YouTube pagou R$ 15 milhões a canais bolsonaristas acusados de fake news; Google privilegia audiência em detrimento da qualidade editorial

Acusados pela Polícia Federal de propagar fake news, 14 canais de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) produziram conteúdo suficiente para faturar R$ 15,4 milhões em um ano, estima levantamento feito a pedido do portal UOL por uma consultoria especializada em pesquisas, mineração de dados e redes sociais.

Em 16 de agosto, o TSE (Superior Tribunal Eleitoral) mandou o YouTube suspender os repasses monetizados por essas páginas, que no período analisado produziram quase 24 mil vídeos que chegaram a 1,4 bilhão de visualizações.

A Consultoria Quaest apurou a produção de conteúdo dessas páginas e sua potencial monetização entre 15 de agosto de 2020 e 15 de agosto de 2021. Para chegar ao valor, a empresa precisou descobrir o alcance dessas 14 páginas: juntas, elas têm uma base de 9,5 milhões de seguidores.

A cada mil visualizações, o YouTube monetiza os canais que hospeda com valores que variam entre US$ 25 centavos [R$ 1,30 na cotação atual] e US$ 4,50 [R$ 23], segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor de ciências políticas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

“Quanto mais visto é um vídeo, maior sua chance de ser multiplicado pelo valor alto. Quanto menos visto, maior a chance de ser multiplicado pelo valor baixo”, afirmou o especialista ao portal UOL.

O professor explica que esse 1,4 bilhão de visualizações poderia gerar em torno R$ 15,4 milhões em um ano desde que os 14 canais estivessem monetizando por todo esse tempo.

Um dos donos desses canais é Oswaldo Eustáquio, responsável pelo “Agora é Manchete com Oswaldo Eustáquio”. Com audiência suficiente para monetizar R$ 241 mil no período, segundo o levantamento, ele afirmou ao portal UOL que “o Estado brasileiro, por meio do STF [Supremo Tribunal Federal], TRE [Tribunal Regional Eleitoral] e TSE, impediu por censura que eu recebesse esse valor” e que “durante esse período citado, meu canal esteve fora do ar”.

Já Alberto Silva, dono de “O Giro de Notícias” e canal “Alberto Silva”, disse à reportagem do UOL que seus canais estão “desmonetizados pelo YouTube há mais de 6 meses”, embora suas páginas não “pertençam a nenhum tipo de grupo ou mídia paralela, grupos de WhatsApp ou coisa parecida”.

O campeão de audiência é a “Folha Política”, que com 2,5 milhões de inscritos produziu mais de 12 mil vídeos em um ano, alcançando 976 milhões de visualizações. Se monetizados por todo o período, seus vídeos podem ter rendido cerca de R$ 8,9 milhões, segundo o levantamento. O canal não se manifestou.

O YouTube não comentou os valores apurados pela consultoria. Em nota ao portal UOL, afirmou que que já suspendeu os repasses e que é seu “compromisso” colaborar com as autoridades brasileiras “para proteger a comunidade do YouTube de conteúdo nocivo”. O site acatou a decisão do TSE em 26 de agosto. Desde então, os valores que deveriam ser transferidos aos donos dos canais são depositados em uma conta bancária atrelada à Justiça Eleitoral.

O canal “Emerson Teixeira” confirmou que o YouTube “cortou sim a monetização este mês”, mas garante que, em 15 anos, recebeu US$ 3.800 (R$ 20 mil), “bem diferente dos US$ 32.500 dólares [R$ 168 mil] em um ano que vocês citam”.

Dona do site “Direto aos Fatos”, Camila Abdo negou que tivesse recebido o equivalente a R$ 225 mil em um ano, mas não revelou o quanto monetizou no período. Disse apenas ter recebido US$ 168 (R$ 880) no mês passado.

Enquanto o canal “Ravox” respondeu que não comentaria, os canais “Vlog do Lisboa”, “Vlog do Lisboa Replay”, “Terça Livre TV”, “Universo”, “Jornal da Cidade Online” e “Canal Universo Filial” não responderam ao portal UOL.

A PF defendeu ao TSE que a rede de apoiadores do presidente usou a internet para atacar as urnas eletrônicas utilizando estratégia semelhante à utilizada por partidários de Donald Trump nas eleições de 2016. Steve Bannon, o ex-estrategista de Trump, é próximo da família Bolsonaro e conselheiro da Cambridge Analytica, que comandou o site Breitbart News, conhecido por espalhar notícias falsas.

*Com informações do Yahoo Notícias e UOL.


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