Dar o melhor de si | Por Papa Francisco

Papa Francisco: insiste na necessidade de uma "estratégia educacional" que apoie educadores esportivos, pais, voluntários, sacerdotes e pessoas consagradas. O documento sugere "elementos fundamentais" para um projeto que entenda o esporte como "um bem pastoral".
Papa Francisco: insiste na necessidade de uma “estratégia educacional” que apoie educadores esportivos, pais, voluntários, sacerdotes e pessoas consagradas. O documento sugere “elementos fundamentais” para um projeto que entenda o esporte como “um bem pastoral”.

Nos cinco capítulos e nas 50 páginas do texto “Dar o melhor de si”, se analisa, em síntese a história do fenômeno esportivo, se oferece uma leitura antropológica do ponto de vista dos valores e outra sobre os desafios e desvios do esporte – entre as quais o doping e a corrupção – para concluir com uma descrição do papel desempenhado pela Igreja neste setor, considerado um “moderno Pátio dos Gentios”.

O que interessa ao fundo é reiterar que não há um “esporte cristão”, mas certamente é legítima “uma visão cristã do esporte”. Por esta razão, reafirma-se que a Igreja – como repetidamente ensinada nas últimas décadas, em particular por João Paulo II, – não se limita a incentivar uma “prática esportiva qualificada”, mas “quer estar” dentro do “esporte”, entendido como “esporte para a pessoa “e, portanto, como espaço onde dar o” melhor de si “, a partir do qual o título, se desenvolvem amizade, diálogo, igualdade, respeito, solidariedade.

Não apenas pela glória

O capítulo 2 se detém na evolução do esporte. Raciocinando sobre a etimologia da palavra, nota-se como o francês “desporter” deriva do latim “desportare”, que é “divertimento”. O aspecto “lúdico, físico, competitivo” se observa, tem animado práticas esportivas desde “o alvorecer da história da pessoa”. Mas a “mudança radical” vem nos últimos dois séculos, quando o esporte, – recoda-se -, gradualmente se torna um fenômeno de massa e as Olimpíadas de Coubertin ampliam suas fronteiras, enquanto o desenvolvimento da mídia o torna global. Neste desenvolvimento amadurece a concepção da atividade esportiva como instrumento de “educação integral”, que combina a “excelência física” com a “excelência humana”, e a competição no mesmo nível por um resultado, promove o “reconhecimento da igualdade entre as pessoas”. .

Ginástica do corpo e do espírito

À pergunta “o que é o esporte?”, o documento propõe uma das definições possíveis, depois de ter passado em resegna suas características. E assim, diz-se, o esporte é, em geral, qualquer “atividade física em movimento, individual ou em grupo” que tenha um “caráter lúdico e competitivo” e seja codificado por “um sistema de regras”, com desempenhos comparáveis ​​entre si ” em condições de igualdade e oportunidades”. Não se trata tanto de uma esquematização teórica, porque no capítulo 3 o documento desloca a atenção para os valores da atividade esportiva considerados de maneira “sinótica” comparados aos da fé, em primeiro lugar a tensão “ao desenvolvimento harmonioso e integral da pessoa, alma e corpo”. É ainda o Papa Wojtyla que sugere uma descrição eficaz quando vê o esporte como “uma forma de ginástica corporal e espiritual” e observa que “não é mera força física e eficiência muscular, mas também tem uma alma e deve mostrar a sua face integral”. .

Jogo “limpo”

O paralelo exporte-fé continua por outros 9 pontos. Entre os primeiros, destaca-se que o exporte recorde que a “liberdade” seja “também uma responsabilidade” e que “vale a pena abraçar desafios de longo prazo” com compromisso e sacrifícios. Precisamente como a vida cristã, que requer “perseverança”, o que a torna mais parecido com “uma maratona do que uma corrida de velocidade”. Depois, há as “regras” compartilhadas, resultado da “criatividade” daqueles que conceberam a competição sem as quais o sentido da competição “seria frustrado”. Em particular, o parágrafo foca no fair play, que se origina da necessidade de que o jogo seja “limpo” e que aos atletas ensina “a estarem atentos e a respeitarem o adversário” muito além do medo de serem sancionados. Tudo isso, diz o documento, torna o esporte “uma oportunidade de educação para toda a sociedade”. Em particular, para os jovens confusos com uma “perda cada vez maior de valores”, os atletas podem encarnar o papel de “educadores”.

Bem-estar da pessoa e corpos-objeto

Também aprender o “gosto e a beleza do jogo em equipe” – onde o atleta coloca à disposição da equipe “dons e talentos” – pode dar uma forte resposta à difusa “mentalidade individualista”. Enquanto a “disciplina” de que um esportista deve se dotar, treinando com “abnegação” e “humildade”, demonstra com ocorre na vida de fé, que o “sacrifício e o sofrimento têm um poder transformador”. Sem esquecer que, ao lado das dificuldades dos “desafios mais difíceis”, convive no exporte o aspecto da “alegria” e da “harmonia”, porque a atividade esportiva é portadora de “bem-estar” e “equilíbrio”. Por outro lado, prossegue o texto, “grande dano às pessoas” pode vir do excesso de “comercialização” que afeta alguns esportes, de sua “dependência de modelos científicos livres” de “preocupações éticas” em que o “corpo é reduzido a objeto”. e a pessoa é considerada uma mercadoria “.

