Em entrevista conduzida pelo jornalista Carlos Augusto, editor do Jornal Grande Bahia, o prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho, aborda, nesta sexta-feira (03/10/2013), de forma ampla e estruturada, os principais desafios da administração municipal, com destaque para a histórica ausência de planejamento urbano integrado, as ações e limitações da política ambiental, os investimentos em mobilidade e infraestrutura, além de analisar o cenário político estadual, incluindo articulações para as eleições de 2014 e a possibilidade de participação em uma eventual disputa pelo governo da Bahia.
Confira a entrevista
Jornal Grande Bahia – O senhor ocupa esse cargo pela terceira vez, e não há um estudo denso sobre o planejamento urbano e rural do município, ou seja, sobre as formas de ocupação econômica, industrial, comercial e residencial, nem sobre a maneira como o município deve tratar o meio ambiente. Por que, até hoje, a sua administração não contratou uma grande consultoria ou universidade para produzir um estudo que norteasse as ações das suas administrações?
José Ronaldo de Carvalho – Têm duas ações para a gente trabalhar nessa linha. Uma é você ajudar a manter o que você tem, não permitir mais determinadas agressões. Então, eu acho que, dentro desse processo, nós atuamos e, por diversas e diversas vezes, nós temos agido no sentido de preservar estas áreas, inclusive derrubando construções, não permitindo novas construções nas áreas. Mas, infelizmente, tivemos um período em que esse processo não foi feito, e, como oito anos de prefeito que fui, não houve nenhuma invasão, em nenhuma área de terra pública do município de Feira de Santana. Nós retomamos, nesses nove meses, também não houve, e o que se tentou, nós não permitimos.
Na questão do meio ambiente, nós temos em Feira de Santana algumas ações concretas. Nós fizemos o Parque do Geladinho, que foi concluído pelo prefeito anterior, onde a gente preserva uma área bonita dentro da cidade de Feira de Santana. Fizemos o Parque da Cidade, onde a gente preserva outra área muito bonita no nosso município, tanto área verde como de água. Nós lutamos muito na questão do rio Subaé, e trabalhamos muito nessa linha, e na Lagoa Salgada, através da Secretaria de Meio Ambiente, que tem trabalhado diuturnamente, tem fiscalizado, tem cobrado multas e recebido o pagamento dessas multas, dessas últimas que aconteceram e foram divulgadas na cidade inclusive por você. Assuntos foram parar no Ministério Público na área do meio ambiente, que tem feito um esforço hercúleo.
Agora, existem coisas que, ao longo dos anos, se deterioraram totalmente, então ficou uma dificuldade gigantesca na antiga Lagoa do Prato Raso, por exemplo, que já vem ocorrendo desde as décadas de 70, 80 e 90, praticamente inviabilizaram a recuperação dessa lagoa. Lembro-me que, quando assumi em 2001, nós recebemos um documento da EMBASA dizendo que a recuperação daquela lagoa era impossível de ser feita, por tanta coisa que já tinha acontecido naquela região, naquele local.
Outra questão do meio ambiente, e que hoje ainda existe, é a agressão ao rio Jacuípe, na ponte indo para Ipuaçu. A SEMAM pediu um estudo, contratou uma empresa no sentido de fazer estudos sobre a poluição da água para poder agir, então é algo que estamos esperando, este resultado, e, a depender do resultado recebido, a gente vai tomar uma atitude até mais dura. É inadmissível que ainda tenha, naquela região, esgotos sendo jogados sem tratamento. Não há mais necessidade para isso, não é que nunca teve, mas a verdade é que hoje, com as obras de saneamento básico da cidade, ter ainda nessa região alguma coisa que esteja indo para o rio, um rio que a gente sabe que vai para o Paraguaçu, para a barragem Pedra do Cavalo, que abastece a maior população da Bahia — mais de quatro milhões de pessoas são abastecidas por esta barragem — então é extremamente preocupante.
Agora, eu vejo outras lagoas de Feira perfeitamente viáveis ainda no sentido da recuperação, e ainda há possibilidade de fazer isso. Algumas ações estão sendo feitas no sentido de que isso aconteça, alguns projetos estão sendo liberados. Estamos tendo um cuidado gigantesco de não agredir o meio ambiente, e a nossa orientação é que façamos tudo rigorosamente dentro dos princípios técnicos. O secretário Roberto Tourinho (Meio Ambiente) está fazendo isso com muita competência, com muito cuidado, com muito zelo, e acredito que esse trabalho, continuando, e a participação da imprensa dentro desse processo, tornando públicas essas coisas, ajuda muito a preservar o que ainda temos.
