A tragédia humana começa com o silêncio dos que podem protestar, e termina com a conivência dos que detém o poder de transformar. A primeira palavra determina a intenção textual, e neste sentido apenas a palavra ‘tragédia’ pode expressar a dimensão do que foi relatado por moradores do loteamento Parque Lagoa do Suabé, em Feira de Santana. Uma tragédia motivada pela ganância do lucro fácil, da capacidade de influir nas estruturas de poder, no poder de obliterar a ordem vigente. Tragédia com o maligno, perverso propósito de submeter milhares de pessoas a condições indignas de vida. Tudo em nome do lucro fácil, da acumulação capitalista obtida através do sofrimento de milhares de pessoas.
Na manhã de ontem (03/09/2013), a equipe do Jornal Grande Bahia visitou a comunidade do Parque Lagoa do Subaé, motivada por denúncias dos moradores, que após anos de desassistência resolveram protestar, na forma de denúncias.
O loteamento foi autorizado durante o governo do falecido prefeito Colbert Martins, há cerca de 30 anos, e ao longo do tempo, um terreno com características de brejo (localizado entre as lagoas do Subaé e Salgada) foi sendo vendido a pessoas de baixa renda. O negócio foi realizado por uma das mais ‘tradicionais’ famílias da cidade, ‘Falcão’, através da empresa João Falcão Urbanizadora Ltda.
O loteamento é um acinte a dignidade humana. Esgoto a céu aberto, quadras com alagadiços e vegetação típica de brejo, rede elétrica deficitária, sistema viário totalmente ineficiente e incapaz de receber o fluxo adequado de veículos de transporte de massas, a exemplo de ônibus, além da deficiente rede de água potável. O quadro de desmandos é completado por moradores do próprio loteamento agridem o meio ambiente promovendo o aterro das lagoas.
Ex-vereadores e empresários envolvidos
Mas, o que parecia como um problema social ligado a ações do passado, tomou nova forma recentemente, oportunidade em que dois proeminentes ex-vereadores e empresários de Feira de Santana se uniram para revender novos lotes no Parque Lagoa do Subaé. Reunidos em consórcio, a Moradda Empreendimentos, que é dirigida por Everton Cerqueira; e a João Falcão Urbanizadora, através de Wilson Falcão, retomaram as vendas, entregando à pessoas de baixa renda e em situação de vulnerabilidade socioeconômica, lotes sem água potável, sem redes elétricas, de drenagem e de saneamento. Para completar o dantesco quadro, o que seriam ruas de acesso às casas, se conformam em caminhos de terra batida, com densa mata.
O Jornal Grande Bahia entrevistou Valdilene Bispo dos Santos Oliveira, proprietária de um dos imóveis, localizado a cerca de 100 metros da lagoa. No recibo de compra apresentado pela moradora consta o valor de R$ 7.035,00, pagos em 29 de agosto de 2011, ao consórcio Moradda/Falcão. Referente ao Lote 79, Quadra XXVI, localizado na “Rua” Souza Rodrigues, nº 47. Valdilene relata a situação da localidade em que reside:
“Rede de água não tem. Nós que vamos puxando de lá para cima, ligando os canos. E nem tinha luz, o povo que sai puxando com ‘gatos’. Hoje, a maioria das casas esta tendo porque a Coelba veio aqui, fez o cadastramento das famílias, das pessoas que podiam ter o poste na rua. Aqui, nós não temos energia porque eles disseram que as casas ainda são poucas.”
Empresários são consultados
O Grande Bahia manteve contato com Wilson Falcão e informou a respeito do teor da reportagem. O empresário respondeu, por telefone, que a responsabilidade pela manutenção das ruas é da prefeitura de Feira de Santana. Quanto aos serviços de água, esgoto, e a implantação da rede elétrica, “é de responsabilidades das concessionárias de serviços públicos”, afirma.
Segundo Falcão, ao iniciar as vendas dos novos lotes, foi feito um acordo com a Secretaria do Meio Ambiente (SEMMAM), onde foram deixados cerca de 100 metros no entrono da lagoa para que o município pudesse preservar com o plantio de árvores. O empresário destaca que encaminhou ofício ao secretário Roberto Tourinho para que a SEMMAM tomasse providências com relação a invasão das áreas doadas à prefeitura.
O ex-vereador e empresário Wilson Falcão afirmou, veementemente, que o empreendimento obedece a legislação e que toda a documentação está em ordem.
O Grande Bahia também entrevistou o ex-presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana Everton Cerqueira, sobre a participação do mesmo na comercialização dos lotes. Confira a íntegra da entrevista clicando aqui.
Saiba +
Dentro de alguns dias o Jornal Grande Bahia publica a segunda matéria, com novos depoimentos de moradores. Outros documentos, imagens e fatos serão revelados.
















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