“Precisamos de pessoas que acreditem em nós”, diz ginasta Rebeca Andrade durante Jogos Olímpicos de Tóquio

Jovem, negra e brilhante: Rebeca Andrade é o maior destaque brasileiro em Tóquio. A atleta de 22 anos foi a primeira ginasta da história do país a subir no pódio olímpico e a primeira brasileira a conquistar duas medalhas na mesma edição dos Jogos, prata no individual geral e ouro no salto.

Com os holofotes do mundo todo voltados para ela, Rebeca agradeceu à família e aos treinadores, e aproveitou para chamar atenção para a situação do esporte em seu país. Questionada sobre o sentimento de se tornar a primeira ginasta brasileira a ganhar uma medalha olímpica, ela afirmou: “É muito bom, porque tem muita gente como eu no Brasil.”

“Precisamos de ajuda, precisamos de pessoas que acreditem em nós. Precisamos de pessoas que possam ver nossos talentos e nos ajudar a crescer”, disse a ginasta.

E Rebeca, melhor do que ninguém, sabe a importância de uma rede de apoio. Sem a ajuda incondicional da família e o auxílio, inclusive financeiro, de professores e treinadores, dificilmente a carreira da jovem atleta teria decolado dos bairros humildes de Guarulhos para os pódios do Japão.

Durante a infância pobre, professores e família fizeram vaquinhas para arrecadar dinheiro para pagar a ida de Rebeca a competições e financiar suas roupas de apresentação.

“Essa medalha é de todo mundo”, disse a paulista após ganhar a prata na categoria individual geral, na última quinta-feira.

Rebeca se referia a todos os brasileiros, mas especialmente a alguns que ela fez questão de citar. Dois deles fundamentais: o irmão Emerson e a mãe Rosa. Logo após a prata, ao vivo na televisão, Rebeca reclamou aos risos que a mãe, sua grande incentivadora, não tinha atendido à sua ligação.

No começo dos anos 2000, separada do pai dos cinco primeiros de seus oito filhos, Rosa trabalhou como doméstica para sustentar a família sozinha, até se casar com o atual marido. Sempre com dificuldades financeiras, a família se mudou várias vezes durante a infância de Rebeca, a caçula do primeiro casamento de Rosa.

Quando a menina tinha quatro anos, foi levada pela tia para fazer um teste no ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos, no qual havia começado a trabalhar e onde havia um projeto social para jovens ginastas.

De cara, Mônica Barroso dos Anjos, técnica da equipe de ginástica de Guarulhos e árbitra internacional, viu o potencial da menina e, em pouco tempo, ela já estava em competições.

“A Rebeca chegou com a tia no ginásio, toda tímida. Quando pedi para ela fazer um movimento, logo vi um talento incrível, que precisava ser lapidado”, lembrou recentemente Mônica, que foi sua primeira professora.

Sacrifícios da família

Confiante no talento da caçula e com o apoio dos outros filhos, Rosa passou então a ir trabalhar a pé para que o dinheiro da condução fosse usado pelo irmão Emerson para levar Rebeca aos treinos.

Depois, quando já não era possível nem contar com o dinheiro do transporte público, Emerson, então com 13 anos, passou a levar Rebeca a pé aos treinos, em uma caminhada de duas horas até o ginásio.

Saíam de casa por volta das 5h da manhã – e Rebeca muitas vezes já chegava exausta para o treino. Comia lá mesmo e, depois, era deixada pelo irmão na escola. Só então Emerson partia para suas aulas, muitas vezes sem se alimentar por falta de tempo, contou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Pouco tempo depois, Emerson trocou latinhas por uma velha bicicleta e, aos poucos, foi arrumando o veículo para levar a irmã caçula aos treinos.

A família enfrentou o preconceito de vizinhos, que não acreditavam que uma mãe solo poderia “criar bem” cinco filhos. À Folha, Emerson contou que chegou a ver amigos apanharem por andarem com ele, descrito como um “negrinho”.

Aos 9 anos, a convite do técnico Francisco, que ela considera um pai, Rebeca saiu de casa e foi treinar por um ano em Curitiba.

“Muitos me criticaram na época, porque logo aos 9 anos ela [Rebeca] foi morar fora, foi se dedicar aos treinos”, disse Rosa em entrevista ao portal UOL.

Em seguida, ingressou no clube do Flamengo, no Rio de Janeiro, quando seu sonho de alcançar os pódios do mundo foi se concretizando. Com seus primeiros sucessos, comprou um novo apartamento para a família.

Francisco, que acompanha Rebeca desde 2006, esteve com ela em Tóquio. Após o ouro no salto, a atleta prestou homenagens ao treinador.

“Você é o meu orgulho, você é o melhor de todos e você me ajudou fazer acontecer! Obrigada por sempre acreditar em mim! Nós somos campeões olímpicos! Deus é bom o tempo todo, e o trabalho duro tá aí! Obrigada a todos pela torcida, orações e tudo mesmo!”, escreveu a ginasta no Instagram, acompanhada de uma foto dos dois.

*Com informações do DW.


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