Filme ‘Vento Seco’ estreia na França; Cinema novo queer brasileiro é resposta ao Governo Bolsonaro

O filme brasileiro Vento Seco estreou esta semana nos cinemas da França e ganhou destaque na imprensa. Além de menções nos principais jornais do país, o primeiro longa de Daniel Nolasco recebeu críticas elogiosas das revistas Les Inrocks e Têtu.

“Ardente e emocionante.” Foi assim que a revista Les Inrocks, uma das referências do jornalismo cultural na França, resumiu o filme de Nolasco, que já foi apresentado em festivais em Paris e na seleção Panorama da Berlinale em 2020. O jornalista Bruno Deruisseau descreve a produção como uma obra quase pornográfica, “navegando entre as fantasias sexuais do universo gay sadomaquista e a condição social dos personagens” do filme, operários em uma usina em Catalão, no interior de Goiás. Les Inrocks elogia a “potência visual” de Vento Seco, no qual aponta referências claras a O Fantasma, do português João Pedro Rodrigues, mas também ao cinema do norte-americano David Lynch ou do francês Yann Gonzalez.

Já a revista Têtu traz uma longa crítica assinada pelo jornalista Franck Finance-Madureira, o criador da Queer Palm, o prêmio LGBTQIA+ do Festival de Cannes. O texto tece elogios à estética do filme, “extremamente cuidadosa” e vê na obra referências à cinematografia do alemão Rainer Werner Fassbinder, do francês Alain Guiraudie ou ainda do norte-americano Gregg Araki.

Para a revista Têtu, Nolasco apresenta um longa-metragem marcado por uma “sensualidade afirmada”, que transita por “diferentes camadas de leitura, entre fantasias sexuais cruas, sonhos eróticos ou românticos e a realidade social brutal do cotidiano no mundo do trabalho”.

Liberdade em clima hostil

Mas é principalmente o contexto social e político do Brasil atual que interessa a revista Têtu. Para o crítico da publicação francesa, Vento Seco é um momento de liberdade em meio de um clima hostil.

Segundo a publicação, a obra do Nolasco faz parte de uma nova geração de filmes de temática LGBTQIA+ que o jornalista chama de “cinema novo queer brasileiro” em uma referência velada ao movimento encabeçado por diretores como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, nos anos 1950 e 60. O crítico também compara o movimento ao “new queer cinema” anglo-saxão da década de 1990, quando os corpos marginalizados passaram a ser vistos nas telonas.

“Se o ‘new queer cinema’ se inseria em um período político específico, marcado pelo apogeu da epidemia de HIV/Aids e pelo conservadorismo nos Estados Unidos e no Reino Unido, esse novo cinema queer brasileiro sentiu a radicalização do Brasil e antecipou a chegada ao poder de uma extrema direita racista e homofóbica, encarnada por Jair Bolsonaro”, aponta a revista francesa.

O jornalista coloca Vento Seco na esteira de outras produções brasileiras, como Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, Bixa Travesty, com Linn da Quebrada, ou ainda As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra. Segundo Têtu, todos esses filmes participaram do lançamento de uma tendência que consiste em “sublimar os corpos marginalizados por serem gays, queer, trans, racializados e/ou pobres”.

Para a revista, esse cinema expõe “as dificuldades de se assumir plenamente e viver feliz em um contexto político, econômico e social desastroso, que gera uma violência diária e multifacetada”.

*Com informações da RFI.


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