
O ser humano comum, sem poder ou autoridade – entre os quais me incluo – costuma exprimir sua revolta contra a impunidade utilizando termos que expressam, quase sempre, uma profunda decepção. Às vezes, essas manifestações se fazem acompanhar de alguma incontinência verbal, mesmo que sem qualquer intenção.
Assim, faz-se necessário uma explicação quando elas, notadamente em relação ao Judiciário, podem ser entendidas fora do contexto no qual se inserem as normas do trato social. Estas exigem, em qualquer situação, o cumprimento de regras que expressem a educação, a virtude e a prudência dos que vivem em sociedade, ainda que não saibam aplicá-las corretamente.
E quando essas manifestações estão relacionadas à atuação do nosso Poder Judiciário, maior preocupação deve-se ter para evitar generalizações, pois, mesmo que não se tenha nenhuma intenção de macular a imagem de ninguém, pode-se ferir, justamente, o que de melhor tem esse Poder, ou seja, os seus magistrados.
A revolta manifestada contra a impunidade deve ser entendida levando-se em conta a crença popular de que a lei é mais importante do que a justiça, pois ela é uma muralha entre a ordem e o caos. Suspenda-se a lei, como ocorre no julgamento dos poderosos, e far-se-á com que se instaure o império da impunidade.
E mesmo quando se dobra a lei a favor daqueles que o merecem, ou a modifique, ainda que por compaixão, cria-se um precedente para novos e maiores crimes. A lei não é algo fixo, imutável, que não comporta argumento ou interpretação. Tal qual o direito, agrega tradições e ordenações; umas boas, outras más, mas todas dedicadas, se não de fato, ao menos em princípio, à segurança da sociedade.
O povo não entende que a lei é um instrumento, não um fim. Isso fica para os profissionais do direito. Ela não é, isoladamente, imperfeita. Há apenas imperícias naqueles que a ministram: Polícia ou Poder Judiciário. Se qualquer deles falhar no cumprimento do dever, ou se seus quadros se perverterem, os maus prevalecerão e os inocentes ficarão indefesos.
A impunidade dos poderosos gera um sentimento de frustração na alma do homem simples, que não deseja que se julgue contra a lei, mas apenas que ela seja aplicada de forma correta e igual para todos. É dever do Judiciário aplicá-la de forma linear, procurando fazer com que a maior justiça seja feita dentro de sua imperfeita estrutura.
A pergunta que se faz é o que nossos magistrados podem fazer para harmonizar a fria irracionalidade da lei com a verdade e a justiça que o instinto humano aponta como infalível certeza. Que podereis fazer, ilustres juízes, dedicados como sois à verdade e à justiça, sabendo que estas se encontram além de vossos anseios mais nobres?
Diante de tantos questionamentos e de tanta proteção aos criminosos de colarinho branco, o povo não aceita que os magistrados se transformem em servos da corrupção, ao ponto de não se envergonharem da própria servidão.
Assim, em homenagem aos juízes brasileiros, cuja maioria é composta pelo que de melhor tem o país, registre-se o apreço e a mais profunda admiração que a imprensa lhes dedica, pedindo compreensão para qualquer verve dita ou escrita fora da curva.
Mesmo assim, permita-se dizer, ainda que de forma hilária, que os profissionais da imprensa – depositários de um poder capaz de influenciar a opinião pública-, têm uma incrível disposição para dele abusar. Que os magistrados de todo o país nos perdoem, mas, como dizia Paul Valéry, o poder sem abuso perde o encanto.
*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.








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