A indicação do ex-juiz Sérgio Moro como ministro da justiça do governo Bolsonaro foi, inicialmente, um golpe de mestre do presidente. Ao apontar o que seria o seu governo no combate à corrupção, Bolsonaro não imaginava as dificuldades que teria para combater uma praga de a muito entranhada na estrutura estatal e potencializada pelos donos do poder numa escala jamais vista em nossa história.
Logo de inicio ficou patente que não era tarefa fácil bater de frente com o crime organizado, o maior inimigo de qualquer governo. Para tanto, além dos recursos financeiros e apoio popular, seria necessário modificar a legislação, começando por uma maior penalização de determinados crimes, entre os quais o assalto aos cofres públicos.
Nada disso foi feito, pois tudo acabou com a exoneração de Moro do Ministério da Justiça. Depois disso, o passo seguinte foi a invalidação dos processos de corrupção abertos durante a Lava Jato. Agora Moro se apresenta como candidato a presidente da República, tendo como tema de campanha o seu livro “Contra o Sistema da Corrupção”, narrando a história por ele vivida como juiz de 1ª instância em Curitiba, terra da Lava Jato.
Segundo ele, a obra não é uma autobiografia nem uma “narração completa dos fatos”, porque “a história não acaba aqui”. Prefere definir o livro como o resultado de um convite para “explicar no papel” os acontecimentos, pois “esse livro são os fatos, isso aconteceu, tudo aqui aconteceu”. No livro Moro cita o momento em que divulgou o áudio de uma conversa entre os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, gravado através de um grampo. O ex-juiz disse que sempre achou ter feito “a coisa certa naquele episódio”, pois não tinha motivos para esconder “segredo sujo de outras pessoas” e que “até hoje não me arrependo”.
Sobre sua passagem pelo ministério, Moro alegou que seu trabalho “conseguiu avançar sobre o crime organizado e a criminalidade violenta”, mas se queixou da agenda de combate à corrupção, que ele afirma ter sido negligenciada por Bolsonaro porque não quis se comprometer com o projeto do pacote anticrime nem com a aprovação da prisão em 2ª instância. Para o ex-ministro, o momento decisivo de sua saída do governo foi a demissão do delegado Maurício Valeixo, na época diretor-geral da Polícia Federal, instituição que ele tentou proteger “até o fim”, apesar do desgaste de sua relação com o governo e da “sabotagem” do projeto anticrime.
Sua candidatura a presidente da República foi decidida durante o período em que morou nos Estados Unidos, quando resolveu aceitar o convite feito pelo Podemos ainda em 2020, porque, segundo ele, eleições devem ser períodos de esperança para a população, mas o que ele estava vendo era um sentimento de que os eleitores estavam “caminhando para uma espécie de funeral, e que o eleitor ia escolher apenas a cor do caixão”.
Para Moro o Podemos é um partido que sempre defendeu várias de suas pautas no Congresso, inclusive o combate à corrupção. Assim, “Por entender que eleição tem que ser um momento em que a gente tem que ter alternativas, tem que ter esperança, resolvi voltar. E resolvi voltar por vocês também”.
O epilogo final ainda não está definido, mas o fato é que Moro vem crescendo nas pesquisas e se firmando como terceira via para as eleições de 2022. Mesmo trilhando o caminho com certa timidez, assustou os presidenciáveis até agora bem colocados nas pesquisas. Se o livro vai ou não influenciar positivamente sua campanha só saberemos daqui a alguns meses, mas – pelo menos por enquanto-, seu lançamento foi politicamente oportuno.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.









