Tudo pelo poder | Por Luiz Holanda

Nenhum político quer perder o poder. Se encontrar alguma dificuldade para mantê-lo fará de tudo para contorná-la, não importando as consequências. A visita de Nanci Pelosi a Taiwan parece ser um desses casos. Ela não se importou com as consequências da visita, tampouco com a reação de Pequim. A China vê a ilha como parte do seu território.   Daí a China dizer que a visita foi um “sinal severamente errado às forças separatistas a favor da independência de Taiwan”.

Taiwan não é um Estado soberano nem membro das Nações Unidas. Somente 14 Estados a reconhecem e mantém relações diplomáticas com ela, sendo 13 Estados-membros das Nações Unidas e o Vaticano, que é um estado observador da ONU. No entanto, Taiwan está representada em 122 países de forma não oficial.

No caso dos Estados Unidos, as relações comerciais e diplomáticas são mantidas através do Instituto Americano em Taiwan e do Escritório de Representação Econômica e Cultural de Taipei. Os EUA têm uma política de “ambiguidade estratégica” quando o assunto é Taiwan: não a reconhecem como um Estado, mas mantêm relações com a ilha. Nancy Pelosi, do Partido Democrata, sempre se apresentou como crítica ao governo chinês, especialmente com relação aos direitos humanos. Ao chegar na ilha disse que a visita da delegação do Congresso honrava o compromisso independente dos EUA em apoiar a “democracia vibrante”. de Taiwan.

Pelosi é a principal autoridade americana a visitar Taiwan desde 1997, mas a visita não foi aprovada sem restrições pelos próprios americanos. Em 21 de julho, Biden – que é do mesmo partido de Pelosi – afirmou que os militares avaliavam que a visita não era “uma boa ideia”, mas Pelosi pouco se importou com o aviso. Não só discursou como deu uma força ao partido que está no poder e que prega a independência da ilha.

China e Taiwan estão separados desde 1949, quando as tropas comunistas de Mao Tsé-Tung derrotaram os nacionalistas, que se refugiaram na ilha. Os chineses consideram a ilha, que tem uma população de 24 milhões de habitantes, uma de suas províncias históricas, mas não controlam o território. Desde que o independentista Partido Democrático Progressista retornou ao comando da ilha, em 2016, o projeto da superpotência continental para uma reunificação pacífica ficou inviável.

As primeiras consequências da ousada visita foram os exercícios militares, que começaram na costa da pequena nação insular a 180 quilômetros da China. Isso foi entendido como um verdadeiro bloqueio naval e aéreo. O Estreito de Taiwan é a principal linha de comércio de chips semicondutores produzidos na ilha, dos quais é líder mundial.

As relações da China com os EUA vêm sendo alimentadas por tensões de ambos os lados. Sob o comando de Trump, o governo reformulou a política de “Uma China”, mas também da chamada ambiguidade estratégica, e priorizou seus compromissos com Taiwan.

Biden vem na mesma linha. Em maio, quando a Rússia já tinha instalado seu palco de guerra na Ucrânia e os analistas vislumbravam um destino semelhante para Taiwan, o presidente americano chegou a dizer que os EUA interviriam militarmente em favor da ilha, caso fosse atacada pela China. A Casa Branca se viu obrigada a recuar.

Pelosi foi advertida do perigo, mas achou que retirar Taiwan de seu roteiro significaria ceder à China, com quem mantém uma relação de confronto há três décadas, principalmente no combate às supostas atrocidades cometidas pelo regime. Além disso, ela é candidata a reeleição e pretende ficar mais quatro anos na presidência da Câmara dos Estados Unidos. Consequentemente, sua reeleição é mais importante do que uma simples guerra. Tudo é valido para se conquistar e se manter no poder.

*Luiz Holanda. advogado e professor universitário.


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