JGB – Retomando a questão da necessidade de planejamento, de um estudo: o que falta para que isso seja efetivamente implementado?
José Ronaldo – Nós temos um desejo, desde o governo anterior, de fazer o Plano Diretor da cidade. Naquela época, ainda não se exigia muito a questão do plano e do saneamento; hoje, já tem uma lei que exige que se faça o plano de saneamento. Acontece que quem explora o saneamento em Feira e na Bahia é a EMBASA. Então, nós estamos esperando um procedimento legal, porque nós entendemos que quem tem que fazer esse plano na cidade de Feira de Santana é a EMBASA. Marcamos uma audiência com a EMBASA para tratarmos dessa questão.
A gente entra na questão do meio ambiente também, tem o plano dos resíduos sólidos, que está praticamente elaborado, e todas essas coisas nós estamos estudando. O Plano Diretor da cidade é outra coisa em que nós estamos querendo a participação da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), por ser um instrumento legítimo representativo. Além disso, vamos fazer um amplo debate. A verdade é que a gente convoca e provoca o debate, mas aparece um número pequeno de pessoas. Nós não temos interesse nenhum de fazer o plano fora dos princípios da legalidade, da moralidade, do respeito a todas essas questões, a todos os pleitos e princípios da lei. Então, nós estamos intensificando e buscando essa participação.
Eu espero que, neste governo, a gente possa fazer todos esses planos e entregar à comunidade de Feira de Santana, onde vai se encaixar todo esse processo de meio ambiente, da legalidade, de um estudo mais profundo.
JGB – Não foi um equívoco ocupar praças com quiosques e barracas? Essa prática não acabou estimulando ocupações desordenadas das áreas públicas?
José Ronaldo – Totalmente não. É o inverso. Por exemplo, a Praça de Alimentação não era uma praça, e sim um estacionamento subutilizado, e as pessoas que faziam o comércio nos trailers, estes sim estavam localizados dentro das áreas verdes da Avenida Getúlio Vargas. Então, nós tiramos todos eles ao longo da avenida e colocamos no local que era simplesmente asfalto, não tinha mais nada de área verde. Nós fizemos uma belíssima Praça de Alimentação (Gilson Alves), plantamos árvores que estão lá hoje, frondosas, e fizemos em um local central, inclusive com sanitário para atender à comunidade. A mesma coisa na Praça Gastão Guimarães, que nós não acabamos a praça, inclusive ampliamos o verde da praça, e fizemos dentro da praça, no centro, alguns quiosques.
Com relação à questão de quiosques ou barracas em praças, nós recebemos um projeto do parque do centro da cidade; a empresa nos entregou o projeto executivo, está nas mãos dos técnicos da prefeitura fazendo um estudo profundo desse projeto. Então já adiantou uma boa parte, agora é ver a viabilidade e os recursos sobre uma boa parte do centro da cidade. E arrumar o centro de Feira de Santana sem diálogo é 100% impossível; só vai resolver com diálogo e com coisas viáveis para todos os lados. Se não for assim, não vai, e a gente espera, em breve, fazer uma belíssima praça chamada Bernardino Bahia.
JGB – Com relação à necessidade de uma nova política de resíduos para o município, qual é a sua avaliação?
José Ronaldo – A nossa política, em nível de Brasil, é aplicada em 99,9% das grandes cidades brasileiras, é a mesma que está sendo aplicada em Feira de Santana. Entendo que é uma política de resíduos sólidos que precisa evoluir, crescer e melhorar. Para isso, nós estamos estudando, buscando e detectando onde precisa melhorar os projetos nessa linha. Nós não estamos descuidando, estamos pesquisando muito esse processo. Espero que, neste governo, a gente possa implantar um projeto novo em Feira de Santana.
Agora, o que está sendo feito hoje no município é semelhante ao que está sendo feito em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Curitiba, Porto Alegre, essas regiões, que são regiões que saíram na frente. Nós estamos bem à frente da maioria esmagadora das cidades do Nordeste e do Norte. Agora, com certeza absoluta, nós precisamos evoluir, e posso lhe assegurar que estamos pesquisando muito esse assunto.
JGB – Com relação ao Feira Tênis Clube, ele ocupa uma área muito importante no centro da cidade e foi arrematado por um valor extremamente baixo, R$ 1,6 milhão. É uma área estratégica para o município. Não existe a possibilidade de o município desapropriar e indenizar os adquirentes, mantendo esse patrimônio para a comunidade?
