Como calar Lula se a prisão também fala? | Por Saul Leblon em editorial da Carta Maior

Ex-presidente Lula visita o campus de Salinas do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais.
Estão prendendo Lula aos poucos. Para não correr o risco de acender pavios incendiários. Mas também por hesitação quanto à natureza do cárcere adequado.

O pacto entre a mídia, a escória, o dinheiro e o judiciário sabe que a restauração neoliberal imposta ao país pelo golpe de 2016 nunca será suficientemente sólida enquanto a voz rouca da maior liderança da história brasileira ecoar nos ouvidos da sociedade – sobretudo de sua vasta, crescente parcela de pobres, desempregados, avulsos, remediados, terceirizados…

Exilado dentro do próprio país, banido dos protocolos de respeito e ética que os manuais de redação alardeiam, Lula fala e é ouvido por aqueles a quem a Globo gostaria de se dirigir sozinha.

Enquanto persistir a dissonância, nada está garantido.

A elite que se assumiu como tropa de ocupação contra o próprio país e o seu povo sabe que paira sobre esse domínio a aura de um saque intolerável.

A sombra de um referendo revogatório gruda o selo da provisoriedade na demolição social, econômica e geopolítica em curso no país.

Lula pode injetar tônus político a essa sombra.

Pode dota-la de nervos e musculatura de apelo popular irresistível em um horizonte de empobrecimento, desigualdade e revolta.

Não é indispensável que seja candidato para isso, ou Presidente mais uma vez.

Basta que continue falando, mesmo preso, fale –sem parar, a contrapelo do que a máquina do golpe afirma.

Sobretudo, é esperado que não admita, nunca, negociar a liberdade pelo silencio c0biçado pelas elites.

A pedagogia do conflito entre o opressor e o oprimido que não se entrega –e assim enraíza ainda mais fundo e largamente os laços com os excluídos que nele se enxergam, registra dinâmicas precedentes sabidas e temidas.

Por isso o golpe está prendendo Lula aos poucos.

A passo estudado e meticuloso.

Para não correr o risco de acender pavios incendiários .

Ademais, há hesitação e dúvida quanto à natureza do cárcere mais adequado.

Como calar Lula se a prisão, nessas circunstâncias, também fala?

Como evitar o risco de tornar mais forte ainda o discurso e a liderança incompatível com o degrau regressivo que os interesses dominantes decidiram galgar aqui?

Estender a liberdade, mesmo sendo recusado o registro eleitoral à candidatura em outubro próximo, tampouco atende à erradicação definitiva necessária.

Por isso em algum momento Lula receberá a proposta de trocar a liberdade pelo silêncio assentido em São Bernardo do Campo.

Preso, enfim, na cela inexpugnável do próprio mutismo.

Que ele próprio renuncie a ser a voz do povo brasileiro no enfrentamento da vilania liberal e da ganância tóxica, unidas para erguer aqui um enclave de extração do suor e da riqueza, a salvo das obrigações e à prova dos direitos da civilização –eis o troféus mais cobiçado nos bastidores do conservadorismo.

Só pode ser uma sua reação diante da oferenda desse cálice (cale-se) de fel: denuncia-la.

E ao fazê-lo amplamente, de viva voz e em carta à população, reiterar em sustenido político a esperança da qual se fez portador: agora é a vez de a rua assumir o comando do sonho que os coveiros da nação querem sepultar.

O sonho de um Brasil no qual caiba por inteiro o povo que ora se quer amarrotar, para sempre, na soleira da porta, do lado de fora da democracia, da dignidade e da civilização.

*Por Saul Leblon em editorial da Carta Maior, publicado em 11 de fevereiro de 2018.


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