Felizmente, em tempos mais recentes, novos relacionamentos amorosos têm surgido, nos quais se busca a verdade do outro, saindo do coincidente para dirigir-se ao diferente. É um amor que é re-feito continuamente e que reconhece a diferença da mulher.
A violência contra as mulheres é uma violência sexista, apoiada na crença de uma inferioridade e fraqueza feminina e da superioridade e força masculina resultado em desigualdade de poderes entre os gêneros. Considerando que o sexo se define por características físicas e o feminino corresponde aos atributos e comportamentos considerados “adequados” para os sexos, essa violência se estende também para homossexuais e transexuais que incorporam o feminino e/ou se transfiguram em mulheres.
Essa violência tem sido denunciada e combatida por movimentos feministas e por politicas publicas como a Lei Maria da Penha – que criminaliza a violência doméstica, e a Lei do Feminicídio, que pune mais rigorosamente os assassinatos de mulheres motivados pela condição de ser mulher. Assim, tem crescido a consciência social do que é essa violência praticada contra as mulheres, mas ainda é difícil seu reconhecimento e identificação por envolver aspectos culturais e subjetivos. Percebemos que no inicio do século passado eram os ditos crimes de honra (praticados contra traições), depois vieram os crimes passionais (decorrentes de separações e ciúmes) e atualmente há o entendimento de que esta violência tem múltiplas formas, indo desde a psicológica, patrimonial, física, sexual, institucional, até a sua forma mais brutal que é o feminicídio.
Nos últimos trinta anos nós conquistamos direitos sociais e políticos, superamos situações de discriminação e desigualdade, somos reconhecidas como sujeitos da história humana com capacidade de liberdade e autonomia. Ainda assim muitos homens, e até mulheres, continuam a agredir e matar as suas amadas, ou odiadas, mulheres de todas as idades, de todas as raças, de todas as classes. O amor tem sido evocado para justificar muitas das violências praticadas contra as mulheres, por parceiros que tentam se apossar de seu desejo e de seu corpo “como se fosse a sua casa”. Em nome do amor, da moral e de Deus tem se violentado e matado mulheres. Assim, que venham novas formas de amor sem ter por base a posse e o controle da mulher.
Felizmente, em tempos mais recentes, novos relacionamentos amorosos têm surgido, nos quais se busca a verdade do outro, saindo do coincidente (duas bandas de uma laranja) para dirigir-se ao diferente (duas pessoas que se fortalecem mutuamente). É um amor que é re-feito continuamente e que reconhece a diferença da mulher. Não porque ela completa uma falta, mas porque revela o diverso, e, a diferença de um amplia a vida do outro, com outras experiências.
“Ah! Bruta flor do querer… o quereres e o estares sempre a fim, do que em mim é de mim tão desigual, faz-me querer-te bem querer-te mal…” Caetano Veloso.
Maria Dolores de Brito Mota, baiana de Castro Alves, é doutora em Sociologia, Professora Associada da Universidade Federal do Ceará/Instituto de Cultura e Arte. Tem realizado Estudos e pesquisa de Sociologia da Relações de Gênero e outras áreas. Publicou os livros “ Feminino, Feminicídio”, “Mulheres, Violências e Feminicídio”, “Linhas da Moda” entre outros.








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