Para os amigos e Embaixadores Nize e Ricardo Peidró!
A sensação de percorrer ou, como dizem, fazer o Caminho para Compostela repete a de várias outras experiências de superação, como concluir os diferentes cursos, do primário ao superior, passando pelos intermediários, com destaque para a aprovação no concorrido vestibular, cabendo, também, nessa ordem de evocação, a conclusão dos dois anos de serviço militar. Da mesma natureza, a sensação de regozijo, após a aprovação em concurso disputado, em qualquer das dimensões da vida profissional. A diferença fundamental é que percorrer o Caminho deriva exclusivamente da eleição do peregrino, nada havendo que o obrigue. Sequer existe a expectativa de mínima recompensa de ordem material. O conforto, porém, de retornar ao aconchego da família, inclusive os membros de quatro pernas, e da convivência com os amigos soa como prêmio de valor incomparável. É como se descobríssemos que éramos felizes e não sabíamos! Na solidão daqueles infindáveis ermos, os momentos mais triviais de nosso lazer rotineiro se afiguram como quimeras distantes, inalcançáveis e paradisíacas.
É possível, contudo, que haja uma gradação na intensidade desse regozijo pós Caminho, em função dos atributos de cada viandante, sendo a idade, aparentemente, o mais marcante de todos. Pelo menos foi essa a impressão que colhemos dos diálogos com companheiros de jornada pelos longos caminhos que atravessam de Leste a Oeste a Pátria de Miguel de Cervantes.
De fato, é de todo recomendável que os candidatos a fazer o Caminho se inteirem dos desafios físicos e emocionais que certamente encontrarão, de intensidade e frequência que variam em função do conjunto dos atributos de cada um. Nesse sentido, a leitura de alguns dos bons livros sobre a mais antiga romaria do Planeta é de preceito, além de conversas instrutivas com pessoas que fizeram a extensa romaria. Em Salvador, há uma associação que reúne os que já fizeram o Caminho, tendo como líderes, entre outros, os experientes Ancelmo Rocha e Sandra Azevêdo, autores de textos sobre suas andanças, de grande utilidade.
Embora o Caminho seja percorrido por pessoas das mais diferentes idades, predominam os adultos entre trinta e sessenta anos, mais ou menos empatando os da faixa acima de sessenta com os menores de trinta. Acima de setenta anos, o número dos romeiros cai sensivelmente, sendo raros os peregrinos com mais de oitenta anos. Até onde pudemos observar, nenhum romeiro tinha a nossa idade, como tivemos a ocasião de constatar, em situações que geravam dúvida, indagando a idade de alguns, exceção feita, obviamente, às senhoras, embora a iniciativa de revelar a idade partisse frequente e espontaneamente delas. Sem dúvida, a mentira e a hipocrisia não combinam com o espírito do Caminho.
Quem mora em Salvador tende a não valorizar ou parece desconhecer que nossa cidade é dotada de algumas áreas de excepcional qualidade para a prática de saudáveis caminhadas, a exemplo da que rodeia o Dique do Tororó, o Campo Grande e, sobretudo, a nossa orla, começando no Porto da Barra e indo até Vilas do Atlântico, passando pelo Rio Vermelho, Pituba, Boca do Rio, Piatan, Itapuã, Farol de Itapuã e Stella Maris. Salvador possui, hoje, a orla mais arrumada entre todas as capitais do Brasil. Palmas para o Prefeito ACM Neto!
Pois é! O que mais ganhei na mística vilegiatura foi a confirmação de que Henry Ford estava certo ao dizer que “Se você acha que pode ou que não pode, em ambos os casos você tem razão!”
De nossa parte, um conselho: tenham sempre a companhia de alguém apto a ajudá-los. Nós mesmos contamos com a valiosa e agradável companhia e logística do sobrinho Ronald, do filho Joaci e da nora Gabriela, dos netos Maria Eduarda e Daniel, que moram em Madri, em diferentes momentos da jornada. Lídice, minha mulher, chegou para coroá-la nos 130 kms finais.
A felicidade do retorno aumentou com o crescimento do número de brasileiros decididos a não votar em ladrões!
*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário, ex-deputado federal constituinte e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB).







