Ministro Nelson Teich tem histórico empresarial e defendeu escolha entre pacientes ante falta de recursos; Médico adota discurso da necropolítica

Nelson Teich, ministro da Saúde do Governo Bolsonaro, adepto da necropolítica.
Nelson Teich, ministro da Saúde do Governo Bolsonaro, adepto da necropolítica.

Anunciado nesta quinta-feira (16/04/2020) para comandar o Ministério da Saúde durante a pandemia do coronavírus, o oncologista Nelson Teich tem currículo empresarial na área médica e já defendeu que se faça escolhas entre tratar um idoso com doenças crônicas ou dar atendimento a um adolescente, diante da falta de recursos no sistema público.

Teich, que colaborou na campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018 dando conselhos na área de saúde, atuou de setembro do ano passado a janeiro deste ano como conselheiro do atual secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do ministério, Denizar Vianna, apontado como o homem da ciência na pasta pelo agora ex-titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Trabalhando como consultor até ser convidado por Bolsonaro para comandar o ministério, Teich já fundou empresas na área de saúde, uma delas vendida posteriormente a um plano de saúde, e é formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), além de ter feito residência no Instituto Nacional do Câncer (Inca) e especializações em Economia da Saúde e MBA em saúde.

Em vídeo gravado para um fórum de oncologia realizado há um ano em Brasília, o novo ministro disse que o sistema público é tratado de forma superficial e defendeu que, diante da falta de recursos para o Sistema Único de Saúde (SUS), é necessário se fazer escolhas, como, por exemplo, entre tratar um idoso com doenças crônicas ou um adolescente.

“Como você tem o dinheiro limitado, você vai ter que fazer escolhas. Então você vai ter que definir onde você vai investir. Eu tenho uma pessoa que é idosa, que tem uma doença crônica avançada e ela teve uma complicação. Para ela melhorar, eu vou gastar praticamente o mesmo dinheiro que eu vou gastar para investir em um adolescente que está com um problema”, disse.

“O mesmo dinheiro que eu vou investir. É igual. Só que essa pessoa é uma adolescente que vai ter a vida inteira pela frente, e a outra é uma pessoa idosa que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”, indagou.

Apesar de ter sido encarregado por Bolsonaro de buscar formas de permitir a retomada gradual da economia, o oncologista defendeu o isolamento social como ferramenta de combate ao avanço do Covid-19, doença respiratória causada pelo coronavírus, em artigo publicado do início deste mês.

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da Covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento”, escreveu.

“Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país.”

Bolsonaro é contra o isolamento horizontal. Ele defende o que chama de isolamento vertical, no qual somente integrantes do grupo de risco da doença —idosos e portadores de comorbidades ficam isolados.

No mesmo artigo do início de abril, Teich disse que o isolamento vertical “também tem fragilidades” e “não representa uma solução definitiva” para o problema.

“Como exemplo, sendo real a informação que a maioria das transmissões acontecem à partir de pessoas sem sintomas, se deixarmos as pessoas com maior risco de morte pela Covid-19 em casa e liberarmos aqueles com menor risco para o trabalho, com o passar do tempo teríamos pessoas assintomáticas transmitindo a doença para as famílias, para as pessoas de alto risco que foram isoladas e ficaram em casa”, escreveu.

Em pronunciamento ao lado de Bolsonaro logo depois de ser anunciado para comandar a Saúde, Teich disse que não tomará medidas bruscas em relação ao isolamento, se declarou completamente alinhado ao presidente e disse que trabalhará para que a vida dos brasileiros volte ao normal.

“A gente discutir saúde e economia, isso é muito ruim… Essas coisas são complementares”, disse. “Uma coisa importante do desenvolvimento econômico é que ele arrasta as outras coisas”, acrescentou.

*Com informações de Eduardo Simões, da Agência Reuters.

Editorial do Jornal Estadão critica Nelson Teich, ministro da Saúde do Governo Bolsonaro.
Editorial do Jornal Estadão critica Nelson Teich, ministro da Saúde do Governo Bolsonaro.

Confira vídeo


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