Ex-presidente Dilma Rousseff à imprensa internacional: apoio da mídia brasileira ao golpe foi total e as ditaduras começas assim

Em coletiva a correspondentes internacionais, presidenta reafirma que vai ao STF para anular o impeachment e promete oposição firme ao governo Temer.
Em coletiva a correspondentes internacionais, presidenta reafirma que vai ao STF para anular o impeachment e promete oposição firme ao governo Temer.
Em coletiva a correspondentes internacionais, presidenta reafirma que vai ao STF para anular o impeachment e promete oposição firme ao governo Temer.
Em coletiva a correspondentes internacionais, presidenta reafirma que vai ao STF para anular o impeachment e promete oposição firme ao governo Temer.

A presidenta Dilma Rousseff concedeu entrevista coletiva a correspondentes internacionais na tarde desta sexta-feira (02/09/2016), em Brasília. Dilma apresentou-se de forma dura e direta em suas críticas aos grupos de poder que patrocinaram ogolpe parlamentar que se confirmou no plenário do Senado, há dois dias. A presidenta ressaltou que a crise política inflamada artificialmente pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha ( PMDB-RJ), teve graves consequências para a economia e foi fundamental para criar o clima de seu impedimento, e também não poupou a mídia brasileira, que demonstrou durante todo o período de seu julgamento político um”viés favorável ao golpe amplo, total e inequívoco”.

“Se o meu afastamento servir para algo, deve servir para que nós façamos a partir de agora uma análise muito séria sobre as consequências de termos apenas quatro grupos de mídia controlando toda a comunicação do Brasil. E fazer uma reflexão muito séria sobre as versões e sobre a indução a certos tipos de posições”, pontuou. “Há uso de alguns grupos econômicos de sua versão como sendo a verdade. Desde que fui afastada fui expelida de alguns meios de comunicação. E quem permitiu que o Brasil tomasse conhecimento do que se passava aqui, principalmente por meio das redes sociais, foi a repercussão da imprensa internacional”, afirmou Dilma.

Além da mídia, Dilma criticou ainda a articulação conservadora na Câmara dos Deputados para desestabilizar o seu governo, um movimento que culminou no golpe. “Um dos componentes do nível de crise que o Brasil atingiu é a crise política. Ao longo de 2015, tivemos a seguinte situação: todos os projetos que enviamos à Câmara, ou foram negados, ou aceitos apenas parcialmente. Além de não aprovar o que mandávamos, eles ampliavam os gastos. Chegou ao ponto de ter R$ 130 milhões em estoque de “pautas bomba” no Congresso. Em 2016, foi pior. A Câmara parou. De fevereiro de 2016, até cinco dias antes de eu sair, nenhuma comissão essencial para o trâmite de qualquer projeto trabalhou”, ponderou a presidenta.

Se o meu afastamento servir para algo, deve servir para que nós façamos a partir de agora uma análise muito séria sobre as consequências de termos apenas quatro grupos de mídia controlando toda a comunicação do Brasil”

“Ou seja, você deteriora a situação econômica para que isso sirva de caldo para a expansão do discurso do impeachment”, concluiu Dilma. A presidenta reafirmou, diversas vezes, o caráter central de Cunha no processo da derrubada do governo petista, e negou que o fatiamento da votação do Senado, dividida entre a cassação de seu mandato e a perda de direitos políticos, faça parte de um acordo com o peemedebista. “De nossa parte, jamais, muito pelo contrário. Eu acho isso muito estranho. Eu acho estranho essa dupla votação. Vota uma vez, depois vota a mesma coisa de um jeito diferente. Lá em Minas a gente fica desconfiado com essas coisas”, brincou.

“Mas isso é, isso sim, uma tentativa de já jogar uma ideia na mídia e no meio político. Já que absolvemos disto a presidenta, teremos de absolver o Cunha. Ah, não! Não mesmo! Essa, não!”, criticou Dilma. Ela disse não acreditar que a manobra possa ser concluída, uma vez que regras diferentes regem a cassação de integrantes do poder Legislativo e do poder Executivo.

A presidenta lamentou ainda que Temer se sirva da condição de vice na chapa vencedora das eleições de 2014 para mudar radicalmente o projeto de país sendo desenvolvido. “O maior contrato que existe neste país é entre o governo e seu povo. E esse contrato foi rasgado. Se ele se dá o direito de utilizar a condição de vice para assumir a Presidência, ele tem que também usar a condição de vice para cumprir o programa que nos deu este mandato nas urnas. Caso contrário, a ilegitimidade é total. Caso contrário, o Estado Democrático de Direito estará em falta de democracia e de direito, de legalidade. É gravíssimo que um programa que não é o programa eleito pelas urnas seja o programa executado nos próximos anos”, criticou.

Se ele se dá o direito de utilizar a condição de vice para assumir a Presidência, ele tem que também usar a condição de vice para cumprir o programa que nos deu este mandato nas urnas. Caso contrário, a ilegitimidade é total.

Em relação à falta de legitimidade do governo usurpador, Dilma disse se preocupar com os excessos de repressão contra os atos em favor da restauração da normalidade democrática, respeitando o resultado das eleições de 2014 e a inocência da presidenta em relação às acusações que cassaram seu mandato. “Esse golpe parlamentar, em relação à árvore da democracia, ele age como um parasita, um fungo, que a corrói lentamente. Não é possível esse tipo de repressão no Brasil amanifestações absolutamente pacíficas, que não se possa falar: ‘fora, Temer!’. Quando você tem medo das palavras, é que começa um processo autoritário”, ponderou.

Não é possível esse tipo de repressão no Brasil a manifestações absolutamente pacíficas, que não se possa falar: ‘fora, Temer!’. Quando você tem medo das palavras, é que começa um processo autoritário”

“Isso eu sei perfeitamente como é que começa. A segunda fase é começarem a colocar a culpa no manifestante. Dizer que a violência partiu deles. Nós não podemos compactuar com isso. A força do Estado é muito maior que a força das pessoas, o terrorismo de Estado é gravíssimo. O Estado não pode fazer isso porque vivemos em uma democracia. E eu lutarei para que isso nunca mais aconteça no nosso país”, afirmou, relembrando seu período de resistência à ditadura militar.


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