As urnas eletrônicas podem ser auditadas? | Por Luiz Holanda

1966 foi o ano que marcou a informatização das eleições no Brasil.  Eleitores de 57 cidades votaram em 70 mil urnas eletrônicas, num total de 32 milhões. Confirmava, assim, o que estava previsto no art. 57 do Código Eleitoral de 1932, que previa “o uso de máquinas de votar, nas eleições, posteriormente regulado pelo Tribunal Superior Eleitoral”, assegurado o sigilo do voto.

Essa “máquina de votar” foi confeccionada anos depois, em 1955, quando o TSE formou uma comissão técnica de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas (INPE) e do Centro técnico Aeroespacial (CTA) para desenvolver o projeto. De imediato, os pesquisadores se preocuparam em eliminar qualquer intervenção humana na coleta, apuração e contagem dos votos, garantindo, assim, uma maior segurança e transparência no processo eleitoral.

Passados 25 anos de sua implantação, as acusações sobre as possibilidades de fraude nas urnas eletrônicas tomaram conta da política. O governo e as Forças Armadas só falam disso. Segundo alguns analistas, estão copiando o roteiro dos acontecimentos ocorridos no Estados Unidos, que terminou na invasão do capitólio após o presidente Trump apontar a existência de “votos ilegais” e questionar a vitória de Joe Biden. A partir daí surgiu no Brasil o debate sobre a impressão de votos, abrindo uma brecha para se questionar o resultado eleitoral do pleito que se avizinha.

De tanto se questionar a segurança das urnas eletrônicas, o Partido Liberal (PL) resolveu contratar um especialista no assunto para ver se as elas poderiam ser auditadas. Esse engenheiro, presidente do Instituto Voto Legal e especialista no assunto, disse em live, depois de examiná-las, que não era possível fazer este monitoramento sem que antes ocorra uma mudança na legislação:  “Você só audita se você se preparar antes, e por isso a importância desse projeto do voto “auditável”. Isso foi dito para os parlamentares da situação: Bia Kicis (PL-DF), Carla Zambelli (PL-SP), Greyce Elias (Avante-MG) e o ex-senador Magno Malta (PL-ES). Na época da live, Rocha se apresentava como administrador da Associação Grita, que criou com ex-colegas do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).

A mudança na lei seria a criação de um certificado digital do voto, conferido pelo eleitor após teclar suas opções na urna. Depois poderia ser impresso, caso necessário. Em outras palavras, o técnico disse que era necessária uma nova legislação permitindo que o documento seja juridicamente validado, ou seja: muda-se primeiramente as regras do TSE sobre o voto eletrônico para que ele possa fazer o trabalho para o qual foi contratado. Fez questão de ressaltar que seu contrato com o PL prevê apenas uma análise da governança e dos processos do TSE, não a recontagem em si, dos votos.

Conforme mostrou a Folha, o Instituto Voto Legal pretende mudar as regras do TSE sobre o voto eletrônico antes de fazer o trabalho para o qual foi contratado. Sem dúvida que o engenheiro – que foi um dos coordenadores da urna eletrônica- merece toda consideração, mas, segundo o ministro Luís Roberto Barroso, as diversas etapas de engrenagem dos votos e coletas de resultados das urnas permitem auditagem.

No dizer do ministro, há nove possibilidades de auditagem ao longo do processo, desde a instalação de software nas urnas até a apuração. Cita o exemplo da “zerézima” e a impressão total dos votos das urnas num papel após a finalização da votação, em que é possível chegar se o número de eleitores presentes na seção eleitoral coincide com o número de votos registrados nas urnas. Diante de celeuma até hoje não solucionada, cabe a pergunta: As urnas podem ser auditadas? E qual a intenção de se contestar seu resultado depois de 25 anos?

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.



Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading