Velejadores brasileiros presos com R$ 800 milhões em cocaína em Cabo Verde são vítimas de esquema internacional de tráfico de drogas

Da esquerda para a direita: o capitão francês Olivier Thomas, Rodrigo Dantas, Daniel Dantas e Daniel Guerra.
Da esquerda para a direita: o capitão francês Olivier Thomas, Rodrigo Dantas, Daniel Dantas e Daniel Guerra.

Em uma viagem de 18 dias entre Natal, Brasil, e Cabo Verde, três brasileiros enfrentaram diversos problemas no veleiro Rich Harvest: incêndio, tempestades e uma sequência de falhas mecânicas que obrigaram a tripulação a atracar para consertos. Quando finalmente desembarcaram em 22 de agosto de 2017, no porto da cidade de Midelo, situada na Ilha de São Vicente, uma denúncia anônima levou a polícia de Cabo Verde a inspecionar a embarcação. Sob o assoalho, escondida sob uma camada de cimento, foi encontrada uma carga de mais de uma tonelada de cocaína, avaliada em cerca de R$ 800 milhões, e resultando na prisão do capitão francês Olivier Thomas e do brasileiro Daniel Guerra. Horas depois, os baianos Rodrigo Dantas e Daniel Dantas, que haviam sido demitidos da embarcação durante o trajeto, também foram detidos.

Denúncia, Prisões e Acusações

Após a denúncia anônima, a polícia cabo-verdiana encontrou o entorpecente e iniciou o processo de acusação por tráfico internacional de drogas. Os três brasileiros e o capitão francês agora enfrentam a acusação de “crime de tráfico de drogas de alto risco”, que pode resultar em penas de até 20 anos de prisão. A polícia afirma que a apreensão ocorreu de maneira flagrante e que há indícios de ligação dos tripulantes com uma rede de tráfico internacional.

O advogado de defesa, Oswaldo Lopes Lima, discorda da acusação, argumentando que não há provas consistentes. “Como pessoas que transportam uma carga de 200 milhões de euros não possuem uma arma ou dinheiro no barco?” questiona. Segundo ele, os tripulantes foram enganados e não tinham conhecimento sobre a carga ilícita.

Defesa e Alegações de Inocência

A defesa dos brasileiros alega que eles foram vítimas de uma rede criminosa liderada por um inglês chamado George Saul, também conhecido como “Fox”, que teria contratado a travessia. George Saul é suspeito de integrar uma quadrilha internacional de tráfico e está na lista da Interpol. Os brasileiros dizem que aceitaram o trabalho por meio da The Yacht Company, uma empresa holandesa especializada em “delivery” de embarcações, sem saber que havia drogas escondidas no barco.

Citação do advogado Oswaldo Lopes Lima:

“A única prova que eles têm contra meus clientes é que eles estavam no barco. Isso não é suficiente para condená-los.”

Contratação e Trajetória dos Tripulantes

O trabalho foi anunciado por Arturo Justicio, instrutor náutico de Ilhabela, São Paulo, que indicou o posto de marinheiro para Daniel Guerra e Rodrigo Dantas. A proposta oferecia experiência, alimentação e passagens, mas não havia remuneração financeira. A intenção dos tripulantes era acumular milhas náuticas para conseguir habilitações e construir carreiras profissionais na navegação.

Rodrigo Dantas entrou no grupo depois de conhecer o “contratante” Fox em Salvador, onde seu pai chegou a almoçar com o inglês. “Ele parecia confiável e me assegurou que o barco estava em condições”, lembra João Dantas, pai de Rodrigo. Segundo os tripulantes, os problemas mecânicos da embarcação começaram logo no Brasil, onde permaneceram quase um mês para consertos antes de seguir viagem.

Relato nas Redes Sociais e Princípio de Desfecho

No Facebook, Daniel Guerra registrou os desafios da travessia, destacando as adversidades e ressaltando o apreço pela profissão. “Para muitos, ler isso poderá ser um sofrimento, mas para mim é uma alegria, ‘it’s my job’ (é o meu trabalho), que me motiva e me deixa mais vivo com gana de quero mais”, escreveu. No entanto, poucas horas após o relato, a polícia de Cabo Verde já havia inspecionado o Rich Harvest e apreendido a droga.

Segundo Fátima Guerra, mãe de Daniel, o filho perdeu 18 quilos na prisão e enfrenta dificuldades físicas e emocionais. “Ele é inocente, um rapaz honesto e trabalhador que foi enganado”, afirma.

Condições Prisionais e Apoio Familiar

Os familiares dos brasileiros se mobilizam por justiça, reivindicando apoio e a verificação das condições de detenção dos envolvidos. Barbara Dantas, irmã de Daniel Dantas, também procura assegurar a integridade física do irmão, que relatou ter recebido ameaças.

“Meu irmão é honesto e foi enganado, estamos lutando para provar isso”, afirma.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que tem prestado apoio consular aos brasileiros presos e que diplomatas no país acompanham o caso de perto. Segundo o órgão, qualquer interferência nas investigações locais seria limitada.

Questões com a Empresa Holandesa

O dono da The Yacht Company, Cuno Landman, afirmou à reportagem que rompeu o contrato com os tripulantes ainda no Brasil, mas não apresentou documentos comprobatórios. Ele ainda mencionou que não conhece o contratante Fox, embora fontes afirmem que o britânico já tenha feito uso dos serviços da empresa em outras ocasiões.

Declaração de Cuno Landman:

“Fomos aconselhados pela polícia holandesa a não nos pronunciarmos publicamente sobre o caso.”

Entenda o Caso

  • Personagens Principais:
    • Daniel Guerra, 36 anos, gaúcho, velejador.
    • Rodrigo Dantas, 25 anos, baiano, estudante e velejador.
    • Daniel Dantas, 43 anos, baiano, corretor de imóveis.
  • Contratante Suspeito:
    • George Saul, também conhecido como Fox, inglês, supostamente integrante de uma rede criminosa e procurado pela Interpol.
  • Entidade Contratante:
    • The Yacht Company, empresa holandesa que recruta marinheiros para transporte de embarcações.
  • Local da Apreensão:
    • Veleiro Rich Harvest, apreendido na costa de Cabo Verde, Mindelo, com mais de uma tonelada de cocaína escondida no casco.
  • Citações Relevantes:
    • Daniel Guerra no Facebook: “Para muitos, ler isso poderá ser um sofrimento, mas para mim é uma alegria, ‘it’s my job’.”
    • Advogado Oswaldo Lopes Lima: “Não há no processo nenhum fato que comprove a acusação do Ministério Público.”

*Com informações da BBC News.


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