Foram três anos e 44 dias. Na longa história britânica, Boris Johnson foi o sétimo primeiro-ministro que menos tempo ficou no cargo. Ao todo, 55 ocuparam a cadeira. Não saiu por vontade própria, mas, na opinião de muitos, por seus próprios erros. Seu governo foi marcado por escândalos políticos pelos quais ainda responderá pelos próximos meses.
Mas isso não significa que deixa a vida pública. Aliás, deu sinais de que volta. Ele entrega nesta terça-feira a sua renúncia à rainha Elizabeth II, que vai convidar a nova líder do partido conservador, Liz Truss, a formar o próximo gabinete. Será a décima-sexta pessoa a ocupar o cargo de premiê a ser formalmente incumbida pela atual soberana para assumir a chefia de governo.
Ainda é cedo para dizer o que será do futuro de Johnson. Em princípio, volta para o parlamento. No Reino Unido, todos os ministros são necessariamente deputados eleitos. Em sua última sessão de perguntas e respostas para o primeiro-ministro, despediu-se com um “Hasta la vista, baby”, imitando a frase do personagem de Arnold Schwarzenegger no filme “O Exterminador do futuro”. Quando assumiu o cargo em 2019, disse que aquele era o melhor emprego do mundo, o que repetiu ao anunciar a sua renúncia há dois meses. Dentre a militância conservadora, ainda há quem veja sua saída com contrariedade. Político cheio de carisma, Johnson deu ao partido conservador a maior vitória nas urnas dos últimos 30 anos, em dezembro de 2019. Uma maioria folgada como não se via há tempos, herdadas por sua sucessora Liz Truss, que, em seu discurso pouco inspirado de vitória, na segunda-feira, o chamou de amigo.
Festas clandestinas
Mas o seu futuro também depende de investigações contra ele. Em uma delas, a corregedoria interna avalia o comportamento dele e outros integrantes do governo em festinhas clandestinas realizadas na residência oficial de Downing Street, em pleno período de lockdown no Reino Unido. Outra investigação, uma espécie de inquérito parlamentar, será aberta para esmiuçar a condução da pandemia em seu governo, o que pode respingar nele. O gabinete é acusado de ter demorado a tomar medidas mais drásticas para conter a contaminação por Covid-19, o que teria aumentado o número de mortes.
Neste momento, uma investigação que já está em curso no parlamento pode ser o seu principal problema. Se ficar constatado que ele induziu os deputados ao erro ao fazê-los acreditar que não houve desrespeito às regras do lockdown, Johnson pode ser suspenso e até perder o assento. Não se pode esquecer que ele foi declarado culpado em investigação policial, que o obrigou a pagar multa justamente por desrespeitar as regras previstas para o confinamento. Uma multa assim é algo inédito para um primeiro-ministro em funções. Mas tudo isso ainda leva um certo tempo.
O fato é que nesta terça-feira, ele entrega sua carta de renúncia à rainha em Balmoral, na Escócia, onde a monarca, aos 96 anos e com problemas de mobilidade, está de férias. Liz Truss também se encontra com a rainha na Escócia. Só depois será declarada primeira-ministra.
Desafios de Truss
Quarta integrante conservadora a ocupar a vaga em seis anos, é também a terceira mulher. O que se espera é que ela leve mais um par de dias formando o seu gabinete. Não será escolha fácil. A disputa pela vaga de primeiro-ministro expôs ainda mais as divergências internas do seu partido. Ela agora terá de dar sinais de que pretende unir as alas mais radicais, que a ajudaram a se eleger, às mais moderadas. Vai ser essencial que a sigla apare suas arestas internas para tentar enfrentar uma situação econômica quase dramática e criar condições de disputar a eleição geral de 2024 com a oposição. Se a eleição fosse hoje, o líder trabalhista Keir Starmer venceria Truss com boa margem.
Certamente o maior desafio da nova premiê é a crise do alto de custo de vida. Com inflação há alguns meses no mais alto patamar dos últimos 40 anos, o país se prepara para um período de estagflação. Nesse contexto, a crise energética, como em outros países, é o problema mais urgente. Com a previsão de novo reajuste nas contas de energia previsto para outubro de 80%, espera-se que milhões de britânicos não tenham como pagar suas despesas do dia a dia e já há ameaça de desobediência civil. Existe uma grande campanha na internet para que os consumidores simplesmente deixem de pagar as contas. Truss, depois de idas e vindas, admite que pode congelar as tarifas energéticas, sugestão originalmente apresentada pela oposição trabalhista. De todo modo, ela não deu detalhes do plano que pretende seguir. Avisou, porém, que terá tudo pronto para ser anunciado em uma semana.
*Com informações de Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres.
Share this:
- Click to print (Opens in new window) Print
- Click to email a link to a friend (Opens in new window) Email
- Click to share on X (Opens in new window) X
- Click to share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn
- Click to share on Facebook (Opens in new window) Facebook
- Click to share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp
- Click to share on Telegram (Opens in new window) Telegram
Relacionado
Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)
Subscribe to get the latest posts sent to your email.




