Projeto de cinema comunitário ‘Cinema e Sal’ fortalece educação popular nas ilhas da Bahia

Quem conta nossas histórias? O audiovisual é uma ferramenta para as juventudes criarem suas próprias narrativas e fortalecer suas identidades e territórios. A iniciativa tem como principais âncoras: oficinas de audiovisual, produção de curtas e mostras audiovisuais. O Coletivo Cinema e Sal que já esteve em três ilhas do arquipélago de Cairu, chega agora na ilha de Itaparica, coração da Baía de Todos os Santos. O projeto está realizando nos meses de setembro a dezembro uma série de oficinas de documentário para jovens e como resultado desses encontros serão produzidos quatro curtas que serão exibidos na Mostra Audiovisual Final que está prevista para os dias 9 e 11 de dezembro de 2022, em Itaparica e em Amoreiras (local a ser definido). A Mostra, que conta também com outros curtas convidados para sua curadoria, tem como eixo temático o “Mar, a Naturezas e Comunidade”. Todas as atividades do projeto são gratuitas.

“Existem histórias em todos os lugares, em todas as pessoas. E nesse sentido, sinto que os filmes já existem, já existem nos corações dos jovens em seus cotidianos, falta filmá-los. Reconhecer esse valor e ocupar as telas” e acrescenta “Falar sobre o Cinema e Sal é falar sobre um pequeno recorte do Cinema Comunitário latinoamericano, sobre um audiovisual ambiental, sobre a cultura do mar. Um projeto que dialoga com as práticas de educação e cinema, educomunicação, audiovisual participativo, cinema comunitário e vai descobrindo suas práticas e desafios na criação coletiva e na beleza do encontro”, destaca a idealizadora e diretora do Cinema e Sal, Lara Beck.

O Coletivo Cinema e Sal continua navegando e conectando as juventudes através das águas e do potencial transformador do cinema. Nessa nova etapa, em Itaparica, duas oficinas ocorrem paralelamente, uma na Sede no município de Itaparica e outra em Amoreiras. As oficinas propõem experiências de participação comunitária, educomunicação, colheita de saberes, cartografia afetiva, construção de histórias, filmagem de curtas, edição e difusão, culminando com a realização audiovisual dos quatro curtas documentários e Mostras de Cinema na Ilha.

“O que mais me emociona neste projeto é poder conhecer diferentes pensamentos das juventudes, ao longo dos anos. Esta terceira edição tem um contexto específico: pós pandemia – os jovens estão sedentos por espaços de diálogo, encontro e conhecimento. E o cinema comunitário é essa janela de escuta do sujeito e da vida. Especialmente as juventudes de Itaparica me encantam pelo conhecimento que tem sobre seu próprio território, pela história do Brasil e pelo olhar descolonizado, que reivindica a própria cultura. O cinema comunitário deveria ser uma política pública, para seguir ouvindo e contando as histórias das juventudes dos territórios pesqueiros de todo o Brasil”, revela a coordenadora de educação, Natalie Lima Hornos.

Para a coordenadora de produção, Irá Santos, “as oficinas para produção de curtas são pensadas de forma horizontal, ouvindo, coletando saberes locais e legitimando as perspectivas dos jovens. Por outro lado, a responsabilidade trazer referências relacionadas às temáticas escolhidas para serem contadas, oportuniza os debates necessários para o enriquecimento da produção dos curtas metragens”.

Outro momento interessante do projeto é a exibição dos filmes em uma mostra na ilha, reunindo todos os envolvidos e a comunidade. “Além das oficinas, a proposta de formação de plateia é a “cereja” do coletivo porque faz os olhares curiosos dos alunos encheram-se de brilho e orgulho ao testemunhar seus filmes sendo exibidos em uma grande tela de cinema para seus familiares e suas comunidades nas mostras ao ar livre, sempre que possível, próximas ao mar”, destaca Irá Santos.

O Cinema e Sal – Rede Audiovisual é produzido pela Camboa Audiovisual, com apoio financeiro do Fundo de Cultura do Estado da Bahia e apoio da Associação Ilha das Crianças (Amoreiras) e da Prefeitura de Itaparica.

Por que fazer o ‘Cinema e Sal’?

Ao longo da história, o audiovisual e meios de comunicação, em sua maioria, se construíram segundo a lógica industrial hegemônica e não como uma ferramenta de expressão dos povos. Em suas diferentes plataformas, as histórias ou notícias “das telas” costumam privilegiar narrativas construídas pela classe dominante, reproduzindo seus padrões estéticos, culturais e sociais. Diante desse panorama, as comunidades, povos originários ou periferias vivem uma cruel contradição: em um mundo cada vez mais imagético, se tornam cada dia mais invisíveis. O Cinema e Sal através da prática do Cinema comunitário marca presença nessa luta: contribuir para que o audiovisual e as mídias se desloquem de um lugar colonizador e possam se transformar em uma ferramenta de emancipação. É também um instrumento na luta contra a lacuna existente na educação infanto-juvenil lúdica, voltada ao estímulo à imaginação e criatividade. O Cinema e Sal precisa continuar navegando para construir junto às juventudes uma prática na qual, a própria comunidade se apropria de ferramentas audiovisuais para auto-representar-se e dar visibilidade às suas realidades em modo de produção horizontal.

Lara Beck – Idealizadora do Cinema e Sal

Lara Beck Belov é diretora, roteirista, montadora e educadora audiovisual. Entre seus trabalhos se destacam a direção e roteiro do longa “O Amor dentro da câmera”, (Prêmio de Melhor Longa no 25º FAM Mercosul e Menção de Melhor Longa 22º Bafici, atualmente em exibição no Canal Brasil). Ela também idealizou e dirigiu o “Cinema e Sal-Rede Audiovisual” com 12 curtas realizados e exibidos em mais 10 países. Atua também como educadora audiovisual convidada em diversos projetos de cinema comunitário latino-americanos como Cine en Movimiento (Argentina) e Ojo Semilla (Equador). Atualmente desenvolve a nova etapa do Cinema e Sal na ilha de Itaparica e dirige o documentário “Onde a onda quebra”, em fase de produção.

Rede de Cinema Comunitário da América Latina e do Caribe

O Cinema e Sal faz parte da Rede de Cinema Comunitário da América Latina e do Caribe, que reúne coletivos, festivais, escolas audiovisuais e projetos que desenvolvem com o audiovisual com processos de empoderamento, acessibilidade, educação e modos de produção horizontais em comunidades tradicionais ou zonas periféricas. Em um cinema que

valoriza os saberes locais e constrói subjetividades. Os filmes do projeto Cinema e Sal participaram de mais 20 festivais e encontros de Cinema Comunitário do Brasil e do Mundo, como 13ª edição do “FICI – Festival Internacional de Cinema Infantil”, “Cine Latino de Toulouse e Festival Internacional de Cinema Infantil de Chicago”, sendo Premiado no “Festival Nueva Mirada para infância e Juventude” (Buenos Aires 2015) com a melhor produção de criação coletiva.

Histórico – Cinema e Sal

Nos últimos sete anos, o Cinema e Sal realizou seis Mostras Audiovisuais Itinerantes e seis oficinas de documentários para crianças e adolescentes, nas quais foram produzidos doze 12 curtas coletivos, sempre guiados pelo olhar e escuta dos jovens e sua relação afetiva com a natureza e a cultura das ilhas do da Bahia. Foram montadas três bases audiovisuais nas ilhas do arquipélago de Cairu, com câmeras e computadores, para fortalecer os processos de autogestão.

“Cada curta teve uma história para além de sua realização. E fiquei pensando na metáfora ‘é só a ponta do iceberg’, que adaptando para o clima tropical local, podemos dizer que um filme pronto ‘é só a praia de um vasto oceano’. Fiquei me interessando por esse vasto oceano e no que acontece e que acaba por convergir em um filme. Às vezes o filme é pretexto para outras descobertas, mas também na contracorrente: o filme pode ser produtor de ‘momentos’. Momentos que, sem ele, poderiam não existir”, conta Lara Beck.

Uma média de 80 adolescentes e crianças produziram seus próprios curtas, com temáticas que valorizam e promovem a identidade local. Temas como a relação afetiva da comunidade com o mar, a valorização da pesca, o resgate de festas populares e brincadeiras tradicionais, a gestão dos resíduos sólidos em ilhas, a proteção ao meio ambiente, fazem parte dos conteúdos dos documentários do Cinema e Sal. Nas mostras realizadas pelo projeto, uma média de 2.500 pessoas, entre elas crianças, jovens, professoras, marisqueiras, pescadores e líderes comunitários, tiveram acesso às programações.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.



Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading