louvor) matando bois e oferecendo memoráveis festas.
Se reprovados, os alunos fugiam por uma porta lateral do magnífico templo, o que não os livrava do escárnio público daqueles que ali os aguardavam.
Muita coisa mudou: hoje é possível que não apenas os membros das elites se doutorem por Salamanca, que também filhos do proletariado itapagipano — como este que aqui depõe — também conquistem esta láurea; as festas públicas não mais existem, porém é de bom tom os novos doutores oferecerem um almoço aos membros da Banca Examinadora.
Por ter me doutorado Cum Laude na Universidade de Salamanca, o meu nome foi eternizado na parede da Faculdade de Geografia e História com um Vitor — insígnia que é grafada nas paredes de pedra da vetusta Universidade, e que significa “aplauso”.
Apenas para constar, alguns afirmam apressadamente que Vitor quer dizer Vitória. De fato, doutorar-se em tão importante instituição é uma conquista, mas o termo Vitor deriva do verbo vitoriar, aplaudir.
O justíssimo amigo Vicente Justo, lá das terras salmantinas me escreveu, lembrando: antigamente o Vitor era gravado com “sangre de toro”; e também recordou que, a pouquíssimo metros do meu significativo emblema, se encontra o Vitor do premiado historiador pernambucano George Felix Cabral de Souza, que numa fria tarde salmantina, calorosamente me recepcionou na Estação de Trem daquela monumental cidade — um “museo em la calle”.
O Justo amigo vigilosamente observou: o seu Vitor está situado em um local e altura das paredes da Faculdade onde ninguém pode vandalizá-lo. Recordei do estudo cuidadoso que o Prof. Dr. Eugenio Zarza fez, ao meu lado, de onde sugerir a pintura da ilustre distinção acadêmica.
Leio nos periódicos espanhois que a Universidade de Salamanca aprovou a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, diploma honorífico concedido num passado recente ao também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Os Doutores Honoris Causa igualmente ganham um Vitor nas paredes da Universidade, que a depender do prestígio da personalidade laureada torna-se ponto turístico.
Em visita a terras salmantinas, vocês poderão apreciar os vítores de Juarez Bomfim, George Cabral, FHC e Lula nas paredes da respeitável Universidade de Salamanca.
Ao saber que estarei bem acompanhado dos vítores de FHC e Lula, alguns amigos cravaram uma interrogação na curta frase:
— Estarei bem acompanhado (?)
Deixo a vocês, meus dois ou três leitores, o justo juízo.







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