Projeto do ministro Sérgio Moro para segurança viola a Constituição Federal, apontam juristas

Sérgio Moro, o inconstitucional. Esta certamente será uma das denominações pela qual o ex-juiz, e atual ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL), será lembrado na história.
Sérgio Moro, o inconstitucional. Esta certamente será uma das denominações pela qual o ex-juiz, e atual ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL), será lembrado na história.

Com o plea bargain, inocentes podem acabar presos e agravar a crise de segurança. Ministro do STF lembrou que prisão em 2ª instância é questão constitucional.

Sérgio Moro, o inconstitucional. Esta certamente será uma das denominações pela qual o ex-juiz, e atual ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL), será lembrado na história. O histórico dele em desrespeitar as leis e principalmente a Constituição Federal é extenso. Não é de hoje que Moro distorce a ordem jurídica do Brasil, basta ver a condução parcial que deu ao processo contra o ex-presidente Lula. Agora, ele apresentou um projeto de lei para a segurança pública que novamente viola a Carta Magna brasileira, segundo apontam organizações e juristas.

Classificado como “inócuo”, “panfletário”, flagrantemente inconstitucional” e “tecnicamente frágil”, o projeto de lei de Moro foi duramente criticado por órgãos como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Estas entidades destacam, sobretudo, que o ministro propôs diversas mudanças legislativas sem fazer consulta pública ou participação de especialistas.

Além disso, as propostas do ex-juiz limitam o direito de defesa e podem agravar a crise de segurança pública, devendo contribuir para o aumento das já elevadas taxas de encarceramento no Brasil.

Licença para matar e o autos de resistência

Moro quer dar licença para as força de segurança pública matar. A consequência das medidas propostas pelo ministro da Justiça são gravíssimas. O Brasil é o país com mais mortes causadas por policiais e onde os próprios policias mais morrem no mundo. Essa trágica realidade irá se tornar ainda mais perversa com as medidas de Moro.

Apenas em 2017, o Brasil teve 5.012 mortes cometidas por policiais na ativa, enquanto o número de latrocínios (roubo seguido de morte) foi de 2.447, o que significa que é mais provável morrer pelo tiro de um policial do que de um bandido. O número de policiais mortos no ano foi de 367. “O pacote anticrime apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, não é um plano de segurança, é um projeto de populismo penal com autorização para matar”, critica o advogado e deputado Paulo Teixeira (PT-SP).

Também advogado, o deputado Alencar Santana (PT-SP) manifestou preocupação com a ampliação da excludente de ilicitude proposta por Moro. “Todos nós temos o direito de legítima defesa, mas quando o ministro Moro diz que policiais terão essa excludente considerada porque agiram em legítima defesa, isso é muito amplo. Quem está morrendo hoje é a juventude na periferia, é o jovem pobre e negro. Temos que ter cuidado com essa situação porque senão estaremos legalizando o ‘abate’, a morte dessa juventude. Isso é perigoso”, alertou.

Moro quer agravar ainda mais o já questionado autos de resistência, previsto no artigo 292 do 329 do Código Penal. O projeto do ministro foge a qualquer técnica legislativa em matéria penal, segundo especialistas. O ex-juiz quer aumentar a atual pena que tinha o limite de até 3 anos, para até 30 anos, se da resistência resulta morte ou risco de morte.  O dispositivo da forma que está já é questionado por ser responsável pelas altas taxas de letalidade policial.

Ocorre, na prática, que quando um policial mata um suposto suspeito, alega legítima defesa e que houve resistência à prisão. O fato é registrado como autos de resistência e as testemunhas são os próprios policiais que participavam da ação. O crime quase nunca é investigado.

Plea Bargain: confissões forçadas

Em entrevista à Rede Brasil Atual, o procurador de Justiça aposentado Afrânio Silva Jardim apontou que a ideia de estabelecer um acordo em troca da redução de pena, nos moldes do plea bargain aplicado nos Estados Unidos, é “absolutamente inconstitucional”.

Segundo Jardim, o projeto vai contribuir para que o Ministério Público seja transformado em um “verdadeiro monstro” e com isso corromper o devido processo legal. “Estes acordos são seletivos por natureza e as negociações fogem a qualquer controle eficaz. A ampliação da discricionariedade, no nosso processo penal, é algo absolutamente indesejável”, disse à RBB.

O professor titular da Faculdade de Direito de São Paulo Almiro Velludo Salvador Netto, ouvido pelo Valor, apontou que nem mesmo nos países que adotam o acordo de confissão, como os EUA e Inglaterra, há consenso sobre sua eficácia. “É muito discutido como o sistema de ‘plea bargain’ força e intimida as pessoas a aceitarem o acordo, independentemente de serem culpadas. Com isso, muitos inocentes, para não correrem o risco do processo e futura condenação, admitem a responsabilidade para conseguirem o acordo”, diz Salvador.

Para Walfrido Warde Filho, o modelo é incompatível com o nosso sistema jurídico e com os princípios processuais constitucionais do Brasil. “Ele estabelece uma transação penal entre partes com diferentes pesos. De um lado, o réu, normalmente pobre e negro; do outro, um promotor de Justiça com o aparato do Estado. Me parece incompatível com o direito de defesa assegurado pela Constituição e com o devido processo legal”, criticou em entrevista ao Valor.

O advogado Diogo Cabral criticou a proposta e explicou, por meio de suas redes sociais, que “as negociações facilitam que os promotores condenem os acusados ​​que não são culpados, que não representam um perigo para a sociedade, ou cujo “crime” pode ser principalmente uma questão de pobreza, doença mental ou vício”. Segundo o jurista, os números do encarceramento em massa nos EUA servem de alerta.

A maioria das pessoas julgadas no sistema de justiça criminal dos EUA renuncia ao direito a um julgamento e ao conjunto de proteções que o acompanham, incluindo o direito de apelar. Ao invés vez disso, eles se declararam culpados. A grande maioria das condenações criminais é agora o resultado do plea bargain– cerca de 94% no nível estadual e cerca de 97% no nível federal.

Prisão em segunda instância

Outro ponto do projeto de Moro muito criticado foi a possibilidade de instituir, por lei, a prisão de condenados em segunda instância. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio de Mello afirmou à Folha de S.Paulo, desta segunda-feira (04/02/2019), que a proposta do ministro de Bolsonaro não vai resolver a questão do cumprimento de pena, após condenação em segunda instância. O tema vem sendo debatido no Supremo desde 2018 e já é um assunto da ordem constitucional.

“Continuamos com o mesmo conflito [mesmo se a lei de Moro for aprovada]. Lei ordinária, claro, no bom sentido, não se sobrepõe à Constituição Federal e está encerra o princípio da não culpabilidade, da inocência”, disse Mello. O ministro também lembrou que as mudanças propostas por Moro sequer podem ser feitas por um projeto de lei. “Enquanto se viver em um Estado Democrático de Direito é preciso respeitar a Constituição. E atualmente a Constituição precisa ser um pouco mais amada”, disse à Rádio Gauchazh.

Marco Aurélio criticou ainda a possibilidade de erros judiciais, que podem ocorrer tanto com o plea bargain, quanto com as prisões em condenações de segunda instância “Quem é que devolve a liberdade perdida ao cidadão inocente? Ninguém. Isso destrói a vida da pessoa, da família. E aí a responsabilidade é de quem? Antes 100 culpados soltos do que um único inocente preso”, disse.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.



Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading