Igreja Universal terá que pagar R$ 200 mil para fiel que comprou ‘lugar no céu’; Situação remete a passagem bíblica ‘Os Vendilhões do Templo’, narrada pelos apóstolos João 2:15-16 e Mateus, 21:12-13

A condenação judicial da Igreja Universal do Reino de Deus por venda de indulgência que dá acesso à ‘Casa de Deus’ é uma negação da Reforma Protestante de Martinho Lutero, proposta em 31 de outubro de 1517, através das ’95 Teses’, pregadas à porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha.

A situação remete a citação da passagem bíblica ‘Os Vendilhões do Templo’, narrada pelos apóstolos João 2:15-16 e Mateus, 21:12-13, que relata que Jesus Cristo, em visita ao Templo de Jerusalém, o Templo de Herodes, cujo pátio é descrito como repleto de animais e mesas dos cambistas, que trocavam o dinheiro padrão grego e romano por dinheiro hebraico e de Tiro. A cidade estaria lotada com judeus que tinham vindo para a páscoa, algo em torno de 300 a 400 mil peregrinos. Conforme narram os apóstolos:

— “Fazendo um chicote com algumas cordas, “expulsou a todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio.” — Narra João 2:15-16.

— “Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, derrubou as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendiam as pombas; e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores. — Mateus 21:12-13.

Vende-se um ‘lugar no céu’

Reportagem de Ana Raquel Lelles, publicada nesta quarta-feira (23/03/2022) no Jornal Estado de Minas, narra que a Igreja Universal deve devolver, por decisão da Justiça de São Paulo, mais de R$ 200 mil doados para uma religiosa que disse ter sido coagida a comprar um “lugar no céu”.

A professora F.S, de 53 anos, contou à Justiça que procurou a Igreja em 1999, quando estava enfrentando problemas pessoais e buscava apoio. Ao longo dos anos, a fiel afirmou que fez uma série de contribuições monetárias para a instituição.

As maiores doações foram entre dezembro de 2017 e junho de 2018, totalizando R$ 204.500. Ela conta que o dinheiro era fruto de 30 anos de economia.

No documento, a religiosa afirmou que fazia as doações por acreditar que seria abençoada por Deus e que os líderes da igreja relacionavam vitórias da vida com o sacrifício financeiro. A professora completou que se sentia culpada por “estar em falta com a igreja”.

Conforme a defensora pública Yasmin Pestana, que representa a professora, a fiel foi coagida a fazer as doações. “F.S. realizou as doações porque tinha convicção de que apenas se sacrificando agradaria a Deus e teria a sua bênção”, disse.

Coagir é a ação de obrigar alguém a fazer algo ao criar um “temor” na cabeça da vítima e não depende de força física ou ameaça direta, segundo argumentação da advogada.

O que diz a Universal

Em contrapartida, a Igreja Universal afirmou que não coagiu a professora e que ela tem consciência das próprias ações. “A autora [do processo] é maior [de idade] e, portanto, absolutamente capaz de entender e refletir sobre a consequência dos atos praticados, não podendo agora alegar ter sido vítima de coação psicológica, decorrente do discurso litúrgico dos pastores”, alegou à Justiça.

Além disso, a Universal destacou que a fiel participou das dinâmicas da igreja por 18 anos e era “profunda conhecedora dos preceitos litúrgicos pregados”. A instituição completou que ela tinha liberdade para tomar as próprias decisões.

Ainda na defesa, a igreja disse que o dízimo é “necessário para o sustento do trabalho religioso” e não “configura violação à lei ou aos costumes”.

Apesar do arrependimento da fiel, a instituição pontuou que não pode devolver as doações “por mero arrependimento, uma vez que essas doações foram feitas espontaneamente”.

Decisão da Justiça

Para o juiz Carlos Bottcher, a professora foi vítima de coação em razão das ”pressões psicológicas empreendidas pelos membros da organização religiosa para realização das ofertas”.

Conforme o Código Civil, são nulas as doações ”de todos os bens, sem reserva de parte, ou renda suficiente para subsistência do doador, e também a doação quanto à parte que exceder aquela de que o doador, no momento da liberalidade, poderia dispor em Testamento”.

A igreja foi condenada a devolver os R$ 204,5 mil. A instituição ainda pode recorrer da decisão.

Referência

[1] A Igreja do Castelo de Vitemberga, também conhecida como Igreja de Todos-os-Santos de Vitemberga é uma igreja luterana localizada em Vitemberga, Alemanha.


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