Sinal de paz possível

Que na “lógica do esporte” se reconheça a “lógica da vida” é evidente também a partir de outras peculiaridades de quem participa de uma competição. O é pela “coragem”, que brilha especialmente quando continua a dar o melhor de si, apesar da possibilidade de vencer ter desaparecido, ou na “igualdade e respeito” essenciais em todas as formas de competição. E, de fato, – reconhece o documento -, “muitos esportes populares fizeram campanhas para aumentar a conscientização contra o racismo e promoveram a inclusão, a paz, a solidariedade e a inclusão”. “O esporte – dissera Bento XVI – pode unir em um espírito de amizade povos e culturas. O esporte é um sinal de que a paz é possível”. O capítulo se conclui afirmando que, em sua “tensão entre força e fragilidade”, o esporte “é talvez o exemplo mais evocativo de unidade entre corpo e alma”.

A competição corrompida

E ainda, apesar de seu conjunto de valores, “o esporte – lê-se no texto – pode ser usado contra a dignidade do ser humano e contra os direitos da pessoa”. A premissa abre o capítulo 4, breve, mas incisivo ao abordar tudo o que estraga o setor. Tudo nasce quando a prática esportiva se degrada ao redor do “vencer a todo custo”. A partir dos “riscos para a saúde” – com os atletas reduzidos, como disse o Papa Francisco, “a mera mercadoria” – passando pelos abusos “físicos, sexuais ou emocionais” cometidos contra menores, para os quais são necessárias medidas especiais de segurança; até aos “comportamentos antidesportivos” dos torcedores o texto estigmatiza situações que minam a beleza da face “humana e justa” do esporte. Uma responsabilidade que também inclui “o máximo respeito pela criação” e a atenção aos “animais” que porventura devem estar envolvidos na competição.

Os quatro desafios

Para a Igreja há quatro áreas nas quais intervir para evitar que os interesses de parte contaminem os setores do esporte tentados pelo desempenho fora das regras. O primeiro diz respeito à “degradação do corpo”, levando – afirma – à “automatização dos atletas” e, muitas vezes, no caso de muitos, a um “especialização precoce” que pode minar a saúde do corpo, por exemplo, no caso da ginástica de elite em que o esforço para reentrar no modelo de “físico pré-púberes” pode causar “distúrbios de alimentação”. A segunda área relaciona-se com o doping, prática infame de degradação do corpo do atleta, bem como de fraude dos resultados que requer “esfoços internacionais concretos e coordenados” não somente da parte de organizações esportivas, mas também dos meios de comunicação, finança e política. Na esteira do “super-espetáculo” de eventos esportivos se esconde a “corrupção” de tipo econômico, considerada pelo documento como o terceiro desafio a ser superado para evitar fraudes e enganos orquestrados por “atores externos” ao ambiente (se pense na “apostas esportivas”) e proteger” com “regras concretas e transparentes” a “integridade do exporte”. Quarta área de intervenção se refere aos “fãs e espectadores”: também aqui o apelo é para a preservação da “comunidade unida” dos torcedores que, quando vive corretamente a sua paixão, é “uma fonte fantástica de alegria e de beleza.”

“A Igreja é de casa no esporte”

O quinto e último capítulo é dedicado ao cuidado pastoral da Igreja nos vários níveis do mundo do esporte. A presença da Igreja nesta área, tornou-se cada vez mais estável no início do século XX com o objectivo não tanto de fornecer suas próprias instalações para a atividade amadora ou agonistas, mas sim, como reafirma o texto, “para dar sentido, valor e perspectiva à prática do esporte”. Em 5 pontos, o capítulo explora os contextos em que o cuidado pastoral é chamado a agir. Nas famílias (reconhecendo que o esporte é “uma fonte de relação” entre pais e filhos, “mas isso não deveria impedir a participação na missa), nas paróquias e oratórios (esporte” firmemente ancorado a um projeto educativo e pastoral “), nas escolas e universidades (esporte “orientado ao desenvolvimento integral dos estudantes”), em centros de fitness, bem como no setor da ciência e da medicina e esportes, no setor “ponte” da mídia tradicional e das redes sociais e, finalmente, entre os clubes de esporte amador e, especialmente, no âmbito profissional, onde é relançada a necessidade de uma formação adequada dos “capelães esportivos”. Em particular, a Igreja é convidada a acompanhar os profissionais do esporte estimulando naqueles em atividade a conservação de um espírito de “amador” – que tem em si os “valores da gratuidade, da amizade, da beleza” – e naqueles que tendo completado sua carreira, o saber “colocar em jogo os talentos” longe da “depressão e vazio” que às vezes podem atingir um atleta em repouso.

Um “bem pastoral”

Para todos os protagonistas desses setores, o documento insiste na necessidade de uma “estratégia educacional” que apoie educadores esportivos, pais, voluntários, sacerdotes e pessoas consagradas. O documento sugere “elementos fundamentais” para um projeto que entenda o esporte como “um bem pastoral”. E portanto, entre outras coisas, o esporte como instrumento “para reconstruir o pacto educacional”, visto “a serviço da humanidade”, que recupere a centralidade do “jogo” e que seja “para todos” e tenha “uma visão ecológica”. A parte final é do Papa Francisco, as suas palavras no Centro Esportivo Italiano em 2014: “ não ter  medo de entrar em jogo com os outros e com Deus e não se contentar com um empate “medíocre”. “Dar o melhor de si” para “o que dura para sempre”.

*Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio) é o 266.º papa da Igreja Católica e Chefe de Estado do Vaticano, sucedendo ao Papa Bento XVI, que abdicou ao papado em 28 de fevereiro de 2013.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.



Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading