Reforma da Previdência foi aprovada não graças, mas apesar do presidente Jair Bolsonaro, escreve Le Monde

Políticos de direita e extrema-direita comemoram aprovação do texto-base da Reforma da Previdência, em primeiro turno, na Câmara dos Deputados.
Políticos de direita e extrema-direita comemoram aprovação do texto-base da Reforma da Previdência, em primeiro turno, na Câmara dos Deputados.

O jornal Le Monde traz na edição deste sábado (13/07/2019) uma reportagem sobre a aprovação da Reforma da Previdência no Brasil. Segundo o diário francês, o futuro sistema, crucial para as finanças públicas do país, deverá representar uma economia de €168 bilhões, em dez anos.

Depois de oito horas de debates acirrados e de um certo teatro por parte de alguns parlamentares, o presidente Jair Bolsonaro comemorou, em sua conta no Twitter, um grande dia. “O Brasil se aproxima cada vez mais do caminho do emprego e da prosperidade”, escreveu o presidente.

O Le Monde lembra que o texto da reforma foi aprovado com maioria dos votos (379 contra 131) e que a medida tem o apoio de 47% dos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha. O projeto ainda precisa passar por uma segunda votação na Câmara dos Deputados, antes do voto definitivo do Senado, esperado para setembro.

Segundo Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, ouvido pela reportagem, “não há o que comemorar, pois a reforma é positiva, mas não é excelente”. ” Ela mantém muitos privilégios e não passa de um remendo sobre um sistema falido”, diz. De acordo com Ramos, daqui a cinco ou dez anos, uma nova reforma será necessária.

O Le Monde segue dizendo que o futuro do sistema de aposentadorias deve aliviar um país onde a dívida pública passa de 90% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A reportagem detalha as medidas, informando que o texto da reforma impõe uma idade mínima para a aposentadoria de 65 anos para os homens e de 62 para as mulheres, aliada a um tempo de contribuição variável de acordo com as profissões.

Segundo o jornal, a reforma foi apresentada como indispensável para a retomada do crescimento econômico e uma estratégia para acabar com privilégios exorbitantes. Porém, o diário lembra que o próprio presidente Bolsonaro se encontra no grupo dos corporativistas. Oficialmente candidato à reeleição em 2022, escreve Le Monde, o militar estaria mais de olho nos votos futuros do que nas próximas gerações. Depois de ter sido chamado de traidor pelas forças de segurança, o presidente passou a defender um regime preferencial para os policiais, diz a reportagem.

Essa categoria, lembra Le Monde, se junta a outras com regimes especiais, como militares, professores, trabalhadores rurais, servidores estaduais e municipais. No total, uma economia estimada de R$ 1 trilhão em dez anos foi revista para R$ 714 bilhões, segundo um órgão independente do Senado.

“Ainda há tempo de discutir honestamente meios de lutar contra privilégios e reduzir as desigualdades”, escreve o escritor e economista Thomas Piketty, num artigo do jornal Valor, citado pelo Le Monde. “Mas prosseguir a Reforma da Previdência nas condições atuais fará do Brasil um exemplo mundial de destruição de um sistema de aposentadorias baseado na solidariedade para aumentar as desigualdades”, completa o autor.

A reportagem encerra dizendo que a reforma não foi aprovada graças a Bolsonaro, mas apesar dele, conhecido, segundo o jornal Le Monde, como uma “fábrica de crises”.

*Com informações da RFI.


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