O depoimento da jornalista Rosemeire Nogueira, conhecida como Rose Nogueira, ex-integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN), voltou a circular nas redes sociais após declarações do presidente Jair Bolsonaro defendendo a comemoração dos 55 anos do golpe militar de 1964. O relato, originalmente divulgado em 2019, descreve episódios de tortura e violência sexual sofridos por ela após sua prisão em novembro de 1969, em São Paulo, durante o regime militar.
O conteúdo viralizado apresenta um testemunho pessoal sobre o tratamento dado a presos políticos em órgãos de repressão do período, especialmente no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), e passou a ser compartilhado como contraponto às manifestações favoráveis ao movimento militar de 1964.
Segundo o relato, Rose Nogueira foi presa poucos dias após dar à luz e levada ao Dops, onde afirma ter sido submetida a sessões de tortura física e psicológica. O testemunho descreve agressões, humilhações, ameaças contra o filho recém-nascido e situações de violência sexual praticadas por agentes do regime.
A jornalista afirma que, durante o período em que permaneceu sob custódia, foi alvo de ofensas, agressões físicas e ameaças. O depoimento relata ainda que agentes teriam utilizado referências a uma exposição agropecuária para humilhá-la, associando sua condição física ao período pós-parto.
Os episódios narrados incluem a aplicação de injeções forçadas, ameaças dirigidas ao filho e agressões físicas reiteradas, descritas como parte de um ambiente de intimidação e terror psicológico dentro das dependências do órgão de repressão.
O relato de Rose Nogueira foi publicado em março de 2019, quando o tema da memória da ditadura voltou ao centro do debate público após manifestações oficiais em referência ao golpe de 1964. À época, o testemunho ganhou repercussão como exemplo das violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar.
Rose Nogueira foi presa em 4 de novembro de 1969, em São Paulo, quando atuava como jornalista e militava na ALN, organização de esquerda que atuou na resistência armada contra o regime. Após o período de prisão, seguiu carreira no jornalismo e passou a atuar na defesa de direitos humanos.
Depoimento relata violência após prisão em 1969
“Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto.
Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei.
‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’.
Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido.
Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado.
Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões.
Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas.
Aí me deram muitas palmadas e um empurrão. Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios.
Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco.
No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa.
O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’
Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu filho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro.”
Debate sobre memória e interpretação do período militar
A repercussão do depoimento ocorre em meio a um debate recorrente na sociedade brasileira sobre a interpretação histórica do golpe de 1964 e do regime militar instaurado a partir dele. Enquanto setores políticos defendem a narrativa de que o movimento representou uma reação a ameaças ideológicas, entidades de direitos humanos e pesquisadores apontam a existência de um regime autoritário, marcado por censura, perseguições e violações sistemáticas.
Relatórios oficiais, como o da Comissão Nacional da Verdade, concluíram que o Estado brasileiro foi responsável por práticas de tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados durante o período. As conclusões desses trabalhos são frequentemente citadas em discussões públicas sobre memória, justiça e reparação histórica.







