“Quero estar entre os melhores. Não aceito ser mediano”, diz futebolista Bruno Guimarães sobre participação na Copa do Mundo FIFA Catar 2022

Para Bruno Guimarães, existe um antes e depois em sua história no futebol. Ele passa pela primeira vez em que pôde, enfim, representar a seleção brasileira principal, em outubro de 2020. A partir daquele momento, como o próprio meio-campista do Newcastle define, ele se tornou “um jogador de verdade”. Foi como se em sua mente o sarrafo, de uma hora para a outra, houvesse mais do que duplicado de tamanho.

“Quando você veste a camisa, você também se coloca uma pressão grande, você não pode aceitar ser ruim porque, para carregar a camisa do seu país, você tem que ser um dos melhores. Então, acredito que, depois disso, a mentalidade muda completamente. Eu não aceito ser mediano mais, quero estar entre os melhores”, conta.

Em entrevista, o atleta de 25 anos, que defendeu também Osasco Audax, Athletico Paranaense e Lyon, fala um pouco sobre a sua caminhada até a Copa do Mundo, comenta as suas expectativas para o Qatar e explica como quer coroar com chave de ouro o excelente 2022 que vem fazendo com a seleção: em cinco partidas, um gol e quatro assistências.

Confira a entrevista 

— Chegada na Premier League, nascimento do seu filho Matteo e agora a Copa do Mundo. É o ano mais especial da sua vida?

Bruno Guimarães: É, acredito que sim. Se não for o melhor, é o segundo melhor [risos[. Esse tem sido, sem dúvida, um ano muito especial por tudo que vem acontecendo na minha vida. Estou no meu melhor momento no clube, melhor momento fora do clube, venho vivendo meus sonhos e espero poder dar continuidade a tudo isso. Não quero parar por aqui, é apenas o começo. O objetivo da Copa do Mundo está chegando e a ansiedade vai batendo cada vez mais, mas estou preparado para os desafios. Qual a sua primeira memória de Copa? Cara, para ser sincero, lembro um pouco da Copa de 2002, em específico, de um jogo que acordei de madrugada, que foi o do gol do Ronaldinho [contra a Inglaterra, nas quartas de finais]. Lembro também que, quando a gente foi campeão, queria fazer o corte do Ronaldo de qualquer jeito, fiquei desesperado [risos], mas minha mãe não deixou. Mas essas últimas Copas lembro bastante. Eu morava numa vila, a gente pintava ela toda, enfeitava e fazia bolão dos jogos. Estava até conversando com um amigo meus esses dias, ‘Caraca, olha como as coisas são doidas… Quatro anos atrás, estava enfeitando a vila, fazendo bolão para ver quem acertava quem ia fazer o primeiro gol e, hoje em dia, tenho a chance de poder estar lá.’ É um filme maravilhoso que vai passando na cabeça, mas, enfim, não pode deixar ser só um filme. Você precisa entrar em ação no filme quando chegar a hora.

—  Quando você estava começando a carreira no Audax, morando num quarto com diversos garotos e ratos, imaginava que chegaria a disputar o Mundial um dia?

Para ser sincero, sempre foi um sonho jogar pela seleção, jogar uma Copa do Mundo, mas, naquela época, era um sonho muito distante, sabia que tinha que trabalhar muito. Estava muito longe, mas óbvio que tinha esse sonho comigo. Acredito que todas essas coisas que passei na base, ter saído de casa muito cedo, morado em outra cidade, em um lugar precário assim, me serviu bastante para ser forte, ser o que sou hoje. Aprendi a dar valor a coisas na minha vida que eu não dava antes. Acho que valeu a pena, mas aquela altura ainda era algo muito distante, claro. Naquela mesma época, você chegou a ter conversas para ir para França, China e até mesmo Hungria. Já parou para pensar que, se não tivesse se transferido para o Athletico, a sua carreira poderia ter seguido para um lado diferente? Acredito que as coisas são como têm que ser. Mas poderia ter sido, sim, diferente. Quando fui para o Athletico na época, sabia que não ia para jogar muito, ia para compor o grupo e, quando surgissem as oportunidades, teria que dar o meu melhor. Foi uma decisão que não tive dúvidas porque eu sempre quis ir para lá. Mas naquele momento, quando você vê Europa no seu horizonte, as conversas com o Bordeaux rolando, é uma decisão difícil, mas estava convicto, ao mesmo tempo, de que não poderia dar um passo maior que a perna, e esse seria o caso se eu fosse para fora. Ter ido para o Athletico foi uma coisa maravilhosa para mim. Depois que eu fui para lá, deu tudo certo na minha vida, foi a atitude correta num momento correto.

— Em 2018, você já pensava e tinha como meta estar na próxima Copa?

Sim, em 2018 eu já acreditava mais e pensava: ‘Caramba, estou começando a jogar no Athletico, estou num clube grande do Brasil. Para a próxima Copa, quero sonhar, quero poder estar lá. Vou trabalhar primeiro para as Olimpíadas, que era o meu objetivo inicial.’ E consegui essa meta, 100% realizada. Mas, desde 2018, meu sonho já era, de fato, ir entrando aos poucos na seleção, como foi feito. Fiz partidas como titular, marquei gol, dei assistências, tive jogos bons e agora, sem dúvida, o objetivo principal é buscar meu espaço, depois a vaga entre os 11 e, o mais importante de tudo, o título, claro. Você foi convocado pela primeira vez para a seleção no início de 2020, mas, por causa da pandemia, teve que esperar mais sete meses para, enfim, se apresentar. Como foi passar por isso? Ah, fiquei ‘p’ da vida [risos], no bom sentido. Trabalhei para caramba para chegar e, quando cheguei, entrou a pandemia e não acreditei. Depois, quando voltei da pandemia, estava mal, com dores e pensei comigo mesmo: ‘É agora que não vou ser convocado, vou ter que passar por tudo de novo.’ Mas o Tite me levou na primeira convocação depois da pandemia. Na sequência, passei por alguns altos e baixos no Lyon, algumas convocações que não fui, mas nunca deixei de trabalhar, nunca deixei de acreditar em mim mesmo. No Audax [primeiro clube], sabia que estava bem distante, mas agora não podia deixar de sonhar e continuei trabalhando, me dedicando e hoje tenho certeza que, por tudo que venho fazendo no Newcastle, estou cada vez mais próximo dos outros sonhos.

— Você já chegou a dizer que, quando vestiu a camisa da seleção pela primeira vez, se sentiu um jogador de verdade. O que mudou para você?

Acredito que todo mundo tem o sonho de vestir a camisa da seleção, então, quando você vai pela primeira vez, você bota a camisa e fala: ‘caraca, estou bonito para caramba’ [risos]. É tudo que você sempre quis, você começa a ver as coisas de outra forma, sabe? Começa a pensar: ‘tenho que jogar bem, sou jogador da seleção brasileira, não posso estar num nível abaixo. Quero desafiar todo mundo que vier pela frente, vou passar por cima.’ Quando você veste a camisa, você também se coloca uma pressão grande, você não pode aceitar ser ruim porque, para carregar a camisa do seu país, você tem que ser um dos melhores. Então, acredito que, depois disso, você se torna um jogador de verdade, a mentalidade muda completamente, pelo menos comigo mudou bastante. Eu não aceito ser mediano mais, quero sempre ser bom, bom, bom. Às vezes, faço alguns jogos medianos e fico chateado comigo mesmo, falando: ‘não posso aceitar isso, quero estar entre os melhores, então, tenho que fazer bons jogos”. Acredito que isso foi determinante para minha mudança de mentalidade. Quando você recebeu a proposta de um Newcastle que lutava contra o rebaixamento, chegou a pensar no impacto que isso teria em seu sonho de ir para a Copa? Talvez tivesse sido mais cômodo ficar no Lyon? Olha, acho que foi um momento muito complicado de fazer a mudança, mas eu sabia que a Premier League poderia ser um degrau a mais para mim, poderia ser uma coisa que me daria algo a mais na frente de jogadores com quem eu disputaria vaga. Sempre tive um sonho enorme de jogar na Inglaterra. É claro que, quando você vê a situação do Newcastle na época, a gente fala: ‘caramba, o que será que está acontecendo?’ Mas eu busquei ver tudo, se tinham contratações, se havia mudado de treinador, então, fui me acalmando. Eu sempre acreditei em mim e, desde que saí de casa com 15 anos, o meu objetivo era ser jogador. E, quando eu vim para cá, eu sabia que, se fizesse o meu melhor, ia com certeza me aproximar mais da seleção e foi uma decisão corretíssima. Hoje, boto a cabeça no travesseiro e agradeço por ter tomado essa decisão. Foi a melhor decisão que tomei em minha vida.

— O que o Newcastle e a Premier League acrescentaram em seu futebol?

Acredito que nasci para jogar na Premier League. A intensidade do jogo, a forma de pensar o jogo, o jeito das torcidas, acho que é uma liga muito dinâmica, muito rápida, com uma velocidade absurda. A Ligue 1 é uma liga física, muito forte, mesmo, mas não tem a intensidade que tem a Premier League. Hoje, se eu comparo meus números físicos e de intensidade, eles são muito melhores do que eram no Lyon. Acredito que tem muita a ver com a mudança para a Inglaterra, o jeito que o jogo é corrido, dinâmico, a bola não para, não tem faltinha. Então, hoje sou um jogador muito mais dinâmico. Qual foi a sensação de marcar o seu primeiro gol pela seleção e comemorar à la Bebeto em 1994? Depois desse gol, fiquei um dia sem dormir [risos], só pensava nisso, foi sinceramente como tirar um caminhão das costas. Nesse mesmo jogo, dei assistência ao [Lucas] Paquetá, joguei muito bem e fui coroado com o gol. Eu já sabia que ia ser pai, tinha marcado o meu primeiro com o Newcastle, mas era ainda muito recente, então, não pude comemorar lá. Mas, depois que isso aconteceu na seleção, não podia perder essa oportunidade. Botei a bola debaixo da camisa [risos], foi muito legal, recebi muita mensagem. Foi um momento, sem dúvida, especial. Tenho essa foto em casa e vou contar para o Matteo quando ele estiver um pouquinho maior que ele estava na barriga do papai antes da barriga da mamãe [risos].

— Você tem um 2022 muito bom na seleção com um gol e quatro assistências em cinco jogos.

Tenho, de fato, um bom número de contribuições para gol. Às vezes, tenho entrado pouco tempo e, mesmo assim, conseguido participar dos gols. É legal e o meu objetivo é poder ajudar da maneira que eu posso. Quero continuar da mesma forma na Copa. O que pode falar de Suíça, Sérvia e Camarões, adversários do Brasil no Qatar? A gente conhece os jogadores, trabalha com alguns, enfrenta outros quase todos os fins de semana. Aqui no Newcastle, tem o [Fabian] Schär, zagueiro suíço, joguei com o [Xherdan] Shaqiri no Lyon, o [Karl Toko] Ekambi de Camarões também, então, tenho uma ideia do que virá pela frente. No dia a dia no clube, a gente sempre brinca sobre isso, rola muita resenha com o Schär, por exemplo, e mesmo com outros jogadores como o [Kieran]Trippier e o [Nick] Pope. Você percebe que eles valorizam muito o Brasil, ficam falando que estamos num momento muito bom, mas a gente sabe que, por mais legal que seja isso, o que vai contar é quando rolar a bola de verdade. Sente que a forma como enxergam a seleção brasileira mudou nos últimos meses? Acredito que sim. Pelo menos na Inglaterra, todo mundo valoriza muito o Brasil. O número de talentos que a gente tem na seleção é extraordinário. Se você for pegar no ataque, então, é tanto jogador que eu não queria ser o Tite. Agora todo mundo fala do Brasil e da Argentina, o que é legal para o futebol Sul-americano. E ainda tem o Equador, que imagino que vai dar trabalho nessa Copa, é uma seleção chata de se jogar contra.

Jogos do Brasil no Grupo G

O Brasil está no Grupo G ao lado de Sérvia, Suíça e Camarões e disputa nos seguintes dias e horários:

  • Brasil x Sérvia 24 de novembro, 16h de Brasília (19h de Lisboa, 22h de Doha)
  • Brasil x Suíça 28 de novembro, 13h de Brasília (16h de Lisboa, 19h de Doha)
  • Camarões x Brasil 2 de dezembro, 16h de Brasília (19h de Lisboa, 22h de Doha)

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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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