Nos telejornais, Brasil vira caso de polícia | Por Ricardo Kotscho

Abertura do Jornal Nacional com William Bonner e Renata Vasconcellos.
Abertura do Jornal Nacional com William Bonner e Renata Vasconcellos.
Abertura do Jornal Nacional com William Bonner e Renata Vasconcellos.
Abertura do Jornal Nacional com William Bonner e Renata Vasconcellos.

Parece que voltamos aos tempos daqueles programas policiais de final de tarde em que jorrava sangue e voavam balas num festival de violência e de desgraças, corpos estirados no chão.

Só que agora este noticiário invadiu o horário nobre em todos os telejornais, a começar pelo principal deles, o Jornal Nacional. O Brasil virou um caso de polícia, e não só por causa dos políticos. É a vida real.

Não sei se os caros leitores já notaram, mas nas últimas semanas a primeira meia hora do JN só tem matérias com rebeliões em presídios, mulheres de vítimas da violência chorando, acidentes de todo tipo, famílias e veículos destruídos, greves de policiais, assaltos com bombas em caixas automáticos, bandalheiras variadas e perseguição policial, bem na hora do jantar.

Está morrendo mais gente nos nossos telejornais do que nas novelas, o que não é comum. Se não é aqui, tem a interminável guerra civil da Síria e o eterno conflito no Oriente Médio, o gordinho sinistro da Coréia do Norte, atentados a bomba e refugiados para todo lado.

Fora isso, é o colapso galopante na saúde, casos de febre amarela em São Paulo, enchentes, a novela de Cristiane Brasil-sil-sil no Ministério do Trabalho, as tuitadas de Donald Trump, as idas e vindas do presidente Temer nos hospitais. É um verdadeiro massacre noticioso.

Será que não acontece nada de bom neste país continental e no planeta de um dia para outro?

Com a Lava Jato, o Congresso e o Judiciário em férias, a pauta fica mesmo limitada nesta época do ano, mas boa parte dos telespectadores também está de papo para o ar e talvez fosse o caso de buscar algumas histórias mais amenas para pelo menos dar um refresco ao distinto público.

Isso só acontece nos intervalos comerciais, em que gente bonita e feliz canta as belezas do Brasil Maravilha nos anúncios do governo, dos bancos, dos novos carrões e celulares. É como se fossem dois países distantes se encontrando no mesmo horário.

Entre a realidade e a ilusão, a única novidade boa nestes dez primeiros dias do ano foi a queda da inflação abaixo da meta, resultado da supersafra, dos alimentos mais baratos e de três anos de recessão que frearam o consumo.

Isso talvez explique porque cada vez mais gente está trocando a velha televisão da sala pelas séries e filmes de ficção das Netflix da vida que podem ser vistos em qualquer lugar a qualquer hora.

Da minha parte, aproveitei este recesso forçado em casa, que está chegando ao fim, para ler todos os livros que ganhei no Natal e ver os jogos da Copinha São Paulo, em que a molecada dos times de juniores muitas vezes mostra um futebol melhor do que os titulares dos grandes clubes, que investem mais em veteranos com o prazo de validade vencido.

Fica a sugestão para quem não aguenta mais ver tanta notícia ruim.

Vida que segue.

*Ricardo Kotscho é repórter desde 1964 e já trabalhou em praticamente todos os principais veículos da imprensa brasileira em diferentes cargos e funções, de estagiário a diretor de redação. É atualmente comentarista político do Jornal da Record News e blogueiro do R7 desde 2011.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.