
Manoel Pacífico da Costa, nascido em 07 de março de 1945, em Rio Branco-Acre, casado, pai de três filhos, professor e padre diocesano, é, na atualidade, “padre casado”, isto é, continua padre, porém não autorizado a ministrar os sacramentos eucarísticos da Madre igreja.
O jovem Padre Pacífico começa a cumprir o seu apostolado como pároco da Paróquia Cristo Libertador, no Bairro Estação Experimental. Corria o ano de 1971. Certa manhã, caminhando pelas ruas da Paróquia no intuito de conhecer o seu rebanho e também buscando doações de galinhas para o próximo arraial da Igreja (quermesse), se depara com uma capelinha onde se realizava um ato litúrgico. Imaginou que aquela igrejinha fazia parte da sua paróquia e entrou. A celebração religiosa era feita entre cânticos e orações, com uma mesa de centro, na forma de cruz, onde 13 pessoas sentavam ao redor.
Logo percebeu que talvez se tratasse de um culto de catolicismo popular, coordenado por leigos e à margem da Igreja. Como a função religiosa não acabava, após uma hora e meia de assistência o Padre Pacífico se retirou discretamente — assim acreditava.
No dia seguinte, dando aula para as crianças da comunidade, alguns menores o abordaram:
— Teve na casa de papai ontem, né?
Era uma das filhas de Antônio Geraldo da Silva, presidente, à época, do Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus – Fonte de Luz”. Assim o Padre Pacífico ficou sabendo que aquela era uma casa de Daime. Todavia, ele dizia estar “vacinado contra o Daime”, pois o preconceito contra a bebida e as comunidades ayahuasqueiras era grande na capital do Acre.
O Padre Pacífico inicia o seu ministério justamente no período de grandes mudanças na Igreja, com o Concílio Vaticano II. Entre estas mudanças, a prática fraternal do ecumenismo. Ecumenismo significa o respeito pela religião alheia, o respeito à diversidade religiosa. Portanto, ecumênico é aquele que sabe que a verdade pode ter muitas faces, assim como Deus pode ter muitas formas de se manifestar. A relação de amizade do Padre Pacífico com as comunidades ayahuasqueiras do Acre se inicia e dura até os dias de hoje.
Voltando a junho de 1971. O Padre Pacífico manifesta interesse de conhecer a outra comunidade daimista de Rio Branco, mais antiga e tradicional, liderada pelo Mestre Irineu. O senhor Raimundo Irineu Serra, fundador da Doutrina do Daime, era então uma personalidade religiosa muito conhecida e ao mesmo tempo misteriosa na sociedade rio-branquense.
De um lado, era visto como verdadeiro profeta da floresta, hierofante brasileiro, e amigo de influentes líderes políticos do Território Federal do Acre; do outro lado, feiticeiro negro, que distribuía uma bebida que “enlouquece as pessoas e as transforma em homicidas”, segundo o bispo Giocondo Maria Grotti, ao qual Padre Pacífico estava subordinado.
Alquebrado pela idade, e com a saúde debilitada, o Mestre Irineu Serra vivia retirado, e pouco atendia visitantes. Alguns meses antes ele tinha recebido o hino “Pisei na Terra fria”, que é um cântico de despedida, no qual dizia:
“O meu espírito eu entrego a Deus
E o meu corpo à sepultura”
As mulheres da comunidade o cercavam de cuidados, e viviam apreensivas quanto ao seu possível passamento. Para confortá-las o Mestre Irineu brincava:
— Eu vou morrer nada. Eu só vou desencarnar no dia em que um padre bater à minha porta!
A vastidão da floresta amazônica e a escassez de padres nas matas e nos seringais, tornava a figura de um padre algo raro de se ver. Anos e anos se passavam até um padre aparecer nas comunidades ribeirinhas para as “desobrigas” — realizar batismos em crianças já crescidas, e casamentos em casais já de longa convivência marital. Daí que essa declaração do Mestre Irineu equivalia a dizer que ele demoraria a falecer.Porém, o Mestre Irineu também afirmava: “nenhuma brincadeira minha cai no chão”. Isto é, nada que ele falava era à toa, sem propósito.
O Padre Pacífico se cerca de algumas crianças e pede para elas conduzi-lo até a casa de Mestre Irineu, para uma visita. Essas crianças foram Antônio Geraldo Filho, Sandra Geraldo e Chaguinha, filha de dona Chica Gabriel.
É contado que quando as mulheres da comunidade viram o Padre Pacífico na porta da humilde casinha de madeira do Padrinho Irineu, batendo palmas e exclamando:
— Ô de casa!
Começaram a se lamentar e dizer:
— Valha-me Deus! O Padrinho Irineu vai morrer!…
Disseram logo que o Padrinho Irineu estava adoentado, não recebia visitas. O velho mestre, ouvindo o diálogo deitado na sua rede, do lado de dentro da casa, fala para os demais:
— Manda o Padre entrar!
Muito cortesmente o Velho Juramidã atende o Padre Pacífico, e conversam bastante. Mestre Irineu afirma ter sido amigo do pai do Padre, o Sargento Pacífico, e costumava andar a cavalo na rua onde a família do padre residia (Rua Floriano Peixoto). Na despedida, o velho Mestre lhe diz:
— No próximo hinário do nosso festival mandarei fazer uma homenagem ao senhor, seu Padre.
Logo após esses acontecimentos, na tarde de verão de 6 de Julho de 1971, o Padrinho Irineu entrega a sua matéria a Mãe Terra e o seu espírito ao Divino Pai Criador.
Passam-se alguns poucos dias e o Padre Pacífico é surpreendido em pleno Palácio do Bispo da Prelazia do Acre e Purus com uma visita inesperada:
— Padre, tem um pessoal aí fardado que quer falar com o senhor.
Em plena Ditadura Militar, o padre progressista receia que uma guarnição militar tenha vindo prendê-lo… Entretanto, era uma comitiva enviada pelo presidente do Centro Livre criado pelo saudoso Mestre Irineu, convidando-o para o “festival” logo à noite. Seria cantado o hinário O Cruzeiro pelo festejo do aniversário da Madrinha Peregrina Gomes Serra, esposa do Mestre, deste mundo à eternidade.
O aniversário da jovem Peregrina era festejado até o ano anterior com forró. Antes de sua passagem para o mundo espiritual o Mestre Irineu deixou a instrução de que a partir de então a significativa data entraria para o calendário oficial do Alto Santo, e se cantasse O Cruzeiro com a farda branca.
Na noite de 14 de julho de 1971, hinário festivo de aniversário, foi realizada a homenagem ao ilustre visitante: Padre Manoel Pacífico da Costa, amigo do Daime.
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