Portugal, meu avozinho | Por Luiz Holanda

A Praça do Marquês de Pombal, também conhecida por Rotunda do Marquês de Pombal, é uma importante praça da cidade de Lisboa, Portugal. Situa-se entre a Avenida da Liberdade e o Parque Eduardo VII. No centro ergue-se o monumento a Marquês de Pombal, inaugurado em 1934.
A Praça do Marquês de Pombal, também conhecida por Rotunda do Marquês de Pombal, é uma importante praça da cidade de Lisboa, Portugal. Situa-se entre a Avenida da Liberdade e o Parque Eduardo VII. No centro ergue-se o monumento a Marquês de Pombal, inaugurado em 1934.

Uma atriz brasileira, muito famosa, afirmou que estava se mudando para Portugal por temer a violência no Brasil, e que, por isso, ela, o marido e os filhos iriam à procura de uma vida mais digna e mais tranquila em terras lusitanas. Desiludida, acha o Brasil está indo para o fundo do poço, “pois esse é seu destino”.

Quando perguntada sobre o que seria o “fundo do poço”, respondeu que achava que alguma coisa bastante grave deveria acontecer para que as pessoas criassem uma consciência. Segundo seu entendimento, o Brasil tem cerveja gelada, futebol na TV e outras coisas que ainda nos permitem viver. Entretanto, se um dia o carnaval de Salvador e do Rio de Janeiro for cancelado, ou um filho de um político importante for morto por um bandido, “o bicho vai pegar”.

Pelo visto, a atriz pareceu desejar que alguma tragédia ocorresse para que o país fosse para o fundo do poço. A tragédia, infelizmente, ocorreu, pelo menos em Brumadinho e no Rio de Janeiro, ceifando centenas de vidas, sem que o Brasil fosse ao fundo do poço.

Sobre a vida que pretende viver em Portugal a atriz afirmou que, se preciso, venderia até bolo na rua para sobreviver, pois isso pouco a incomodaria. O que não pode é deixar de ir, pois o “Brasil não oferece dignidade”.

Não será fácil para o leitor comum entender o significado das palavras da atriz, principalmente sob o aspecto de sua atuação na vida diária, muita avançada para os nossos padrões. Ela e o seu companheiro, em entrevista para um programa de televisão, comentaram sobre a vida íntima do casal, narrando acontecimentos que só deveriam interessar aos dois. Entusiasmados, discorreram sobre as críticas que recebem por divulgar nas redes sociais os momentos mais quentes da relação.

Sem adentrar no mérito da ação do casal nem da busca da dignidade que eles pretendem encontrar em Portugal, faz-se necessário alertá-los que, ultimamente, os portugueses não estão muito receptivos com imigrantes brasileiros. O número de conterrâneos rejeitados atinge sete em cada dez, isso logo ao desembarcar, no aeroporto. Os dados são do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal, e foram divulgados em uma reportagem do jornal “Expresso”, desse país. Entre os passageiros que não tiveram entrada autorizada, 74% dos mais de 2000 eram brasileiros, ou seja, 1.655.

Já se foi o tempo que Portugal era cantado em prosa e verso como um país que acolhia com facilidade seus irmãos brasileiros. Poucos se lembram dessa época, cujo marco foi a canção “Portugal meu avozinho”, do compositor Ari Barroso com letra do poeta Manuel Bandeira.

Segundo o colecionador João Condé, estava numa boate quando lançou a idéia de Ari Barroso fazer um samba em parceria com Manuel Bandeira. Entusiasmados, ligaram para o poeta, que aceitou a ideia imediatamente. Ari Barroso fez a música e reuniu seus amigos para ouví-la. Foi um sucesso.

Bandeira aprovou a partitura e houve mesmo uma promessa de novas produções da nova dupla de sambista, que fez nascer e imortalizou o samba “Portugal meu avozinho”, revelando a amizade entre os dois países. Estava previsto que esse samba fosse gravado por Sílvio Caldas, mas, infelizmente, não chegou a ser editado.

Tempos depois, o jornalista Davi Nasser, que percorreu Portugal de ponta a ponta, publicou na revista “O Cruzeiro” uma das mais belas crônicas de amor a Portugal, também intitulada “Portugal meu avozinho”. Na crônica ele indagava como foi que Portugal temperou o “gosto que é saudade e que é carinho” para conseguir ser tão amado.

Portugal tal qual a atriz Esse Portugal poético não existe mais. O mundo é outro. A poesia, nesse sentido, acabou. Agora não se sabe sequer se Portugal é nosso irmão. Infelizmente, os preconceitos contra os brasileiros continuam. Muitos portugueses acham que nós somos “malandros”, que sempre fazemos coisas de forma rápida, sem medir o sucesso ou as conseqüências.

Apesar das semelhanças culturais, as regras de convivência em Portugal são diferentes. Lá predomina um comportamento mais conservador, incapaz de aceitar os “avanços” da atriz e do seu companheiro. Seja como for, vale a pena tentar. Temos muitas coisas em comum com os portugueses, inclusive a língua, que quase não entendemos por causa sotaque. Fora isso, Portugal continua sendo nosso avozinho.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.


Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Avatar de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

Valorize o jornalismo crítico, plural, rigoroso e comprometido com a verdade factual, a democracia, o Estado de Direito e o interesse público. Escolha o Jornal Grande Bahia (JGB) como fonte preferida no Google: clique aqui.

Sua confiança também fortalece nosso trabalho: avalie o JGB

Selecione o JGB e receba nossas notícias com mais destaque.


Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.