A política brasileira sempre conviveu com uma peculiar tendência à criação de personagens mitológicos. Em diversos momentos da história nacional, líderes políticos foram apresentados à sociedade como figuras providenciais, dotadas de qualidades extraordinárias e capazes de resolver, quase de forma milagrosa, os problemas estruturais do país.
Essa tradição não é nova. Ela acompanha a formação do Estado brasileiro desde o período republicano e revela uma característica recorrente da cultura política nacional: a construção simbólica de líderes como salvadores da pátria.
No entanto, a história ensina que tais mitologias políticas raramente resistem ao escrutínio do tempo. Narrativas cuidadosamente elaboradas pela propaganda eleitoral acabam confrontadas pela realidade concreta da administração pública, pelas contradições da trajetória política e pela memória histórica da sociedade.
A tentativa recente de apresentar o prefeito de Salvador, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (ACM Neto), como uma espécie de “super-homem” da política baiana oferece um exemplo ilustrativo desse fenômeno.
A imagem, difundida em material de campanha eleitoral, não é apenas uma estratégia publicitária. Ela revela um projeto de construção simbólica do poder que busca associar a figura do líder político a atributos heroicos: invencibilidade, capacidade excepcional de gestão e suposta superioridade em relação aos adversários.
Mas a política real raramente se encaixa nas narrativas da ficção.
A herança histórica do magalhismo
Para compreender o significado político dessa construção simbólica, é necessário observar o contexto histórico em que ela se insere.
Durante o regime instaurado após o golpe civil-militar de 1964, Antônio Carlos Magalhães consolidou uma posição central no sistema político brasileiro. O antigo líder baiano foi governador da Bahia, senador e ministro das Comunicações, além de exercer forte influência sobre diferentes governos federais.
Um registro histórico frequentemente citado ilustra essa proximidade com o regime militar. Em dedicatória pessoal, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do ciclo político iniciado em 1964, referiu-se a Antônio Carlos Magalhães como “Deputado da Revolução de 1964”.
O episódio simboliza a relação entre parte da elite política brasileira e o sistema institucional que governou o país durante duas décadas.
Essa herança política constitui elemento fundamental para compreender o lugar ocupado por ACM Neto na política baiana contemporânea.
Um estilo político marcado pelo confronto
A trajetória parlamentar de ACM Neto também revela traços de um estilo político marcado pela confrontação direta.
Um episódio emblemático ocorreu em novembro de 2005, quando, exercendo mandato de deputado federal, o parlamentar afirmou publicamente que daria uma surra no então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A declaração ocorreu em meio a acusações de que o governo federal estaria promovendo escutas telefônicas ilegais contra parlamentares da oposição.
O episódio ganhou repercussão nacional e consolidou a imagem de um político de retórica agressiva e combativa, característica que frequentemente marca a cultura política de grupos que operam dentro de estruturas tradicionais de poder.
Na Bahia, episódios relacionados a interceptações telefônicas ilegais envolvendo integrantes do grupo político ligado ao magalhismo também alimentaram o debate público ao longo dos anos 2000.
Continuidade política e transformações partidárias
Outro elemento importante dessa trajetória é a evolução das estruturas partidárias.
ACM Neto foi filiado ao Democratas (DEM), partido que sucedeu o antigo PFL (Partido da Frente Liberal). A genealogia política dessa estrutura partidária remonta ainda ao PDS e à Arena, legenda que apoiou o regime instaurado após 1964.
Evidentemente, as instituições políticas evoluem ao longo do tempo e os contextos históricos se transformam. Ainda assim, essa continuidade institucional ajuda a explicar como determinados grupos políticos conseguiram preservar influência relevante na política brasileira durante diferentes períodos históricos.
O contexto político do impeachment de 2016
O ano de 2016 representou um dos momentos mais turbulentos da política brasileira desde a redemocratização.
A aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff reorganizou o sistema político nacional, alterando alianças e reposicionando lideranças regionais.
Nesse cenário, diversos atores políticos buscaram ampliar sua influência nas estruturas de poder. Em Salvador, a administração municipal liderada por ACM Neto também se inseriu nesse contexto de reorganização política.
O debate sobre mobilidade urbana em Salvador
Em 16 de setembro de 2016, ao lado do então ministro Geddel Vieira Lima, ACM Neto anunciou a obtenção de financiamento de R$ 408 milhões para implantação de um sistema de Bus Rapid Transit (BRT) na capital baiana.
O projeto foi apresentado como solução para os problemas históricos de mobilidade urbana em Salvador.
Entretanto, especialistas em planejamento urbano frequentemente observam que sistemas baseados em trilhos — como metrôs e VLTs — podem oferecer maior capacidade e eficiência em cidades com elevado volume populacional.
A escolha do modelo de transporte coletivo tornou-se, portanto, objeto de debate técnico e político.
Outro aspecto que despertou questionamentos foi a decisão de realizar licitação internacional para execução do projeto. Críticos argumentaram que o Brasil possui tradição consolidada em engenharia de transportes urbanos, o que levantou dúvidas sobre a necessidade de recorrer a empresas estrangeiras.
Recursos públicos e capital político
Grandes obras públicas possuem impacto direto na dinâmica política.
Projetos de infraestrutura urbana costumam gerar visibilidade administrativa e frequentemente se transformam em instrumentos de fortalecimento político para governos locais.
No caso de Salvador, os investimentos em mobilidade urbana também contribuíram para consolidar a imagem administrativa da gestão municipal.
Entretanto, a história recente da cidade inclui investigações envolvendo suspeitas de irregularidades em contratos relacionados a obras públicas, particularmente no caso do metrô de Salvador. O Ministério Público Federal chegou a apontar indícios de corrupção envolvendo empresas e agentes públicos ligados à execução de projetos de infraestrutura.
Esses episódios reforçaram a importância do debate sobre transparência e controle institucional na gestão de grandes investimentos públicos.
Representação política e a questão racial
Outro episódio relevante da política municipal envolveu a escolha da professora Célia Sacramento como vice-prefeita na eleição de 2012.
A presença de uma mulher negra na chapa foi interpretada por analistas como tentativa de aproximação com setores do movimento negro e com o eleitorado afrodescendente de Salvador.
Posteriormente, a substituição de Célia Sacramento por Bruno Reis na composição da chapa eleitoral gerou debates dentro de diversos segmentos políticos e sociais.
O episódio evidenciou tensões entre representação simbólica, estratégias eleitorais e disputas internas de poder.
O Judiciário e as disputas eleitorais
Durante a campanha eleitoral de 2016, outra controvérsia surgiu a partir de decisão do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA).
A Corte determinou que adversários políticos não poderiam utilizar a expressão “golpista” para se referir a ACM Neto no horário eleitoral gratuito.
A decisão gerou intenso debate sobre os limites da crítica política durante campanhas eleitorais.
Críticos argumentaram que a medida representaria restrição ao debate democrático. Defensores da decisão sustentaram que o objetivo era evitar ataques considerados ofensivos ou difamatórios.
O episódio ilustra um dilema recorrente das democracias contemporâneas: equilibrar liberdade de expressão e proteção jurídica durante disputas eleitorais.
O “super-herói” da propaganda política
A imagem de ACM Neto vestido como Super-Homem sintetiza o ponto central deste debate.
A propaganda política moderna frequentemente recorre a arquétipos narrativos para criar identificação emocional com o eleitorado. O herói, figura clássica da mitologia e da literatura, transforma-se em metáfora política poderosa.
Entretanto, a administração pública não se move por personagens de ficção.
Governar uma metrópole complexa como Salvador exige capacidade administrativa, planejamento institucional e diálogo com diferentes setores da sociedade.
A metáfora do “super-herói” revela mais sobre as estratégias da comunicação política contemporânea do que sobre a realidade concreta da gestão pública.
Conclusão
A história política demonstra que mitos políticos podem ser eficazes no curto prazo, mas raramente sobrevivem ao exame histórico prolongado.
A construção simbólica em torno da figura de ACM Neto insere-se nessa tradição brasileira de transformar líderes políticos em personagens quase míticos.
Contudo, a política real é sempre mais complexa do que a propaganda.
Ela envolve heranças históricas, disputas institucionais, interesses econômicos e escolhas coletivas que se desenrolam ao longo do tempo.
No final, como ensinavam os antigos romanos, é o tempo — e não a propaganda — que julga os personagens da história.







