
É noite. O centro soteropolitano já está vazio e às poucas pessoas que transitam por suas ruas ficam com “olhar de tandera”, ligado em qualquer pessoa, sombra e respiro. Ao adentrar a rua Politeama de Cima ou de Baixo já é possível ouvir risadas, é Wilson com seu megafone em frente do Centro Comercial do Politeama a vender seu café preto. Para quem passa despercebido o sentimento é de que é mais um pedinte e/ou morador de rua tentando lucrar uma graninha.
O local onde ele se encontra já se aglutina um grupo de pessoas e nos tocamos que ali é o ponto de encontro de Ruína de Anjos, espetáculo d’A Outra Companhia de Teatro, que volta a cartaz no dia 02 de maio de 2018 e fica em temporada de terça a quinta-feira, às 20h, até 24 de maio. Não ocorrerá apresentação no dia 23 de maio.
“A palavra de ordem é ENXERGAR, vamos cuidar um do outro e não vem com essa de que vai assistir espetáculo de teatro”, essa é a instrução de Wilson, o terceiro sinal para indicar que o espetáculo vai iniciar num megafone. Em meio a atravessamentos de ruas, de transeuntes e espectadores, ônibus passam e olhos se despertam.
O espetáculo inicia e nos minutos seguintes percebesse que no caminho para o Centro Comercial do Politeama passamos por alguns de seus personagens, mas não osENXERGAMOS. Essa é a temática de Ruína de Anjos, uma criação documental sobre as minorias do centro urbano invisibilizadas diante da violência e marginalidade, em algum bairro a beira de uma higienização social.
Num misto de teatro de rua, intervenção urbana e performance, Ruína de Anjos tem como mote a reabertura de um cinema de bairro e a esperança de renovação que ela traz para aquele lugar, que no passado viu um apogeu e hoje vivencia um abandono. Tal qual a vida dos personagens condutores da narrativa itinerante, que perderam a luz que um dia tiveram: uma travesti prostituta, um paraplégico vendedor de café, um pastor traficante, um burguês homofóbico, uma moradora de rua catadora de lixo e uma artista de rua.
O espetáculo, que se dá na dinâmica do trânsito e da noite do centro da metrópole, conduz o público a enxergar situações que atravessam discussões sobre violência, marginalidade, tráfico de drogas, invisibilidade social, comercialização da fé e gênero. Uma inspiração para Ruína de Anjos é a obra A Missão, do autor alemão Heiner Muller, que fala do cenário de um mundo pós-guerra, vivendo uma franca decadência.
O retorno do espetáculo a Salvador ocorre após um ano rodando o Brasil através do Palco Giratório 2017, circuito de artes cênicas do SESC. Ao todo, o grupo passou por 20 cidades, 12 estados e mais de 30 apresentações, oficinas, debates e intercâmbios. A Outra Companhia de Teatro foi o único grupo baiano do projeto e, além de apresentar o documento cênico-urbano Ruína de Anjos, em algumas cidades apresentou também O Que de Você Ficou em Mim, que faz parte do seu repertório.
A respeito da participação no Palco Giratório, o ator e diretor do espetáculo Luiz Antônio Sena Jr. declara que foi um fôlego para enxergar a pesquisa em teatro documental queo grupo vem realizando e os desdobramentos desta obra urbana. “Nossa participação nesse circuito de arte foi fundamental para validar o trabalho no qual investimos desde 2013 quando mudamos para o Politeama, ainda mais com o país em meio a tantas dificuldades. Circulamos e chegamos a lugares que nunca imaginamos ir como Florianópolis, Porto Velho e Cuiabá, encontra por lá pares de reflexão e práticas artístico-sociais”.
Os atravessamentos foram diversos: moradores em situação de rua impediram que os atores fossem violentados por policiais; abraços de reconhecimento; intervenções dos figuras da rua que dialogavam com as personagens, entre outros. “Em Salvador, já com os ensaios, tecemos diálogos com aqueles que estavam nas ruas, criando um ambiente mais aberto para recepção da obra sem intervenções extremas. No Palco Giratório, percebermos como essa história atravessa tantas ‘personagens’ invisibilizadas para além do contato anterior com os atores (o grupo chegava nas cidades na véspera da apresentação); os ecos do espetáculo são instatâneos ao colocar a lupa pra enxergar quem já vive com o olhar aberto pra reconhecer os seus”, acrescenta Luiz Antônio.
Esta nova temporada faz parte do projeto ENXERGUE! sonhos, memórias e declarações d’A Outra Companhia, que contacom o apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura da Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, aprovado no Edital Setorial de Teatro da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). É importante falar que para assistir é preciso reservar a entrada através do emailaoutra@gmail.com.
Agenda
Quando: 02 a 24 de maio, de terça a quinta, às 20h (não ocorrerá apresentação dia 23 de maio)
Onde: Casa d’A Outra – Centro Comercial do Politeama, localizado na Rua Politeama de Cima, 114, Salvador










