O último Baile do Império | Por Luiz Holanda 

Localizada no interior da Baia da Guanabara, perto do Centro Histórico do Rio de Janeiro, a Ilha Fiscal ficou famosa por ter sido o local onde aconteceu o último baile do Império. Ocorrido no dia 9 de novembro de 1889, seis dias antes da Proclamação da República, o baile tinha como objetivo prestar uma homenagem à Marinha chilena, especialmente à embarcação Cochrane, atracada no porto.

Desde 1870 que a monarquia estava em crise. Além dos fatores já conhecidos, o crescimento político dos cafeicultores paulistas era sintoma de que o império estava prestes a cair. A república fazia parte do processo de transformações, muito em voga no século XIX.  Três mil convites foram distribuídos para a elite. Para o povo, a festa ocorreu na praça, em frente à Ilha Fiscal, demonstrando a clara divisão entre a nobreza e o povo.

No interior do salão estavam homens públicos de todas as orientações. Tanto os liberais como os conservadores foram convidados. O cardápio era de primeira: camarão, peru, faisão, sorvetes e chocolates foram apenas alguns breves exemplos de tudo o que foi servido naquela noite. Tudo estava escrito em francês. Podia-se ver uma infinidade de pratos refinados, com um variado leque de bebidas à disposição dos convidados: vinhos, cervejas, espumantes, ponches e licores estavam entre as opções ofertadas.

A Proclamação da República e o fim da Monarquia Constitucional aconteceu 6 dias após o baile, no dia 15 de novembro de 1889. Era o início de uma nova era para o Brasil. Não  houve uma transição absolutamente legal quanto a mudança da Constituição. Sob a ótica social, era necessária, pois os tempos eram outros. Já do ponto de vista popular a participação foi praticamente zero.

O sistema dominante era considerado elitista, e a influência política estava ligada à posse de bens ou posição social hereditária. A nobreza era por descendência ou conferida pela Monarquia. Considerando que não se podia impedir as transformações, a monarquia não era mais sustentável diante das novas visões políticas e filosóficas. Além de outros fatores, a herdeira do trono era a Princesa Isabel, casada com um Conde Francês, de modo que a figura e influência de um príncipe consorte estrangeiro também incomodava.

Na verdade, o questionamento era contra a legitimidade da Monarquia e sua continuação. Mesmo assim, o Brasil, durante a monarquia  podia sentir-se um pais privilegiado, pois tinha como imperador um homem como D, Pedro II, de visão progressista e aberta para o futuro. Em outras palavras, seu legado pavimentou a estrada para o progresso do Brasil.

Muito se questionou sobre como o processo de mudança aconteceu.  Muitos consideram a deposição de Pedro II uma deslealdade para com uma figura que sempre honrou o Brasil, promovendo seu desenvolvimento e sua defesa. Mais justo seria que existisse uma transição para a República, feita em decorrência da morte do imperador, que já se encontrava em idade avançada. Sua extraordinária figura foi reconhecida muito tempo depois. Hoje, Pedro II é um monumento nacional.

Talvez por isso precisaram de um marechal do exército para o golpe acontecer. A última noite da monarquia brasileira começou nas ruas do Rio de Janeiro, ao fim das canções francesas da Maison Moderne e do fechamento das cervejarias do largo do Rossio.

Conta-se que o imperador, imponente, adentrou no baile sorrindo. Ao pisar no salão nobre, tropeçou no tapete, e, ainda rindo, teria pronunciado a frase: “O imperador tropeçou, mas o Império não caiu”. Seis dias depois deu-se a queda.

Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

Transferida para a Marinha pelo Ministério da Fazenda, em 1913, a Ilha é hoje parte do Complexo Cultural da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM).
Transferida para a Marinha pelo Ministério da Fazenda, em 1913, a Ilha é hoje parte do Complexo Cultural da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM).

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