O prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho (DEM), foi reeleito no primeiro turno das eleições municipais realizadas no domingo (03/10/2016). José Ronaldo obteve 212.408 votos, equivalente a 71,12% dos votos válidos. Esta é a quarta vitória para cargo majoritário municipal e a quinta se contabilizado o apoio que concedeu, nas eleições de 2008, ao ex-prefeito Tarcízio Pimenta.
A vitória de Ronaldo estabelece alguns marcos. Ele é o primeiro prefeito da história de Feira de Santana a ser reeleito quatro vezes. É também o político que recebeu o maior número de votos totais no município. O grupo liderado por Ronaldo mantém uma linha de sucessivas gestões que remete a 16 anos de poder.
Dessa conjuntura política emergem alguns questionamentos a serem tratados neste editorial, com a finalidade de entender os significados da vitória de José Ronaldo e as mensagens que podem ser extraídas.
O editorial objetiva levantar e responder os seguintes questionamentos: como a conjuntura nacional explica a vitória de Ronaldo? Como e por que o eleitor feirense reluta em mudar o controle do Poder Executivo Municipal? Por que as oposições não conseguem se qualificar como opção de poder?
A questão nacional
A primeira questão que emerge para explicar a significativa vitória de José Ronaldo em Feira de Santana é observada a partir da conjuntura nacional. A deposição da presidente Dilma Rousseff (PT) através do impeachment de 2016, em conjunto com a escalada de denúncias envolvendo expoentes do petismo nacional, somada à crise econômica que afeta o país, são fatores que permitiram o avanço das forças conservadoras e o recuo das forças progressistas no pleito eleitoral de 2016. Nesse aspecto, a conjuntura política e econômica nacional contribuiu para a vitória de Ronaldo.
No momento de grave crise nacional, a gestão de José Ronaldo atravessou, com relativa tranquilidade, os campos político e econômico. No campo político, o prefeito e a gestão municipal enfrentaram poucos questionamentos éticos. O governo Ronaldo contou com uma significativa base parlamentar na Câmara Municipal e com uma oposição insignificante. No campo econômico, a administração municipal tem mantido o pagamento regular das contas e apresenta certa capacidade de investimento na infraestrutura urbana.
População ambivalente
Não se pode qualificar o feirense como um conservador convicto. Ao observar as últimas eleições nacionais e estaduais, verifica-se que o eleitor feirense fez opções progressistas para cargos majoritários. Na eleição de 2014, a maioria do eleitorado votou em Dilma Rousseff para presidente e Rui Costa para governador, ambos do PT. Na questão local, o eleitor apresenta perfil mais conservador, reelegendo seguidamente o prefeito José Ronaldo.
Como explicar essa ambivalência eleitoral? Observa-se que a opção política do eleitor feirense não é única no cenário nacional. Em várias cidades do país, tem ocorrido o mesmo. Salvador, capital do estado, é um exemplo. No caso de Feira de Santana, os vínculos pessoais, estabelecidos ao longo de 31 anos de mandatos eletivos exercidos por José Ronaldo, com membros da comunidade, e, em especial, o convívio diário com a população feirense, transformaram o prefeito em uma personalidade política que repete as fórmulas dos ex-prefeitos João Durval, José Falcão e Colbert Martins.
A exemplo dos ex-prefeitos de Feira de Santana, Ronaldo buscou conhecer cada um dos membros da comunidade, participando do cotidiano da cidade e da vida dos cidadãos. Um exemplo desse envolvimento foi o uso das caminhadas nos bairros e distritos durante o processo eleitoral de 2016. Usando cronograma e itinerário previamente estabelecidos, Ronaldo pôde, durante a eleição, retornar aos lugares onde esteve enquanto gestor, autorizando obras e serviços, relembrando à comunidade os benefícios que trouxe para a localidade. Além disso, em cada localidade, as lideranças políticas eram acionadas para mobilizar os eleitores para o encontro com o prefeito.
Em resumo, Ronaldo tornou-se uma personalidade conhecida e confiável para a população. Alguém em quem a comunidade gosta e confia. Isso ocorre no momento em que a política e os políticos são atingidos por grave falta de credibilidade. Nesse aspecto, o capital político de Ronaldo foi fundamental para estabelecer a ampla vitória eleitoral.
Observa-se que nem mesmo o fato de ter como candidato a vice-prefeito Colbert Martins Filho (PMDB), político preso no transcurso da Operação Voucher, foi suficiente para manchar a imagem que Ronaldo tem junto à população de político ético.
Alianças
Observa-se que Ronaldo, a exemplo de outros políticos de expressão, buscou agregar o maior número de lideranças políticas sob a própria liderança. Enquanto opositores perdiam aliados e partidários, Ronaldo agregou forças, distribuindo aliados em vários partidos.
Um exemplo da liderança e capacidade de aglutinar forças políticas foram as alianças estabelecidas por José Ronaldo com o ex-deputado e atual secretário municipal Sérgio Carneiro (PV), o vereador eleito pelo PT Pablo Roberto (atualmente no PHS), o deputado federal Antonio Lázaro (PSC), o deputado estadual e fiel aliado Carlos Geilson (PSDB), com membros do protestantismo, a exemplo do deputado estadual José de Arimateia (PRB), com o combalido líder local do PMDB e atual vice-prefeito eleito Colbert Filho; com o empresário e suplente de deputado federal José Francisco (Zé Chico, DEM); com o deputado estadual independente Targino Machado (PPS), e com o vereador eleito Roberto Tourinho, herdeiro político do falecido prefeito José Falcão.
Não satisfeito em aglutinar todas as lideranças citadas anteriormente, Ronaldo, durante a campanha eleitoral, dialogou com o deputado federal Fernando Torres (PSD), tentando convertê-lo em aliado. Contudo, o diálogo não resultou em aliança.
Oposição desqualificada
Não apenas os predicados enquanto líder local explicam a proeminente vitória de José Ronaldo. A falta de uma oposição consistente, combativa e questionadora também explica a supremacia política de Ronaldo no cenário feirense.
Zé Neto (PT)
Apenas para citar os concorrentes ao pleito de 2016, observa-se que o deputado José Cerqueira Neto (Zé Neto, PT) não soube aproveitar os 14 anos de governo federal petista, aliado aos 10 anos de governo estadual, para formar uma base aliada em Feira de Santana capaz de enfrentar José Ronaldo. Diferente disso, o deputado foi ao longo dos anos perdendo aliados. No plano local, Zé Neto não promoveu um embate diário com Ronaldo, atuando apenas eventualmente sobre algumas questões, mas com abordagens equivocadas. Um exemplo disso foi o debate político/jurídico sobre o IPTU, no qual saiu derrotado.
O deputado Zé Neto conquistou o que queria: tornou-se a única e isolada liderança do PT no município de Feira de Santana. Contudo, sem capacidade de diálogo com outras forças, restou-lhe o isolamento político local.
Jhonatas Monteiro (PSOL)
Candidato pelo PSOL, Jhonatas Monteiro manteve uma posição crítica em relação à administração local. Com uma votação pouco expressiva, 9,1% dos votos válidos, e sem representantes eleitos para a Câmara Municipal, o PSOL conseguiu estabelecer, a exemplo do PT e do PCdoB, uma consciência de classe delimitada, mas insuficiente para ser considerada uma alternativa de poder.
Jairo Carneiro (PP)
De origem conservadora, Jairo Carneiro (PP) enfrentou o ex-aliado e partidário José Ronaldo. A candidatura do pepista pode ser considerada um experimento midiático. Observa-se que Jairo Carneiro estava distante da vida política local, não concorria a cargos eletivos há alguns anos e havia perdido os vínculos com a comunidade. Mas o perfil de político preparado, com boa formação educacional, era a aposta para fazê-lo emergir como uma alternativa no processo eleitoral de 2016.
A votação de Jairo Carneiro surpreendeu, com 2,95% dos votos válidos. Ele teria no máximo sido eleito vereador. A inexpressiva votação indica que a fórmula mágica da campanha televisiva, aliada ao candidato “paraquedista”, não é suficiente para eleger um prefeito em Feira de Santan
Angelo Almeida (PSB)
Também de perfil conservador, mas alinhado ao campo da esquerda, Ângelo Almeida (PSB) sai do processo eleitoral bem menor do que quando entrou. Com apenas 2.763 votos, ele foi incapaz de transmitir a ideia de uma alternativa de poder.
O programa eleitoral de Ângelo Almeida apresentou desqualificado amadorismo. A postura e as ideias de esquerda difundidas pelo candidato possuíam pouca consistência, em decorrência da limitada compreensão intelectual sobre o que representa o pensamento de esquerda, como ele se configura e com quais elementos históricos trabalha.
Revisão do pluripartidarismo
O candidato do Partido da Causa Operária, Leonardo Pedreira, com os 283 votos recebidos, comprova que o sistema pluripartidário está esgotado. O sistema permite que um número significativo de candidatos concorra, o que diminui o embate de ideais sobre como a sociedade deve se realizar e superar. Observa-se que, para revisar o conjunto de ideias de manutenção da ordem, ou da mudança da ordem, não é necessário um número elevado de partidos, mas um substantivo debate de ideias. Nesse contexto, o excessivo número de partidos e candidatos deprecia a qualidade do debate.
Conclusão
José Ronaldo se estabelece como a principal e inconteste liderança de Feira de Santana porque desenvolveu intensos vínculos com a comunidade, soube agregar forças partidárias e políticas, conduz com relativo equilíbrio as contas públicas, promove investimentos na infraestrutura do município, foca energia nos objetivos, perde pouco tempo com adversários, conta com uma oposição desqualificada do ponto de vista do embate de ideias e é capaz de aglutinar pessoas sob sua liderança.
Além dos predicados políticos citados, o fato de gerir uma cidade que é sede de Região Metropolitana e cuja área de influência socioeconômica abrange cerca de 40 municípios projeta José Ronaldo como uma liderança capaz de aglutinar forças regionais. Aliado a esses fatores, em um momento de crise política e econômica que atravessa o país, Ronaldo representou certa estabilidade para o eleitorado feirense.
Para a oposição resta a alternativa de sempre: deixar de lado os objetivos pessoais e construir um projeto político de longo prazo que envolva o embate propositivo de ideias, com a revisão das falhas sistêmicas na gestão municipal.
Sem um embate diário sobre como a cidadania e a estrutura da cidade devem ser conduzidas, as lutas pontuais travadas durante o processo eleitoral não serão suficientes para minar o legado do prefeito José Ronaldo.
Observando a conjuntura nacional de perda de espaço para as forças progressistas, avizinha-se um cenário pouco favorável para os opositores de José Ronaldo.
Para os derrotados, resta aguardar pelos fatos históricos, pois deixaram de atuar como protagonistas da própria história, sendo apenas coadjuvantes em um cenário de dominação política do ronaldismo.
Observa-se, por fim, que a análise deste editorial parte dos dados atuais. Infere-se que eventos futuros podem mudar a correlação de forças, pois, assim como a vida, a política possui uma dinâmica que escapa à precisão das análises, dado que lida com a ação do ser humano, portanto, uma ação que, embora determinada pela estrutura social, é afetada pelo imponderável da vida.
*Carlos Augusto, cientista social e jornalista.