José Ronaldo – O Feira Tênis Clube, inegavelmente, é uma área nobre na cidade de Feira de Santana. O município tem uma lei que nós aprovamos no início do governo, que cria até uma dificuldade para certas construções em Feira de Santana. O Tênis se encaixa dentro desse perfil. O fato de ter sido adquirido por pessoas, em um processo legítimo e honesto, agora posso assegurar que nós estamos fazendo um estudo profundo sobre isso. Não posso lhe adiantar essa questão ainda, porque estamos exatamente no processo de levantamento. Agora, enquanto esse processo durar, certamente que nada vai ser feito no local.
JGB – O senhor recebeu recentemente uma delegação da China, que possui um modelo econômico distinto, de base socialista e com forte controle estatal. Que benefícios essa relação pode trazer para Feira de Santana?
José Ronaldo – A China é o país que mais cresce no mundo. É um dos países que mais investe no exterior, em vários países, de vários continentes do mundo, quer seja no continente americano ou no europeu. Abrir um diálogo com a China é, sem dúvida nenhuma, algo extremamente positivo, já que outros estão tentando há muito tempo e nós conseguimos este diálogo.
Embora seja um país totalmente socialista, é um país hoje de mercado aberto, que tem recebido inúmeros brasileiros que têm ido lá investir e também empresários empenhados em trazer investimentos para o Brasil.
E existem empresas no Brasil trabalhando em vários setores também, lutando para se implantar no país, seja no ramo da mineração, o que não é o caso que nos interessa, ou no ramo automobilístico. Então, nós plantamos uma semente, conseguimos abrir uma porta, fomos muito bem recebidos, eles estiveram na nossa cidade e também foram muito bem recebidos. Senti que houve uma boa abertura de diálogo; agora é tocar o barco para frente para ver o que isso vai dar.
JGB – O senhor pertence ao Democratas. O DEM já comandou o governo do estado e teve posição destacada, mas hoje está afastado do poder estadual e federal. Como o senhor avalia o cenário para 2014?
José Ronaldo – O processo político está se aprofundando. Começa-se a falar muito sobre política. Criaram-se novos partidos e novas oportunidades de mudanças de políticos. A situação, hoje, é bem melhor que em 2010. Vislumbra-se a possibilidade de poder, melhor do que em 2010, isso provoca um debate maior, mais intenso, dentro desse processo eleitoral visando 2014.
O que sempre defendo é que esse diálogo seja forte, cada vez maior, dentro desse contexto político. E que lá para março se definam e se apoiem candidatos com possibilidade eleitoral de vitória. Eu acredito nisso, basta que as pessoas continuem discutindo e debatendo e fazendo um bom diálogo.
JGB – Quais são as chances de o senhor sair candidato ao governo do estado ou compor uma chapa majoritária?
José Ronaldo – Na minha cabeça, essa chance não tem passado; só está passando ficar até o final do governo.
JGB – Quais as chances da oposição construir uma candidatura única?
José Ronaldo – Eu acho que são amplas. Falam-se em alguns nomes, e todos são abertos e bons de diálogo. O que sinto hoje é que a gente tem dialogado e as pessoas têm se mostrado muito abertas.
JGB – Não houve possibilidade de o governo federal investir diretamente na mobilidade urbana de Feira de Santana?
José Ronaldo – Em nível de Brasil, todas as pesquisas que eu fiz indicam que a mobilidade tem sido tratada por meio de financiamentos, que é o nosso caso. Como é um financiamento com boa capacidade de parcelamento e gestão, entendo que o município consegue viabilizar.
É muito melhor ter a certeza do financiamento para resolver os problemas do que depender de um recurso do governo federal que pode não se concretizar, como ocorre com frequência.
JGB – Qual será a grande marca da sua terceira gestão?
José Ronaldo – Essas coisas são muito prematuras para a gente definir. Na cabeça há algumas ideias, nos planejamentos há várias ações, e na prática há muita coisa sendo executada.
Eu sempre disse que a administração nem sempre é fazer algo grandioso, mas sim aquilo que satisfaz o cidadão onde ele mora. Se ele mora numa rua sem pavimentação, ele quer pavimentação. Se eu fizer outra coisa, ele não ficará satisfeito.
Temos projetos como o BRT, que vai mudar o sistema de transporte e o trânsito da cidade. Há obras importantes nesse contexto. Também apoiamos projetos como o aeroporto, o Centro de Convenções e a abertura de novas avenidas para expansão urbana. Existem projetos prestes a serem licitados que permitirão novas ações. Eu acredito na força desses projetos.











Deixe um comentário